{"id":7373,"date":"2006-07-27T15:25:00","date_gmt":"2006-07-27T15:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7373"},"modified":"2022-02-19T14:52:30","modified_gmt":"2022-02-19T14:52:30","slug":"carta-de-agradecimento-a-jose-afonso-um-ano-depois-da-despedida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/carta-de-agradecimento-a-jose-afonso-um-ano-depois-da-despedida\/","title":{"rendered":"Carta de agradecimento a Jos\u00e9 Afonso um ano depois da despedida"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Conheci-te pessoalmente vai fazer 21 anos.<br \/>\nEsperei-te no cais da Rocha do Conde de \u00d3bidos, junto dos fun\u00adcion\u00e1rios da Alf\u00e2ndega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para tr\u00e1s e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandeg\u00e1rias, ten\u00adtando vencer a (futura) lend\u00e1ria relut\u00e2ncia do dr. Jos\u00e9 Afonso a falar de m\u00fasica, das suas cantigas.<br \/>\nGuardo uma vaga mem\u00f3ria da tua mulher, da(s) crian\u00e7a(s), das respostas evasivas a provocarem-me a situa\u00e7\u00e3o de desconforto que volta e meia tenho de suportar noutros epis\u00f3dios desta pro\u00adfiss\u00e3o de intruso.<br \/>\nNingu\u00e9m para te abra\u00e7ar, \u00e0 chegada do navio.<br \/>\nE tu a mostrares-te admirado (desconfiado?) com a minha insis\u00adt\u00eancia em falar-te de m\u00fasica, e da import\u00e2ncia das tuas can\u00e7\u00f5es. A minha tarefa era recolher as tuas primeiras declara\u00e7\u00f5es no re\u00adgresso \u00e0 &#8220;metr\u00f3pole&#8221;. N\u00e3o me lembro como, mas eles eram bons profissionais) o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX (Onda M\u00e9dia do R\u00e1dio Clube Portugu\u00eas, da meia\u00ad-noite \u00e0s duas), sabiam que ias chegar naquele dia do Ver\u00e3o de 1967. Encarregaram-se de te entrevistar, e de te convencer a gravar algumas can\u00e7\u00f5es para o programa. Gravar gratuitamente, que era a velha forma nacional &#8211; porreirista de aproveitar os can\u00adtores de resist\u00eancia sem olhar aos seus dramas, sem nos interro\u00adgarmos sobre (se tinham) dificuldades materiais.<br \/>\nVinhas esgotado da experi\u00eancia colonial de Louren\u00e7o Marques e da Beira. E sem um tost\u00e3o. N\u00e3o sabias bem ainda onde ficarias a residir. Julgo que me falaste de Set\u00fabal, mas tamb\u00e9m de Faro. S\u00f3 encaravas o ensino como modo de vida.<br \/>\nRegressei impressionado \u00e0 Sampaio e Pina. Tentei que os reali\u00adzadores convencessem os produtores &#8211; os Parodiantes de Lis\u00adboa &#8211; a pagarem as grava\u00e7\u00f5es que te dispuseras a ir fazer dentro de dias. Recordo a algu\u00e9m a argumentar (interessa saber quem, em particular?) que o Zeca Afonso se devia sentir muito grato ao PBX por este o relan\u00e7ar no pa\u00eds.<br \/>\nA fiscaliza\u00e7\u00e3o do RCP &#8211; junto da qual funcionava um represen\u00adtante dos Servi\u00e7os de Censura &#8211; cortou o programa e s\u00f3 uma cunha do actor Ra\u00fal Solnado ao Subsecret\u00e1rio de Estado da Pre\u00adsid\u00eancia do Conselho, Paulo Rodrigues, permitiu a sua trans\u00admiss\u00e3o umas noites depois.<br \/>\nNunca tive coragem de te perguntar se recebeste algum dinheiro pelas grava\u00e7\u00f5es. Julgo que te pagaram apenas os transportes para e de Lisboa. N\u00e3o me lembro que can\u00e7\u00f5es novas (era a exig\u00eancia) cantaste. A l\u00f3gica manda-me pensar que foram can\u00e7\u00f5es incluidas no LP Cantares do Andarilho (1968) ou nos Contos Velhos Rumos Novos. Por\u00e9m, n\u00e3o sei porqu\u00ea, fiquei sempre com a ideia que foi no PBX, em 1967, que deste a conhecer as Cantigas do Maio. Talvez porque a esse espantoso monumento da MPP \/Can\u00e7\u00e3o de Interven\u00e7\u00e3o nada foi feito antes nem nada foi feito depois que se igualasse.<br \/>\nPara mim, o momento do solit\u00e1rio encontro no cais e o epis\u00f3dio do &#8220;cravan\u00e7o&#8221; do PBX constituiram a revela\u00e7\u00e3o em corpo inteiro de um Jos\u00e9 Afonso que andou pela nossa terra, como tu pr\u00f3prio declararias mais tarde, a pagar a sua d\u00edvida pol\u00edtica e cultural para fins que considerava correctos e a pessoas ou organiza\u00e7\u00f5es para quem valia a pena faz\u00ea-lo.<br \/>\nJornalista da R\u00e1dio, foi a ti, \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o da tua m\u00fasica e ao apelo dos teus versos que recorri, como outros companheiros, nos tempos de Salazar e Caetano, para fazer passar a mensagem do inconformismo.<br \/>\nTu dizias por m\u00fasica o que n\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos dizer por palavras. O que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos coragem para dizer por palavras. Devo-te essa li\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDevo-te tudo o que se deve a quem nos d\u00e1 for\u00e7a para resistir. Tudo o que se deve a quem tem a coragem de ser at\u00e9 ao fim igual a si mesmo e \u00e0s ideias que apregoou algum dia.&#8221;Outra voz outra garganta\/Outra m\u00e3o que se estende \u00e0 que tom\u00adbara\/Uma fagulha num palheiro acesa\/\u00d3 meus irm\u00e3os a luta n\u00e3o p\u00e1ra&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Adelino Gomes, in Revista n\u00ba 1 da AJA, 1988<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci-te pessoalmente vai fazer 21 anos. Esperei-te no cais da Rocha do Conde de \u00d3bidos, junto dos fun\u00adcion\u00e1rios da Alf\u00e2ndega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para tr\u00e1s e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandeg\u00e1rias, ten\u00adtando vencer a (futura) lend\u00e1ria relut\u00e2ncia do dr. 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