{"id":7376,"date":"2006-07-28T22:32:00","date_gmt":"2006-07-28T22:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7376"},"modified":"2021-12-17T11:41:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:07","slug":"luiz-goes-sobre-o-zeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/luiz-goes-sobre-o-zeca\/","title":{"rendered":"Luiz Goes sobre o Zeca"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Falar do Zeca \u00e9 falar de um grande amigo com quem convivi muito intimamente em Coimbra, sobretuto nos anos 50.<br \/>Quando se d\u00e3o os grandes acontecimentos dos anos 60 eu j\u00e1 n\u00e3o estava l\u00e1, j\u00e1 me tinha formado. O Zeca se fosse vivo tinha mais quatro anos do que eu de idade, mas eu era dos cantores o que me formei mais cedo, porque tinha a mania de ser bom aluno, e n\u00e3o era suficientemente bo\u00e9mio, se fosse hoje, reprovava mais de dez anos.<br \/>Formara-me em Outubro de 1958 e em 1959 j\u00e1 estava em Lisboa, nos Hospitais Civis, e a partir da\u00ed perdi aquele contacto di\u00e1rio, constante, com esses meus queridos amigos, o Zeca era um deles. Como \u00e9 evidente, com essa vinda para Lisboa, perdi o conv\u00edvio com aquela gera\u00e7\u00e3o, e com aqueles acontecimentos da \u00e9poca l\u00e1 em Coimbra. Mas acompa\u00adnhei-os muito de perto.<br \/>Entretanto fui mobilizado, para a Guin\u00e9, onde estive dois anos e, quando voltei, procurei recuperar o tempo que tinha perdido em termos de cantigas, estimulado por terceiros. Depois l\u00e1 recuperei um pouco e entrei numa fase da minha vida, mais amadurecida talvez, mais velho por dentro tamb\u00e9m, e, naturalmente, modifiquei a minha maneira de ser. Mas, falar do Zeca \u00e9 falar de uma pessoa inesquec\u00edvel. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um l\u00edrico, punha as palavras tamb\u00e9m ao servi\u00e7o do cora\u00e7\u00e3o. Eu sei que era assim. E depois de tantos epis\u00f3dios curiosos vou-lhes lembrar apenas um. Eu durante muito tempo n\u00e3o fui rep\u00fablica em Coimbra, porque a minha m\u00e3e vivia l\u00e1, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o \u00fanico cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa. O Zeca j\u00e1 era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma &#8220;Rep\u00fablica&#8221;, e ent\u00e3o, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: &#8220;\u00e1 D. Leopoldina&#8221;, que era a minha m\u00e3e, &#8220;n\u00e3o se importa que os mi\u00fados fiquem a\u00ed?&#8221; E a minha m\u00e3e respondia: &#8220;\u00e1 Sr. Doutor&#8221;, a minha m\u00e3e tratava toda a gente por doutores, porque era costume l\u00e1 em Coimbra, um indiv\u00edduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, &#8220;isto \u00e9 uma maravilha, hem?&#8221;. Entretanto ficavam l\u00e1 os dois mi\u00fados e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha m\u00e3e, ao fim de dois dias, disse-me assim: &#8220;\u00e1 Lu\u00eds, desculpa l\u00e1, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando \u00e9 que? .. &#8221; E eu: &#8220;&#8230; O qu\u00ea? ainda c\u00e1 est\u00e3o?&#8230;&#8221; Tinha-se esquecido. Depois ia busc\u00e1-los. Isto \u00e9 um epis\u00f3dio que revelo com muita ternura, com muita saudade e com muita afectividade. Eu tenho orgulho de ter pertencido \u00e0 gera\u00e7\u00e3o dele, e tamb\u00e9m, em ter contribu\u00eddo \u00e0 minha<br \/>maneira, para que as coisas mudassem. Mas n\u00e3o me esque\u00e7o dele. Foi um grande amigo, \u00e9 uma grande mem\u00f3ria, uma pessoa que eu trago sempre no cora\u00e7\u00e3o e na minha sensibi\u00adlidade.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>Luiz Goes<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar do Zeca \u00e9 falar de um grande amigo com quem convivi muito intimamente em Coimbra, sobretuto nos anos 50.Quando se d\u00e3o os grandes acontecimentos dos anos 60 eu j\u00e1 n\u00e3o estava l\u00e1, j\u00e1 me tinha formado. 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