{"id":7393,"date":"2006-08-08T11:29:00","date_gmt":"2006-08-08T11:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7393"},"modified":"2021-12-17T11:41:06","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:06","slug":"entre-o-porto-e-coimbra-o-zeca-afonso-que-eu-conheci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/entre-o-porto-e-coimbra-o-zeca-afonso-que-eu-conheci\/","title":{"rendered":"Entre o Porto e Coimbra &#8211; O Zeca Afonso que eu conheci"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Foi durante um ensaio do grupo de serenatas do Orfe\u00e3o Universit\u00e1rio do Porto que, pela primeira vez, ouvi esse nome pronunciado, com contagiante entusiasmo, por Roxo Le\u00e3o, um tocador afamado de viola, que tinha vindo para a Faculdade de Farm\u00e1cia do Porto completar a licenciatura iniciada em Coimbra. A falta da fase terminal do curso de farm\u00e1cia e de engenharia na Universidade da cidade do Mondego tornava obrigat\u00f3ria a migra\u00e7\u00e3o de grupos significativos de estudantes que, todos os anos, se transferiam para o Porto, onde vinham frequentar as \u00faltimas cadeiras das respectivas licenciaturas. Com estas revoadas de estudantes transferia-se, tamb\u00e9m, o influente ambiente estudantil coimbr\u00e3o, culturalmente muito enriquecedor para os universit\u00e1rios portuenses que, assim, recebiam uma infus\u00e3o de multidisciplinaridade que os cursos eminentemente t\u00e9cnicos ministrados no Porto e o estilo de vida que aqui se adoptava n\u00e3o propiciava.<\/p>\n<p>O Roxo Le\u00e3o era um daqueles conhecedores certificados do fado de Coimbra e um animador entusiasta da academia portuense, em tudo o que ao fado coimbr\u00e3o dissesse respeito. Nessa mesma sess\u00e3o de uma noite de Novembro de 1953, tomaram parte o Jos\u00e9 Vitorino Santana, que era o mais consistente fadista da nossa Academia, o Barroso, outro estudante de farm\u00e1cia com carimbo de Coimbra, ele, tamb\u00e9m, um excelente tocador de viola, e os dois guitarras, o Carlos Couceiro, um executante seguro vindo, tamb\u00e9m, da cidade do Mondego para acabar no Porto a licenciatura em engenharia, e o Leonel, quartanista de Medicina, segundo guitarra e \u00fanico elemento daquela tert\u00falia, genuinamente nortenho. No fim dos primeiros testes, em que a timidez natural de um principiante j\u00e1 tinha conseguido dissipar a expectativa densa que a circunst\u00e2ncia exigente criara, todos concordaram em que eu deveria cantar os mesmos fados que o Zeca, porque, segundo as suas esclarecidas opini\u00f5es, a minha voz tinha uma estrutura musical parecida e os estilos interpretativos assemelhavam-se. Caloiro, obedeci, longe de saber o que \u00e9 que esse veredicto, estando certo, significava de Iisongeiro. Contudo, e apesar de, ent\u00e3o, essa semelhan\u00e7a me dizer pouco, a compara\u00e7\u00e3o ficou a fazer parte do meu consciente passivo, ligando-me, sentimentalmente, a esse nome que haveria de vir a ser, artisticamente, t\u00e3o honrado. Passei a prestar maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0s can\u00e7\u00f5es que ele ent\u00e3o interpretava e de que sobressa\u00edam o fado \u00abIncerteza\u00bb, o \u00abContos velhinhos\u00bb, o \u00ab\u00c1guia que vais t\u00e3o alta\u00bb, o \u00abMeu menino \u00e9 d\u2019oiro\u00bb, entre outros, e confesso o encantamento criado pela sua voz tr\u00e9mula e quente, que era, tamb\u00e9m, fruto do seu esp\u00edrito original e sens\u00edvel, voz que ora se arrastava numa dolorosa queixa, ora se erguia num grito de rebeldia e de protesto. O Z\u00e9 Afonso, como outros preferiam chamar-lhe, era, sem d\u00favida, um estudante que cantava um fado novo que Coimbra nunca tinha ouvido.