{"id":7669,"date":"2007-02-17T11:26:00","date_gmt":"2007-02-17T11:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7669"},"modified":"2021-12-17T11:40:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:07","slug":"claro-e-escuro-mas-nao-a-preto-e-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/claro-e-escuro-mas-nao-a-preto-e-branco\/","title":{"rendered":"Claro e escuro, mas n\u00e3o a preto e branco"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><span style=\"color: black;\"><em>Toda a verdadeira obra de arte est\u00e1 sujeita \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do tempo, que se encarrega de a lapidar at\u00e9 ela revelar o seu valor intemporal. Por isso, muitas vezes, quando um artista morre, entra numa esp\u00e9cie de limbo. Os que partilharam os problemas sociais e pol\u00edticos a que ele deu express\u00e3o ficam ligados, tamb\u00e9m emocionalmente, a essa obra. Mas \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais novas &#8211; e tendo em conta, como \u00e9 \u00f3bvio, os vinte anos que j\u00e1 passaram sobre a morte do Zeca &#8211; falta essa viv\u00eancia, essa refer\u00eancia. Paradoxalmente, para se descobrir e redescobrir o que a obra de Jos\u00e9 Afonso realmente significa para Portugal, ainda \u00e9 preciso algum tempo e, sobretudo, trabalho. Um trabalho que o leve aos mais novos, \u00e0s escolas, que ultrapasse de longe (mas sem o ignorar!) o conhecimento rudimentar de algumas das can\u00e7\u00f5es mais populares, que o valorize n\u00e3o s\u00f3 como m\u00fasico genial, mas tamb\u00e9m como poeta e artista que, como poucos, se soube renovar ao longo das d\u00e9cadas e demonstrou uma sensibilidade sismogr\u00e1fica em rela\u00e7\u00e3o aos problemas do seu tempo. Ou seja: um trabalho de mem\u00f3ria que n\u00e3o o transforme numa m\u00famia, um trabalho cient\u00edfico que n\u00e3o o aprisione em grelhas interpretativas, um trabalho pedag\u00f3gico que n\u00e3o o torne numa chatice. Uma festa viva, plural, tumultu\u00e1ria.<br \/>H\u00e1 quem diga que o Zeca foi um gigante. E, de facto, essa coincid\u00eancia rara do criador musical com o poeta e int\u00e9rprete j\u00e1 em si o torna numa figura de excep\u00e7\u00e3o. Mas os que o conheceram gostariam com certeza de lembrar mais um dos seus dons que atravessa todos os outros aspectos da sua vida. Falo da sua pureza humana (n\u00e3o confundir com ingenuidade). Ele soube n\u00e3o esconder a crian\u00e7a que existia em si, n\u00e3o rasurar medos, e por isso n\u00e3o criar muros entre si e os outros. Essa parece-me a fonte da sua sensibilidade e solidariedade, do seu sentido de justi\u00e7a. E essa tamb\u00e9m \u00e9 uma das raz\u00f5es por que a sua obra, deposit\u00e1ria da sua dimens\u00e3o humana, sobreviver quando j\u00e1 nenhum dos que conviveram com ele esteja vivo.<br \/>Ao olharmos de perto os textos l\u00edricos de Jos\u00e9 Afonso, h\u00e1 os que parecem simples, mas poucas vezes o s\u00e3o, (como exemplo mais conhecido, &#8220;Gr\u00e2ndola, vila morena&#8221;) e cuja pretensa simplicidade vem do facto de serem facilmente cant\u00e1veis. Outros, herm\u00e9ticos, que, al\u00e9m de nos exigirem o conhecimento das circunst\u00e2ncias em que nasceram, tamb\u00e9m do ponto de vista musical s\u00f3 dificilmente s\u00e3o assimil\u00e1veis, como por exemplo &#8220;Era um redondo voc\u00e1bulo&#8221;. E ainda h\u00e1 os muitos outros, n\u00e3o musicados, quase desconhecidos, \u00e0 espera de reconhecimento por parte de uma cr\u00edtica liter\u00e1ria preconceituosa para a qual a rotulagem de Jos\u00e9 Afonso como cantor pol\u00edtico serve de motivo para o ignorar como poeta.