{"id":7644,"date":"2007-02-11T02:07:00","date_gmt":"2007-02-11T02:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7644"},"modified":"2021-12-17T11:40:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:07","slug":"o-filho-do-povo-com-nobreza-e-com-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-filho-do-povo-com-nobreza-e-com-modernidade\/","title":{"rendered":"&#8220;O filho do povo, com nobreza e com modernidade&#8221;"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Depoimento de Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o a JC Pereira<\/p>\n<p>Em 1988 \u2013 um ano ap\u00f3s Zeca Afonso ter partido, em viagem, para o outro lado da terra (express\u00e3o que, semanticamente, parece representar a palavra \u201cutopia\u201d) \u2013, tive a grata oportunidade de entrevistar para um programa da R\u00e1dio Felgueiras uma outra figura proeminente do report\u00f3rio nacional, Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o, professor catedr\u00e1tico de Psiquiatria, psicanalista, falecido em 1991, e que muito se notabilizou por ter fundado, em 1958, e desenvolvido o Grupo de Estudos de Grupan\u00e1lise em Portugal.<br \/>Na altura, Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o pertencia a um dos \u00f3rg\u00e3os sociais da AJA, sendo Jo\u00e3o Afonso dos Santos o presidente da direc\u00e7\u00e3o. Obviamente, o programa de r\u00e1dio, de duas horas, foi inteiramente dedicado ao estudo sobre a vida e a obra do Zeca.<br \/>Decorridos dezanove anos ap\u00f3s essa entrevista, considero que o seu conte\u00fado e a sua essencial mensagem se mant\u00eam, praticamente, actuais. Eis um excerto da mesma:<\/p>\n<p>RF &#8211; Senhor Professor, o que pensa sobre a vida e a obra de Jos\u00e9 Afonso?<br \/>Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o &#8211; Penso que na hist\u00f3ria de um pa\u00eds \u00e9 importante que haja figuras que possam merecer o nosso respeito e que sejam alvo da nossa estima. Jos\u00e9 Afonso \u00e9 uma figura hist\u00f3rica do patrim\u00f3nio art\u00edstico do nosso povo, porque Jos\u00e9 Afonso foi um homem com coragem, foi um homem que lutou, foi um homem bom, foi um homem que soube amar, foi um artista e um poeta excepcional.<br \/>A mensagem de Jos\u00e9 Afonso tem sido deliberadamente esquecida e reprimida e n\u00e3o publicada e asfixiada e ofuscada pelos poderes pol\u00edticos que est\u00e3o neste pa\u00eds. Isso constitui, para mim, um crime grave, visto que os nossos jovens, a nossa juventude, as mulheres e os homens deste pa\u00eds necessitavam de saber mais pormenores do que foi a vida, do que foi a coragem desse grande portugu\u00eas.<\/p>\n<p>RF &#8211; Poder-se-\u00e1 dizer que Jos\u00e9 Afonso, comportando-se \u00e0 maneira de uma crian\u00e7a feliz num bairro de lata, era filho do Maio de 68 e pai, juntamente com outros, de Abril de 74. Concorda comigo, senhor Professor?<br \/>Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o &#8211; Eu concordo consigo. Mas creio que Jos\u00e9 Afonso tem dentro dele as ra\u00edzes e a heran\u00e7a de Viriato, de Afonso Henriques, de todos os lutadores (\u2026). Ele representa algo, que \u00e9 o filho do povo com nobreza e com modernidade. Isto \u00e9 muito importante, porque, neste momento, \u00e9 que no nosso pa\u00eds se pretende falar de modernidade, o pa\u00eds, os homens e as mulheres n\u00e3o est\u00e3o correctos, est\u00e3o envelhecendo, est\u00e3o caqu\u00e9cticos de estupidifica\u00e7\u00e3o. E Jos\u00e9 Afonso foi um homem da modernidade, foi um homem que lutou, louvou e defendeu aquilo que \u00e9 actual mas sempre em rela\u00e7\u00e3o com o passado e numa perspectiva futura.<br \/>(&#8230;) Eu conheci Jos\u00e9 Afonso e convivi com ele muito intimamente durante um per\u00edodo curto de tempo e n\u00e3o tenho qualquer d\u00favida que o que se justificava neste momento \u00e9 que se fizesse um filme sobre a vida de Jos\u00e9 Afonso, um filme sobre a sua mensagem. Porque n\u00f3s, portugueses, neste momento somos um pa\u00eds triste; somos um pa\u00eds pobre de ideias; somos um pa\u00eds de indiv\u00edduos cinzentos, que se levantam tristemente, que rancorosamente labutam pelo seu p\u00e3o, que fazem neg\u00f3cios doidos. N\u00f3s, neste momento, somos um pa\u00eds sem poesia, sem beleza, e Jos\u00e9 Afonso devia ser evocado, porque foi num outro per\u00edodo hist\u00f3rico de Portugal, em que se viveu, realmente, a escurid\u00e3o, a estupidifica\u00e7\u00e3o e o abandono, que ele apareceu e deu alma e esperan\u00e7a a muito de n\u00f3s.<\/p>\n<p>RF &#8211; O que podemos fazer por Abril?<br \/>Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o &#8211; (&#8230;) Falar com pessoas que sejam jovens como voc\u00ea, falar com jovens como eu, que n\u00e3o desesperamos, n\u00e3o somos pessimistas e continuamos a alertar para aquilo que h\u00e1 de belo e que h\u00e1 de positivo na nossa cultura. (&#8230;) N\u00f3s n\u00e3o devemos desesperar, n\u00e3o devemos desistir, ainda que, neste momento, j\u00e1 n\u00e3o tenhamos o Zeca Afonso para cantar connosco que \u00e9 preciso &#8220;avisar a malta&#8221;. \u00c9, talvez, necess\u00e1rio que fa\u00e7amos algo semelhante: que continuemos aquela mensagem t\u00e3o pura, t\u00e3o nobre, t\u00e3o viril, t\u00e3o corajosa, que esse grande amigo, esse grande portugu\u00eas nos deixou.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Carlos Pereira<\/strong> <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depoimento de Eduardo Lu\u00eds Cortes\u00e3o a JC Pereira Em 1988 \u2013 um ano ap\u00f3s Zeca Afonso ter partido, em viagem, para o outro lado da terra (express\u00e3o que, semanticamente, parece representar a palavra \u201cutopia\u201d) \u2013, tive a grata oportunidade de entrevistar para um programa da R\u00e1dio Felgueiras uma outra figura proeminente do report\u00f3rio nacional, Eduardo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7644"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7644\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}