<\/p>\n<p>Mas o Z\u00e9 Afonso era, vi-o, depois, muito mais do que isso. Pessoalmente, encontrei esse quase-s\u00f3sia canoro numa tarde de Agosto de 1956, a bordo do \u00abVera Cruz\u00bb, a caminho de Angola. Ele viajava integrado \u00e0 sua maneira (o Zeca nunca se integrou em nada) na Tuna Acad\u00e9mica de Coimbra e o seu destino era navegar \u00e0 roda da \u00c1frica para animar um vasto mundo de gente rica e culta que tinha decidido alugar o \u00abVera Cruz\u00bb para um p\u00e9riplo de \u00c1frica; eu viajava integrado no Orfe\u00e3o Universit\u00e1rio do Porto, que seguia para Angola como agente de uma festa acad\u00e9mica que tinha como miss\u00e3o apertar os n\u00f3s dos la\u00e7os de uma identidade lusotropical que se desejava duradoira. Cada grupo possu\u00eda a sua equipa de serenatas: a nossa era constitu\u00edda pelo Rosa Ara\u00fajo e o Costa Leite (guitarristas), o Hermenegildo Tavares e o Quartim Gra\u00e7a (violas); eram cantores o Jos\u00e9 Vitorino Santana, o Gameiro e eu. Do lado de Coimbra seguiam o Fernando Xavier e o J\u00falio Ribeiro (guitarristas), o Manuel Pepe e o Levi Baptista (violas); os cantores eram o Zeca Afonso e o Fernando Machado. Esse encontro fecundou uma amizade que estava destinada a crescer e que sem sobressaltos de percurso veio a ser muito grande e sincera.<\/p>\n<p>Numa tarde de Agosto, quente, apesar de ser de cacimbo o tempo do calend\u00e1rio, o \u00abVera Cruz\u00bb deixou-nos no Lobito e seguiu a sua viagem, \u00e0 roda do continente africano, levando consigo a \u00abmalta\u00bb de Coimbra.<\/p><\/div>\n<div align=\"justify\">Viv\u00edamos n\u00f3s, por essa altura, numa esp\u00e9cie de rep\u00fablica, um vasto espa\u00e7o de tr\u00eas quartos, uma sala e uma cozinha, num terceiro andar no Campo dos M\u00e1rtires da P\u00e1tria (n.\u00ba 135), sob a vigil\u00e2ncia aflita mas benevolente de uma velhinha, a Sr.\u00aa D. Aninhas. Eram sete os habitantes regulares desses aposentos, mas alturas havia em que o n\u00famero de comensais chegava a duplicar. Depois da viagem a Angola, um dos frequentadores desse lar aberto era o Zeca. Sempre que as desloca\u00e7\u00f5es da Tuna ou do Orfe\u00e3o Acad\u00e9mico de Coimbra, os seus afazeres pessoais ou qualquer decis\u00e3o repentista, disparada pela sua irrequietude sentimental, o traziam ao norte, l\u00e1 o t\u00ednhamos connosco, com toda a Fantasia do seu ser po\u00e9tico e a rebeldia do seu idealismo descomprometido. Uma das vezes (em v\u00e9speras das f\u00e9rias grandes de 1958), a sess\u00e3o art\u00edstica da Tuna ia ser no Rivoli. O Zeca apareceu, como de costume e por uma das raz\u00f5es de sempre. Tinha vindo \u00ab\u00e0 boleia\u00bb, ia cantar, estava \u00e0 futrica e tinha umas horas para p\u00f4r a conversa em dia. Comeu connosco, cantarolou os fados que tencionava interpretar nessa noite \u2014 e que o Costa Leite e eu acompanh\u00e1mos \u00e0 guitarra \u2014, enfiou a minha capa e batina, completando, assim, o ritual e l\u00e1 descemos os dois a Rua dos Cl\u00e9rigos, a caminho do Teatro. Ao passarmos em frente da Igreja dos Congregados, num s\u00fabito arrebatamento, parou, fitou-me com o ar concentrado que a testa franzida denunciava \u2014 era assim sempre que falava a s\u00e9rio \u2014 e atirou-me a seguinte proposta: \u00ab\u2014 Oh p\u00e1 (ele usava esta abreviatura quando ela era ainda erudita, tu tocas guitarra, eu toco viola e cantamos ambos. Vamos os dois fazer f\u00e9rias por essa Europa fora, como artistas vadios?