{"id":7571,"date":"2006-12-27T18:34:00","date_gmt":"2006-12-27T18:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7571"},"modified":"2021-12-17T11:40:08","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:08","slug":"porto-de-lisboa-1967-adelino-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/porto-de-lisboa-1967-adelino-gomes\/","title":{"rendered":"Porto de Lisboa, 1967 &#8211; Adelino Gomes"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Olhou-me  surpreendido, quan\u00addo, gravador ao peito, lhe pe\u00addi uma entrevista. &#8220;Porqu\u00ea?<br \/>Para qu\u00ea? Deixei-me dessas coisas\u201d. Ia e vinha, naquele jeito desengon\u00e7ado de andar. Apontava as malas aos baga\u00adgeiros, \u00e0 pol\u00edcia de fronteira, nervoso. Fiquei por ali, esquecido, eu pr\u00f3prio a sentir-me guarda fiscal tamb\u00e9m, no porto de Lisboa (Cais da Rocha? AI\u00adc\u00e2ntara?, a mem\u00f3ria ret\u00e9m apenas um balc\u00e3o comprido num vasto recinto de tectos altos). &#8220;O Zeca Afonso regressa amanh\u00e3 de Mo\u00e7ambique, vais fazer-lhe uma entrevista ao barco&#8221;; disseram-me na v\u00e9spera &#8211; est\u00e1vamos em Setembro &#8211; n\u00e3o sei se o Carlos Cruz, se o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX. Transmitido da meia-noite \u00e0s duas, atrav\u00e9s do R\u00e1dio Ciube Portu\u00adgu\u00eas, o programa tinha vindo agitar as ondas conformadas do espectro radio\u00adf\u00f3nico daquele 1967, levando os micro\u00adfones para a rua, \u00e0 procura de gente,de hist\u00f3rias, de vida.<br \/>Jos\u00e9 Afonso diz-me que h\u00e1 muito perdeu o contacto com a m\u00fasica, que era professor na Beira, e que professor vai voltar a ser, em Set\u00fabal, depois.de uns dias em Faro, para onde eguir\u00e1 com a mulher Z\u00e9lia, logo que a alf\u00e2ndega os.libertar .Projectos, como cantor, nenhuns. A entrevista passa para plano secund\u00e1rio. Digo-lhe ali entre o abrir e fechar de malas, e a az\u00e1fama de viajan\u00adtes e pol\u00edcias, aquilo que muitos outros portugueses teriam respondido, se ou\u00advissem o autor dos &#8220;Vampiros&#8221;, e do &#8220;Menino do Bairro Negro&#8221; anunciar-\u00adlhes que ia deixar de cantar por esse pa\u00eds fora: que ele n\u00e3o pode abandonar aquela frente de luta cultural e c\u00edvica, t\u00e3o importante para milhares de estudantes, de oposicionistas. &#8220;Importantes, umas cantiguetas?&#8221;, auto-escarnece-se, enquanto d\u00e1 uma \u00faltima olhadela aos haveres desembarcados.. Explico-lhe que era atrav\u00e9s das suas baladas, e das do Adriano Correia de Oliveira, passadas em sequ\u00eancias musicais, ou em montagens de entrevistas ou reporta\u00adgens, que n\u00f3s, na R\u00e1dio, diz\u00edamos aquilo que de outra forma a censura corta\u00adria. Zeca Afonso ter\u00e1 ficado surpreendido com aquele discurso de um desconhe\u00adcido rep\u00f3rter radiof\u00f3nico. Acredito que, humilde, n\u00e3o sabia qu\u00e3o importante se tornara para muitos dos seus concidad\u00e3os. E, se alguma vez chegou a acredi\u00adtar na influ\u00eancia da sua ac\u00e7\u00e3o como cantor, a experi\u00eancia traumatizante que acabava de viver em Louren\u00e7o Marques e na Beira convencera-o de que deveriam ser outras e mais directas as f\u00f3rmulas a utilizar para uma altera\u00ad\u00e7\u00e3o do regime pol\u00edtico salazar-marce\u00adlista. Acabou por dar a entrevista. <br \/>Mas as suas declara\u00e7\u00f5es, cortadas pela &#8221;fis\u00adcaliza\u00e7\u00e3o&#8221; do RCP (um servi\u00e7o de cen\u00adsura tutelado por um representante do governo mas assegurado por funcion\u00e1rios da esta\u00e7\u00e3o), s\u00f3 iriam para o &#8220;ar&#8221; depois de Raul Solnado \u2013 amigos dos realizadores do programa &#8211; fazer um pedido nesse sentido a Paulo Rodrigues, o subsecret\u00e1rio de estado que aIi mes\u00admo se designou um dia, como &#8220;a caneta de Sua Excel\u00eancia&#8221; (o presidente do Conselho). Jos\u00e9 Afonso \u00e9 expulso do li\u00adceu de Set\u00fabal. O seu nome passa a .ser cortado nos jornais. A Pide prende-o, mais tarde. Nunca mais deixa de com\u00adpor e cantar. Sempre de servi\u00e7o \u00e0 causa do antifascismo, em sindiatos, associa\u00ad\u00e7\u00f5es recreativas, cineclubes. Ser\u00e1 uma &#8220;cantigueta&#8221; que um grupo de militares escolhe para  o  25 de Abril.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhou-me surpreendido, quan\u00addo, gravador ao peito, lhe pe\u00addi uma entrevista. &#8220;Porqu\u00ea?Para qu\u00ea? Deixei-me dessas coisas\u201d. Ia e vinha, naquele jeito desengon\u00e7ado de andar. Apontava as malas aos baga\u00adgeiros, \u00e0 pol\u00edcia de fronteira, nervoso. Fiquei por ali, esquecido, eu pr\u00f3prio a sentir-me guarda fiscal tamb\u00e9m, no porto de Lisboa (Cais da Rocha? 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