<br \/>Alguns dos seus textos, inspirados em formas populares, de facto parecem simples. Mas ser\u00e1 que a poesia popular alguma vez foi simples? Para prova em contr\u00e1rio basta a leitura atenta dos Cancioneiros. E basta tamb\u00e9m pegar num dos poemas do Zeca, de cariz mais popular, para percebermos a sua mestria formal e densidade po\u00e9ticas. Cito, a t\u00edtulo de exemplo, a &#8220;Can\u00e7\u00e3o de embalar&#8221; do LP Cantares do andarilho (1968):<\/p>\n<p>Dorme meu menino a estrela d&#8217;alva<br \/>J\u00e1 a procurei e n\u00e3o a vi<br \/>Se ela n\u00e3o vier de madrugada<br \/>Outra que eu souber ser p&#8217;ra ti<\/p>\n<p>Outra que eu souber na noite escura<br \/>Sobre o teu sorriso de encantar<br \/>Ouvir s cantando nas alturas<br \/>Trovas e cantigas de embalar<\/p>\n<p>Trovas e cantigas muito belas<br \/>Afina a garganta meu cantor<br \/>Quando a luz se apaga nas janelas<br \/>Perde a estrela d&#8217;alva o seu fulgor<\/p>\n<p>Perde a estrela d&#8217;alva pequenina<br \/>Se outra n\u00e3o vier para a render<br \/>Dorme qu&#8217;inda a noite \u00e9 uma menina<br \/>Deixa-a vir tamb\u00e9m adormecer<\/p>\n<p>Essa densidade que acabei de referir deve-se ao uso, nas quatro estrofes com versos de nove s\u00edlabas, \u00e0 chamada t\u00e9cnica de leixa-pren que retoma elementos do \u00faltimo verso de uma estrofe para os integrar e alargar no primeiro verso da estrofe seguinte. Assim nasce um tecido textual em que o fim do poema remete outra vez para o in\u00edcio. A voz do adulto tem a fun\u00e7\u00e3o de sossegar a crian\u00e7a, de a acompanhar na sua viagem para o sono, mas ao mesmo tempo as imagens po\u00e9ticas ganham uma autonomia e grandeza que ultrapassam a compreens\u00e3o do menino. A estrela d&#8217;alva, vis\u00edvel ao amanhecer, \u00e9 o planeta V\u00e9nus, tamb\u00e9m denominada de estrela da tarde, vis\u00edvel ao cair da noite. \u00c9 a ela que o cantor delega a protec\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e, por ela ainda n\u00e3o ter aparecido, a substitui. Mas essa substitui\u00e7\u00e3o , ao n\u00edvel do texto, \u00e9 dupla. Outra estrela tomar o lugar da estrela d&#8217;alva na aus\u00eancia dessa, porque a crian\u00e7a, para n\u00e3o se sentir abandonada na noite, necessita, se n\u00e3o da luz concreta e real, pelo menos da ideia da perman\u00eancia. Por isso, a voz do cantor evoca as trovas e cantigas, pondo todo o universo nocturno ao servi\u00e7o do menino e colocando-o numa esp\u00e9cie de redoma para que nada de mal lhe possa acontecer. Ao prometer a estrela para a manh\u00e3 seguinte ele garante a restitui\u00e7\u00e3o da ordem vis\u00edvel em que a crian\u00e7a se move.<br \/>A estrela d&#8217;alva \u00e9 o elo entre a noite e a manh\u00e3, a maior estrela no c\u00e9u na perspectiva humana, mas no fim do poema o cantor torna-a pequena, \u00e0 dimens\u00e3o da crian\u00e7a, para a integrar no seu mundo infantil, tal como procede com a noite, transformada em menina cansada.<br \/>A singular beleza desta &#8220;Can\u00e7\u00e3o de embalar&#8221; reside na sequ\u00eancia das suas imagens, em que o ponto de partida \u00e9 o menino pequenino, para depois evocar o universo todo e, no final, reduzi-lo ao tamanho de uma crian\u00e7a: um acto de amor transformado em cantiga.<br \/>Num texto l\u00edrico n\u00e3o musicado, &#8220;Fui ontem ao Norte&#8221;, que deve ter sido escrito nos anos que precederam o 25 de Abril, ou seja, em proximidade temporal com a &#8220;Can\u00e7\u00e3o de embalar&#8221;, o tema da opress\u00e3o pol\u00edtica invade a linguagem po\u00e9tica e torna-a herm\u00e9tica.