{"id":7434,"date":"2006-09-09T12:08:00","date_gmt":"2006-09-09T12:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7434"},"modified":"2021-12-17T11:40:09","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:09","slug":"recitativos-de-rui-mendes-dedicados-a-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/recitativos-de-rui-mendes-dedicados-a-jose-afonso\/","title":{"rendered":"Recitativos de Rui Mendes dedicados a Jos\u00e9 Afonso"},"content":{"rendered":"<p><strong>I<\/strong><br \/>E h\u00e1 apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperan\u00e7a, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><br \/>E esse homem, pregoeiro da brisa da madrugada, de pulso livre e cora\u00e7\u00e3o descoberto, \u00e0 mesa tingida pela luz a que nos sentamos sempre, apenas canta, apenas joeira palavras e mis\u00e9ria, pressagiando coisas bem afortunadas: um c\u00e9u azul, sem v\u00ednculos, sobre o relento do nosso chap\u00e9u e um laranjal para o alfange do mendigo.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><br \/>E \u00e9 um cantar amargo, um cantar de amigo, colher de vento, f\u00edmbria do trigo, o que nos deixa a voz garrida desse homem, exonerado do seu pr\u00f3prio ch\u00e3o, \u00f3 ch\u00e3o castrado d&#8217;alegria, com o olhar pregado nas ruelas atulhadas pelo silvo das crian\u00e7as do mondego ou na flauta, crivo de \u00e1guias, de bensafrim.<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><br \/>\u00d3 terreiros da erva, \u00f3 terreiros da fome, \u00f3 \u00edngremes quebradas do medronho, \u00f3 ror de dores, \u00f3 ror d&#8217;amores, quanto ror de foices t\u00ednhamos presas aos pulsos para rasgar, ao sabor dos vales do vento, este peda\u00e7o de terra morta e devassada, onde cresce a nossa ira, que as bagas do mar ferviam, junto aos campos cor de lima e de lim\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><br \/>E esse homem, no fresco tingir da outra margem, vigia a crista das colinas, rasga janelas nas ribeiras, remonta \u00e0s eiras onde as nossas costas s\u00e3o flor da rosa e su\u00e3o, e queima, no tear das trovas, a dor panflet\u00e1ria das noites e dos dias, e vai-se juntando, como um pensamento puro e repercutido no ladrar dos c\u00e3es, \u00e0 garganta dos caminhos, aos v\u00e3os das escadas onde dorme a erva cidreira, lavando a luz dos nossos olhos, pernoitando tamb\u00e9m o olhar nos nossos pra\u00adtos vazios, enquanto os nossosfilhos vazam grandes eiras de sal, s\u00f4bolos rios que v\u00e3o por babil\u00f3nia.<\/p>\n<p><strong>VI<\/strong><br \/>E essa voz assim cerzida, mem\u00f3ria de rom\u00e3s e arestas cruas, assim aberta a todos os homens que chegam, a todos os homens que partem &#8211; amigos e inimigos s\u00e3o a prov\u00edncia e a colheita do seu sonho &#8211; essa voz, fermento e febre de terno regadio, eis que nos \u00e9 promessa dum grande dia sobre as pedras manchadas pelas nossas toalhas de malva: as nossas m\u00e3os, em pleno tumulto de armas e auroras, ditando o peso e a senten\u00e7a que carregavam.<\/p>\n<p><strong>VII<\/strong><br \/>E, no usufruto das clareiras que rasgamos por toda a parte, das bandeiras que desfr\u00e1ldamos at\u00e9 \u00e0s vertentes dos muros e das amuradas, esse homem de novo come\u00e7a a cantar:fragorde sar\u00e7as sobre a sombra dos ombros, passos e p\u00e1ssaros na descarga do limiar das noites e dos dias para outros promont\u00f3rios, e a gadanha movendo a subst\u00e2ncia putrificada dos pres\u00eddios e das mans\u00f5es, e a cor liminar das laranjas do mar, e o azul ar\u00e1vel do c\u00e9u, tudo, por assim dizer, que enchesse, como um fr\u00e9mito, o leito dos rios, a estrela das montanhas, macerando folhas de acanto.<\/p>\n<p><strong>VIII<\/strong><br \/>E assim vos digo: esta voz sobe a prumo e \u00e9 a folha p\u00farpura das casas, quando amanhece, e \u00e9 o rumo do pastor, c\u00e9u abaixo: com a sua manta de a\u00e7afr\u00e3o e suas pombas bravas, e \u00e9 a rede que se lan\u00e7a sobre as abelhas, logo que atravessadas pelas linhas do fogo, e \u00e9 a fresca flor da nossa m\u00e3o em v\u00e3o julgada.<br \/>Voz dentro sangue, matriz do nosso sangue, terra indivisa: sangue e rosas.<\/p>\n<p><em>in<\/em> &#8220;Cantares&#8221; | Fora do texto, 1995 | 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IE h\u00e1 apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperan\u00e7a, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada. 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