{"id":7557,"date":"2006-12-21T13:13:00","date_gmt":"2006-12-21T13:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7557"},"modified":"2022-02-19T17:48:17","modified_gmt":"2022-02-19T17:48:17","slug":"la-no-xipangara-joao-afonso-dos-santos-irmao-de-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/la-no-xipangara-joao-afonso-dos-santos-irmao-de-jose-afonso\/","title":{"rendered":"L\u00e1 no Xipangara"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Aos fins de semana, sa\u00edamos pela tarde, aparelhados. O Alvaro Sim\u00f5es, que por l\u00e1 ficou, mo\u00e7ambicano por op\u00e7\u00e3o, com a sua c\u00e2mara fotogr\u00e1fica a tiracolo, eu armado da minha 8 mm. de filmar, e o Zeca. Com todos os comple\u00admentos da ordem: trip\u00e9s, jogos de lentes e filtros, fot\u00f3metros, gravador, que sei eu. Isto depois de termos espiado o c\u00e9u, medindo a olho a luminosidade e o &#8220;calor&#8221; da luz. E, quando o sol a meio do quadrante perdia o gume de a\u00e7o, come\u00e7ava a projectar sombras e a desentranhar-se em cores, vague\u00e1va\u00admos pelo &#8220;Xipangara&#8221;, essa outra cidade do cani\u00e7o que envolve a Beira. Dos tr\u00eas, era Zeca o \u00fanico que n\u00e3o dependia sen\u00e3o dele mesmo, num indeterminismo vagabundo que desde sempre foi uma sua segunda natureza, acrescentado da cr\u00f3nica avers\u00e3o que sentia ou acreditava sentir pela m\u00e1quina em geral, penso que para melhor defender o seu livre arb\u00ed\u00adtrio. Levava os olhos e o esp\u00edrito para ver, naquela peculiar e muito pessoal maneira que era a sua de ver as coisas, captan\u00addo-lhes por debaixo da pele, se assim me posso exprimir, os sinais duma verdade oculta. Via e, claro, cumulativamente, ouvia e registava os sons, o ritmo, a linguagem expressiva dos corpos. Posso bem dizer que mergulham nessas conviv\u00eancias os sincretismos musicais afro-europeus que depois aparece\u00adram dispersos por v\u00e1rios discos editados a partir de 1970, quer dizer, quatro anos mais tarde. Nessas e em outras expe\u00adri\u00eancias cong\u00e9neres que j\u00e1 trouxera de Louren\u00e7o Marques, donde um despacho atrabili\u00e1rio e desp\u00f3tico da administra\u00e7\u00e3o o baniu, por causa desses mesmos conv\u00edvios, especialmente os que mantinha com a Associa\u00e7\u00e3o dos Negros de Mo\u00e7am\u00adbique. Diga-se de passagem, que sempre estranhei que can\u00ad\u00e7\u00f5es como &#8220;Carta a Miguel Dj\u00e9j\u00e9&#8221; ou &#8220;L\u00e1 no Xipangara&#8221;, por exemplo, n\u00e3o desfrutem dum favor pelos menos igual ao de outras mais not\u00f3rias, pela frescura da inova\u00e7\u00e3o, o arranjo musical e a constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica. Voltando, por\u00e9m, ao tempo a que estas breves mem\u00f3rias se referem, n\u00e3o me lembra de termos, na altura, not\u00edcia desses cantares de ra\u00edz mo\u00e7ambicana, cuja matura\u00e7\u00e3o se veio a desentranhar em obra provavelmente j\u00e1 depois do Zeca ter regressado a Portugal, em 1967. &#8220;Avenida de Angola&#8221;, que ele trouxe de Louren\u00e7o Marques com a bagagem, inspirada \u00e9 certo por quadros dos sub\u00farbios negros da capital, \u00e9 ainda uma can\u00e7\u00e3o exclusivamente portuguesa, na estrutura mel\u00f3di\u00adca e r\u00edtmica. Outras eram, pois, as composi\u00e7\u00f5es que Zeca trazia no seu saco de segrel, criadas em momentos anteriores e editadas depois conjuntamente, com diferentes cronologias. Algumas vezes, ao anoitecer, depois que os dois marimbeiros do p\u00e9 da porta calavam o seu di\u00e1logo demorado e perfeito, a toada onomatopaica e encantat\u00f3ria, era a vez do Zeca cantar para alguns amigos &#8220;intra-muros&#8221;, acompanhando-se tosca\u00admente \u00e0 viola, com o aux\u00edlio de uma bra\u00e7adeira que \u00e9 assim como uma esp\u00e9cie de c\u00e1bula de tocar. Guardo comigo a gra\u00adva\u00e7\u00e3o dum desses momentos que o mesmo \u00c1lvaro Sim\u00f5es me enviou por portador, com tantas recomenda\u00e7\u00f5es como se do velo de ouro se tratasse. Entre outras, l\u00e1 est\u00e3o registadas &#8220;O Cavaleiro e o Anjo&#8221;, &#8220;Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m&#8221; e o &#8220;Cantar Alentejano&#8221;, que acabaram