\u00bb Sorri, creio que candidamente, para quebrar com ternura o \u00edmpeto do seu entusiasmo.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o era f\u00e1cil recusar t\u00e3o espont\u00e2nea, sincera e amiga sugest\u00e3o; mas a minha voca\u00e7\u00e3o de aventura tinha asas mais curtas e, al\u00e9m disso, tinha duas cadeiras do meu quinto ano para fazer em Outubro; e as f\u00e9rias iam ser pequenas para p\u00f4r o estudo em dia. Sanado este breve desencontro, retomamos a marcha rumo ao Rivoli.<\/p>\n<p>Este nomadismo, que era nele gen\u00f3mico, era uma das facetas que tornava vis\u00edvel a irrequietude do seu esp\u00edrito! Mas foi, sobretudo, em Coimbra que convivemos e nos conhecemos melhor e que a nossa amizade cresceu e se radicou. O Zeca era, na verdade, uma criatura rara, de uma enorme originalidade: inteligente, culto, criativo e, ao mesmo tempo, bondoso e decifr\u00e1vel, era muito f\u00e1cil gostar-se dele. Sempre que nos fins-de-semana o tempo era meu, l\u00e1 ia at\u00e9 \u00e0 velha cidade tratar do fado e das guitarradas, em correspond\u00eancia a esse apelo prim\u00e1rio que vinha da inf\u00e2ncia. E foi assim que muitos fins-de-semana passei na capital do Mondego, onde nos encontr\u00e1vamos, ora na Baco ou nos lncas, ora em sua casa ou no seu verdadeiro lar, que eram as ruas de Coimbra. E foi assim que se desenvolveu, n\u00e3o uma estima superficial de conven\u00e7\u00f5es, mas uma amizade de gente nova, sem rugas, pr\u00f3pria dos afectos simples e verdadeiros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de cantar, o que n\u00f3s convers\u00e1mos! Os problemas de ent\u00e3o, as preocupa\u00e7\u00f5es human\u00edsticas e sociais eram assuntos nunca calados nos nossos longos di\u00e1logos. O cristianismo e os seus valores, os compromissos que a dignidade humana implica; a coer\u00eancia e a hipocrisia. Avessos a todas as tiranias, \u00e9ramos, assim, ap\u00f3stolos silenciosos de um mesmo credo. O Zeca era espont\u00e2neo, desacautelado e livre como se vivesse sozinho no Mundo!<\/p>\n<p>Apesar dos an\u00fancios iniciais premonit\u00f3rios, que estiveram na origem da nossa aproxima\u00e7\u00e3o, afinal, n\u00f3s \u00e9ramos muito mais irm\u00e3os pela intelig\u00eancia interpretativa do mundo e pela confian\u00e7a na bondade dos afectos, do que pela voz! \u00c9ramos mais parecidos calados do que a cantar.<\/p>\n<p>O Zeca tinha sofrido a influ\u00eancia religiosa densa de uma tia \u00abbeata\u00bb, que talvez tenha contribu\u00eddo para que tivesse deixado, logo no limiar da adolesc\u00eancia, qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de pr\u00e1tica religiosa, mas essa forma\u00e7\u00e3o, que continuou a fazer parte do pavimento em que assentava como criatura, acompanhou-o at\u00e9 ao fim. Nunca rejeitou a ess\u00eancia daquilo que moldou a sua natureza inquieta e generosa e deu expoente aos seus valores sociais.