{"id":7374,"date":"2006-07-27T15:33:00","date_gmt":"2006-07-27T15:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7374"},"modified":"2021-12-17T11:41:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:07","slug":"chamava-se-catarina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/chamava-se-catarina\/","title":{"rendered":"Chamava-se Catarina"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Nascido para, como diz a cantiga, &#8220;abrir grandes janelas&#8221;, o Zeca sempre suportou maio fechamento &#8211; quer o das ideias, quer o dos espa\u00e7os. Das duas vezes que foi a Paris gravar comigo, em 1971 (&#8220;Cantigas do Maio&#8221;) e 1973 (&#8220;Venham mais cinco&#8221;), nunca ele escondeu quanto lhe desagradava e o indispunha a necessidade de ficar fechado no est\u00fadio durante horas, e quanto ele n\u00e3o gostava nada de Paris nem do ambiente dos portugueses de Paris &#8211; hoje entendo como tinha raz\u00e3o.<br \/>Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um est\u00fadio de grava\u00e7\u00f5es, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espa\u00e7os sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a for\u00e7a simples e l\u00edrica das suas palavras? As m\u00e1quinas! custava.lhe aceitar que a &#8220;limpeza&#8221; e a &#8220;verdade&#8221; do som s\u00f3 pudessem ser conseguidas, neste mundo sujo e atravancado, por meio das m\u00e1quinas, das t\u00e9cnicas, do isolamento ac\u00fastico. Custava.lhe aceitar que, para fazer chegar aos outros as coisas belas e simples que inventava, fosse preciso tanta guerra para reconquistar o sil\u00eancio, a p\u00e1gina branca, o patamar vazio donde tudo tem que partir.<br \/>Assim, por entre mil epis\u00f3dios que atestam o que acabo de dizer, h\u00e1 esse &#8211; o da grava\u00e7\u00e3o do &#8220;Cantar Alentejano&#8221; (&#8220;Chamava-se Catarina&#8230; &#8220;) &#8211; que testemunhei aquando da grava\u00e7\u00e3o das &#8220;Cantigas do Maio&#8221;, juntamente com a Z\u00e9lia, o Fanhais, a Isabel Alves Costa, o t\u00e9cnico Gilles Sall\u00e9 e, naturalmente, o violista Carlos Correia (B\u00f3ris). A op\u00e7\u00e3o de arranjo foi: s\u00f3 a viola, e a voz do Zeca. Sem rede.<br \/>O regime de grava\u00e7\u00f5es &#8211; tardes e noites &#8211; fez que, nesse princ\u00ed\u00adpio de tarde, fosse a altura de gravar o &#8220;Cantar Alentejano&#8221;, &#8220;Vamos a isto, Zeca?&#8221;, ia eu dizendo, naturalmente preocupado com a factura do est\u00fadio. &#8220;N\u00e3o tens nada para ir metendo?&#8221;, desconversava ele. Via-se que n\u00e3o estava pronto. &#8220;Queres ir me\u00adtendo outras coisas? Faltam vozes no &#8220;Milho Verde&#8221; e no &#8220;Senhor Arcanjo&#8221;&#8230; E assim ia passando a tarde. &#8220;Est\u00e1 bem, vamos me\u00adtendo outras vozes&#8221;. Mas n\u00e3o se conseguia grande coisa. A alma dele &#8211; percebi depois &#8211; estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Euf\u00e9mia. E, como tantas vezes acontecia, andava no est\u00fadio para c\u00e1 e para l\u00e1, em passos nervosos, como o j\u00f3vem le\u00e3o na sua jaula.<br \/>At\u00e9 que, j\u00e1 pela tardinha: &#8220;Eu vou at\u00e9 l\u00e1 fora, olhar para as vacas&#8221; &#8211; o est\u00fadio era numa quinta apala\u00e7ada, no meio dos campos. Desapareceu, uma hora ou duas. Quando voltou j\u00e1 era quase noite. &#8220;Vamos gravar a Catarina&#8221;. O B\u00f3ris meteu-se na pequena cabina, para o som da viola ficar isolado da voz. O Zeca, no meio do est\u00fadio, sozinho e \u00e0s escuras, cantou. Uma s\u00f3 vez. Essa que est\u00e1 no disco.<br \/>N\u00f3s, os outros, os privilegiados espectadores, est\u00e1vamos na cen\u00adtral t\u00e9cnica, quase todos a chorar incluindo o t\u00e9cnico franc\u00eas. &#8220;Acham que \u00e9 melhor eu cantar isto outra vez?&#8221;<br \/>&#8220;N\u00e3o, Zeca, n\u00e3o. Est\u00e1 muito bem assim&#8230;&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><em>in<\/em> Revista n\u00ba1 da AJA de 1988<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido para, como diz a cantiga, &#8220;abrir grandes janelas&#8221;, o Zeca sempre suportou maio fechamento &#8211; quer o das ideias, quer o dos espa\u00e7os. Das duas vezes que foi a Paris gravar comigo, em 1971 (&#8220;Cantigas do Maio&#8221;) e 1973 (&#8220;Venham mais cinco&#8221;), nunca ele escondeu quanto lhe desagradava e o indispunha a necessidade de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[115,152,77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7374"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}