<\/p>\n<p>Fui ontem ao Norte<br \/>era ainda cedo<br \/>guizos tremiam numa feira de gado<br \/>Caras extintas por dentro<br \/>Ca\u00edam das janelas<br \/>Perguntei se era ali<br \/>a batina do cacique<br \/>a mentira das reses<br \/>nos a\u00e7ougues<br \/>Ao longo da torreira<br \/>Cresciam as uvas<br \/>De s\u00fabito<br \/>fechei os olhos<br \/>Sons estridentes<br \/>rompiam as paredes<br \/>Duma casa em ru\u00ednas<br \/>A su\u00e1stica luzia<br \/>num c\u00edrculo<br \/>de sinais obscuros<br \/>Como a morte<br \/>Fez-se noite<br \/>Ergui o punho<br \/>\u00c0 onda que passava<\/p>\n<p>\u00c0 primeira leitura, o poema parece &#8220;contar&#8221; um incidente numa aldeia algures no norte do pa\u00eds em que a irrup\u00e7\u00e3o dos sinais do fascismo contradiz uma aparente calma e pacatez. No entanto, deste o in\u00edcio do texto o tom \u00e9 tudo menos id\u00edlico, porque n\u00e3o existe voz humana a acompanhar o tinir alegre dos guizos, e as &#8220;caras extintas por dentro&#8221; acusam uma amea\u00e7a n\u00e3o expressa. O \u00fanico ser humano que fala \u00e9 o elemento que vem de fora, o &#8220;eu l\u00edrico&#8221;, um intruso que ousa fazer perguntas acerca do cacique (de batina&#8230;) e do gado que vai ao engano para o a\u00e7ouge, uma provoca\u00e7\u00e3o a que ningu\u00e9m responde.<br \/>E \u00e9 exactamente neste momento que o texto passa para um n\u00edvel diferente. Porque, como \u00e9 que se exprime, em palavra po\u00e9tica, o que n\u00e3o \u00e9 expresso em palavras? Como se torna vis\u00edvel a indesment\u00edvel verdade da opress\u00e3o? Jos\u00e9 Afonso opta por um paradoxo. Ao fechar os olhos, como se fosse no negativo de uma fotografia, o que estava oculto sobressai iluminado na sua mente. Sons estridentes sobrep\u00f5em-se aos guizos, e a su\u00e1stica fala mais alto do que o sil\u00eancio das caras extintas. Esta imagem \u00e9 t\u00e3o forte que inverte as leis da natureza, porque, de repente, a morte ensombra a manh\u00e3 transformando-a em noite. O punho erguido, sinal de resist\u00eancia, surge no fim do poema como \u00fanica resposta poss\u00edvel, n\u00e3o verbal, a uma realidade em que a palavra desapareceu, uma imagem tanto mais expressiva se considerarmos as muitas outras imagens de resist\u00eancia na poesia de Jos\u00e9 Afonso. Nomeadamente nos textos musicados, ele invoca a pr\u00f3pria cantiga ou a voz do cantor como portadoras de esperan\u00e7a e da vontade de continuar a luta. Mas neste poema, a l\u00f3gica textual exclui a voz aud\u00edvel como contraponto ao sil\u00eancio opressor. A imagem fica: &#8220;No pasaran!&#8221;<br \/>Os dois poemas que escolhi &#8211; e que, recordo, ter\u00e3o sido escritos num arco temporal muito fechado &#8211; revelam uma fascinante contradi\u00e7\u00e3o. O primeiro, ao anoitecer, \u00e9 um texto luminoso. O segundo, \u00e0 torreira do sol, \u00e9 um texto ensombrado (n\u00e3o sei se n\u00e3o deveria antes dizer assombrado). Na sua dimens\u00e3o poli\u00e9drica, est\u00e1 neles presente o cunho inconfund\u00edvel do autor, o seu DNA. E s\u00f3 me resta esperar que as entidades que procuram identificar o genome liter\u00e1rio sejam mais r\u00e1pidas do que as suas cong\u00e9neres na biologia &#8211; que se v\u00e3o agora dedicar ao cavalo (animal que ali\u00e1s muito prezo).<br \/><\/em><br \/><\/span><strong><br \/><span style=\"color: black; font-family: 'trebuchet ms'; font-size: 85%;\"><span style=\"font-size: 100%;\">Elfriede Engelmayer<br \/>(Texto para o debate &#8220;Jos\u00e9 Afonso, a obra po\u00e9tica&#8221;, integrado na iniciativa &#8220;Com Jos\u00e9 Afonso, 20 anos de caminho&#8221;, organizada pela AJA-Norte (N\u00facleo da Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso) e o Clube Liter\u00e1rio do Porto. Porto, CLP, 16 de Fevereiro de 2007<\/span>)<\/span><\/strong><span style=\"color: black;\"> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda a verdadeira obra de arte est\u00e1 sujeita \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do tempo, que se encarrega de a lapidar at\u00e9 ela revelar o seu valor intemporal. Por isso, muitas vezes, quando um artista morre, entra numa esp\u00e9cie de limbo. 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