{"id":7357,"date":"2006-07-23T17:55:00","date_gmt":"2006-07-23T17:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7357"},"modified":"2021-12-17T11:41:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:07","slug":"carlos-paredes-a-magia-da-guitarra-aliada-a-lucida-memoria-das-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/carlos-paredes-a-magia-da-guitarra-aliada-a-lucida-memoria-das-coisas\/","title":{"rendered":"Carlos Paredes &#8211; A magia da guitarra aliada \u00e0 l\u00facida mem\u00f3ria das coisas"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">A proposta era a de Carlos Paredes nos falar do seu album ES\u00adPELHO DE SONS, recentemente editado e ao mesmo tempo relembrar Jos\u00e9 Afonso atrav\u00e9s da mem\u00f3ria, das pequenas e gran\u00addes hist\u00f3rias vividas em comum.<br \/>Carlos Paredes n\u00e3o aceitou o jogo. Quis falar e falou, quase s\u00f3 sobre Jos\u00e9 Afonso &#8211; &#8220;um grande amigo, um homem que marcou a sua gera\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; relembrando momentos, acentuando facetas menos conhecidas.<br \/>&#8220;O Jos\u00e9 Afonso era um cantor ambulante, um m\u00fasico ambulante no melhor sentido da palavra. Era um homem que oferecia a sua m\u00fasica aqui e al\u00e9m, onde era poss\u00edvel ter p\u00fablico. O Jos\u00e9 Afonso chegou a cantar em cima duma \u00e1rvore, em cima dum cami\u00e3o. O que ele se propunha dar \u00e0s pessoas n\u00e3o era s\u00f3 a sua arte de cantor. Tinha tamb\u00e9m por objectivo divulgar ideias, esclarecer as pessoas, lev\u00e1-Ias a conversar sobre a vida&#8221;.<br \/>A guitarra portuguesa aparece quase sempre ligada ao fado. Carlos Paredes \u00e9 um homem cuja tradi\u00e7\u00e3o entronca na do fado de Coimbra. Jos\u00e9 Afonso bebeu dessa mesma fonte, como de muitas outras, mas, no dizer de Carlos Paredes, ele realizou-se muito melhor na balada.<br \/>&#8220;As aprecia\u00e7\u00f5es que se faziam em Coimbra eram \u00e0 voz, \u00e0 ampli\u00adtude da voz, \u00e0 for\u00e7a da voz. Dizia-se que fulano tinha uma voz extensa, uma voz forte. Ora o Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o era bem um cantor que correspondesse a estas caracter\u00edsticas e precisamente por isso, saiu-se muito melhor nas suas baladas do que no fado. Mas as suas liga\u00e7\u00f5es a Coimbra eram bem fortes. Ocasi\u00e3o houve em que achou que havia figuras do fado de Coimbra que lhe mereciam todo o respeito e que, em certa medida, estavam na mesma linha que ele trilhara. Foi o caso de Edmundo de Betten\u00adcourt do qual dizia s\u00e9r um cantor progressista e inovador, e do meu pai que ele gostava muito de ouvir tocar. Acabou por gravar um disco de fados de Coimbra que foi uma forma de mergulhar nas origens, homenageando ao mesmo tempo uma tradi\u00e7\u00e3o fa\u00addista que o havia inspirado, l\u00edrica mas n\u00e3o piegas.<br \/>O acompanhamento preferencial de Jos\u00e9 Afonso era a viola; Carlos Paredes v\u00ea nisso uma atitude inovadora, dado que a gui\u00adtarra portuguesa limita o cantor.<br \/>&#8220;Eu n\u00e3o sou contra a guitarra portuguesa, como \u00e9 l\u00f3gico, visto que a toco, mas Jos\u00e9 Afonso tinha absoluta raz\u00e3o. Eu penso que a guitarra portuguesa molda o cantor. O cantor que canta ao som da guitarra portuguesa, quer queira quer n\u00e3o, acaba por ser in\u00adtegrado num certo estilo. O Jos\u00e9 Afonso sa\u00edu disso. Compreendeu que a guitarra portuguesa o desviaria da busca de uma can\u00e7\u00e3o que correspondesse \u00e0 sua pr\u00f3pria personalidade. Suprimiu por\u00adtanto a guitarra e sentiu-se mais liberto acompanhado pela vio\u00adla&#8221;. E, aparentemente, mudando de assunto:<br \/>&#8220;Jos\u00e9 Afonso foi o marco de toda uma gera\u00e7\u00e3o de cantores, num tempo em que a can\u00e7\u00e3o de protesto, a balada, foram bandeira e estandarte dos que procuravam a ruptura com o nacional-cin\u00adzentismo&#8221; .