<\/p><\/div>\n<div align=\"justify\">Uma vez em que, com um pequeno grupo de amigos, decidi ir a F\u00e1tima de bicicleta, amedrontado com os duzentos e vinte quil\u00f3metros que t\u00ednhamos de percorrer, resolvi, com a anu\u00eancia dos companheiros de viagem, partir a meio a dist\u00e2ncia e pernoitar na rep\u00fablica Baco, sempre a primeira a ser procurada, porque nela viviam muitos conhecidos e alguns bons amigos: o Fernando Machado, o Manuel Pepe, o Batalim, o Dario \u2014 e tamb\u00e9m porque a can\u00e7\u00e3o coimbr\u00e3 tinha a\u00ed uma grande sede. O conv\u00edvio alegre e saud\u00e1vel compensava bem o sacrif\u00edcio de certas incomodidades do alojamento. Era tamb\u00e9m frequente o Zeca passar por l\u00e1 e, nessa noite, passou mesmo. Falou-se de tudo e, obviamente, tamb\u00e9m do motivo da nossa viagem. Ficou entusiasmado com a \u00abperegrina\u00e7\u00e3o\u00bb e s\u00f3 n\u00e3o nos acompanhou porque, na manh\u00e3 seguinte, n\u00e3o conseguimos encontrar em Coimbra uma bicicleta dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>A converg\u00eancia das nossas pessoas, sentenciada naquela noite de Inverno, nunca sofreu retrocessos ou foi posta em causa por qualquer acidente ou assintonia. Pelo contr\u00e1rio, foi tomando corpo, progressivamente, mais verdadeira e consciente. Quanto melhor nos conhec\u00edamos, mais os nossos ideais batiam certo ao ritmo de um mesmo compasso. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que social e humanamente assent\u00e1vamos os p\u00e9s num mesmo ch\u00e3o e que, no essencial, \u00e9ramos guiados por uma b\u00fassola orientada para um mesmo norte. Menos ancorado nos valores tradicionais, o Zeca sempre foi mais solto e, por isso, vagabundo. Mas, se em alguma coisa diverg\u00edamos, era em pequen\u00edssimos pormenores que se escondiam na espuma de certos comportamentos.<\/p>\n<p>Subitamente, fui mobilizado para prestar servi\u00e7o m\u00e9dico militar em Angola. Os tr\u00eas anos (de 1963 a 1966) que l\u00e1 passei foram muito mais do que a interrup\u00e7\u00e3o fortuita de um conv\u00edvio que sempre fora reciprocamente desejado. Nenhuma das minhas outras amizades sofreu com essa aus\u00eancia for\u00e7ada.<\/p>\n<p>Quando regressei de Angola, fui reencontrar o meu Amigo Zeca em Vilar de Mouros, protagonista zangado de um extenso protesto, ora em prosa ora em verso, meio recitado, meio cantado e que tinha como objecto a hist\u00f3ria de Catarina Euf\u00e9mia. A mudan\u00e7a senti-a, sobretudo, no abra\u00e7o frio que me deu quando, no fim da longa catilin\u00e1ria, desceu do palco! N\u00e3o me surpreendeu o seu entusiasmo pela causa abra\u00e7ada. Algu\u00e9m agarrou bem a sua generosidade dispon\u00edvel, o vazio criado pela sua bondade por realizar. Espantou-me, sim, que na sua mente independente e l\u00facida deixasse de haver lugar para a sublimidade po\u00e9tica que nos tinha feito muito amigos! Nem a poesia escapa a certas escorregadelas da l\u00f3gica! T\u00e3o semelhantes e, contudo, o Zeca acabou por ser o s\u00edmbolo de uma revolu\u00e7\u00e3o que me expulsou da Universidade.<\/p>\n<p><strong>Serafim Guimar\u00e3es <\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi durante um ensaio do grupo de serenatas do Orfe\u00e3o Universit\u00e1rio do Porto que, pela primeira vez, ouvi esse nome pronunciado, com contagiante entusiasmo, por Roxo Le\u00e3o, um tocador afamado de viola, que tinha vindo para a Faculdade de Farm\u00e1cia do Porto completar a licenciatura iniciada em Coimbra. 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