por figurar nos \u00e1lbuns editados de sessenta e oito a setenta, um por cada ano. Em dada altura, uns tantos devotos saudosistas empreende\u00adram comemorar, ali nos limites do mangal africano, um feito acad\u00e9mico celebrado em Coimbra sob a designa\u00e7\u00e3o de &#8220;Tomada da Bastilha&#8221;. Ao tempo em que o grupo teatral da cidade se preparava para levar \u00e0 cena &#8220;A Excep\u00e7\u00e3o e a Regra&#8221;, do Bertolt Brecht. Zeca encarregou-se de criar para a pe\u00e7a umas tantas can\u00e7\u00f5es destinadas a assegurar o necess\u00e1rio distanciamento brechtia\u00adno da representa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Duas delas vieram a ser inclu\u00eddas, como se sabe, em discos mais tardios, &#8220;Eu Vou Ser Como a Toupeira&#8221; e o &#8220;Coro Dos Tribunais&#8221;. E ele mesmo ensaiou este \u00faltimo, tarefa que se verificou n\u00e3o ser menor, nem menos perseverante, do que a do acto de cria\u00e7\u00e3o pro\u00adpriamente dito. Veio o dia em que surgiu, encostada a uma das faces da pra\u00e7a central, com o seu qu\u00ea de imponente, a r\u00e9plica em madeira do p\u00f3rtico fronteiro da S\u00e9 Velha de Coimbra, t\u00e3o semelhante \u00e0 vista que apenas se poderia lamentar o desam\u00adparo dos vetustos muros a que se encosta o original. A inten\u00ad\u00e7\u00e3o era, claro, reproduzir o &#8220;clima&#8221; convencional duma serenata de Coimbra e Zeca e dois acompanhantes, mais o primeiro do que os segundos, eram dados como certos, at\u00e9 por serem os \u00fanicos dispon\u00edveis e, portanto, insubstitu\u00edveis. Enquanto isto, as provas teatrais enviadas \u00e0 censura oficial regressaram t\u00e3o retalhadas que ficava prejudicada qualquer representa\u00e7\u00e3o. O Dr. Carvalheira &#8211; creio que assim se chama\u00adva o censor &#8211; era feroc\u00edssimo a empenhar o instrumento cen\u00ads\u00f3rio, a caneta ou a tesoura, conforme as circunst\u00e2ncias. Mas, ao mesmo tempo, escrupuloso, deu-se ao inc\u00f3modo de recri\u00adar, \u00e0 margem, algumas falas integrais e outras parciais das personagens, depuradas dos aspectos que mais o beliscavam. Logo ali foi mandatado um emiss\u00e1rio para fazer saber ao censor que sem Brecht n\u00e3o haveria fados. Torceu-se o homem que, acima de ser censor convicto, era coimbr\u00e3o ferrenho e empenhado concorrente. Subiu, pois, \u00e0 cena a &#8220;Excep\u00e7\u00e3o e a Regra&#8221; e atrevo-me a dizer que pela primeira vez em todo o decr\u00e9pito imp\u00e9rio.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Jo\u00e3o Afonso dos Santos (irm\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso)<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"center\"><strong>O programa onde se anunciavam can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas de Jos\u00e9 Afonso<br \/>\ne algumas fotos da estreia da &#8220;Excep\u00e7\u00e3o e a Regra&#8221;<\/strong><\/div>\n<div align=\"center\"><\/div>\n<div align=\"center\"><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/1600\/256391\/programabrecht1.jpg\"><img style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/400\/602571\/programabrecht1.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/1600\/58909\/programabrecht2.jpg\"><img style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/400\/143636\/programabrecht2.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/1600\/542466\/brecht3.jpg\"><img style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/400\/844971\/brecht3.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/1600\/130326\/brecht4.jpg\"><img style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/400\/892191\/brecht4.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/1600\/476052\/brecht5.jpg\"><img style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/400\/599503\/brecht5.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/1600\/613622\/brecht6.jpg\"><img style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3834\/1014\/400\/417994\/brecht6.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div align=\"justify\">\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos fins de semana, sa\u00edamos pela tarde, aparelhados. 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