<br \/>&#8220;Levou atr\u00e1s de si outros cantores, e pode dizer-se que toda uma gera\u00e7\u00e3o foi por ele inspirada. Surgiram assim nomes que dignifi\u00adcaram a can\u00e7\u00e3o em Portugal, a ponto de se ter criado esta divis\u00e3o: os que correspondiam ao nacional-can\u00e7onetismo e os cantores de interven\u00e7\u00e3o.<br \/>O nacional-can\u00e7onetismo era entendido como uma forma de comodamente se ignorarem os problemas, de se cantarem coisas que n\u00e3o fossem inc\u00f3modas. A can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o, essa tinha uma capacidade de an\u00e1lise da realidade portuguesa, uma reali\u00addade dram\u00e1tica naquela altura&#8221;.<br \/>Para Carlos Paredes, em Jos\u00e9 Afonso as rotas da vida e da can\u00e7\u00e3o misturaram-se de forma exemplar.<br \/>&#8220;N\u00f3s nunca saberemos se foi atrav\u00e9s do percurso que escolheu para a can\u00e7\u00e3o que Jos\u00e9 Afonso encontrou o seu caminho da vida, ou se foi por ter escolhido um determinado sentido da vida que optou por um determinado tipo de can\u00e7\u00e3o. Parece-me que as duas coisas est\u00e3o bastante ligadas. O Jos\u00e9 Afonso procurou a verdade e a verdade, naquela \u00e9poca, obrigava a trilhar esse ca\u00adminho de den\u00fancia com muita coragem, confrontando-se com perigos constantes. Mas ele era um homem de coragem, inteli\u00adgente, interessado no futuro das pessoas, no mundo que o ro\u00addeava e tudo isso traduzia nas suas can\u00e7\u00f5es. Algumas delas tor\u00adnaram-se aut\u00eanticos s\u00edmbolos que todos n\u00f3s traute\u00e1vamos em determinadas ocasi\u00f5es, porque tinham a ver com a exist\u00eancia de todos n\u00f3s&#8221;.<br \/>&#8220;Penso &#8211; diz, rematando com um gesto a afirma\u00e7\u00e3o &#8211; que, com os anos, muitas das suas can\u00e7\u00f5es vir\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria a prop\u00f3sito de qualquer coisa&#8221;. E acrescenta:<br \/>&#8220;Ele disse-me um dia que gostava das minhas m\u00fasicas, do meu report\u00f3rio. Apreciava a alegria daquelas m\u00fasicas, sentia profun\u00addamente a vivacidade popular das can\u00e7\u00f5es.<br \/>Nesta conversa com o Jos\u00e9 Afonso pressenti que ele, j\u00e1 naquela altura, procurava fugir \u00e0 melancolia do fado de Coimbra, \u00e0quele saudosismo a que era avesso, e fugindo da melancolia encontra\u00adva-se com o povo, com o folclore. Talvez tenha sido por isso que a sua m\u00fasica se tornou t\u00e3o universal.&#8221;<br \/>E Carlos Paredes d\u00e1 conta do apre\u00e7o com que eram ouvidas as can\u00e7\u00f5es do Zeca em alguns pa\u00edses por onde andou.<br \/>Tr\u00eas dedos mais de conversa. Para o entrevistado j\u00e1 \u00e9 tempo de dar a Jos\u00e9 Afonso o lugar devido, como figura nacional, \u00edmpar na hist\u00f3ria da can\u00e7\u00e3o portuguesa.<br \/>&#8220;Eu participei em algumas festas de homenagem a Jos\u00e9 Afonso, mas devo-lhe dizer que essas homenagens deviam partir do pr\u00f3\u00adprio Estado, das pr\u00f3prias entidades oficiais. Independentemente de se ter ou n\u00e3o princ\u00edpios id\u00eanticos aos seus, as pessoas devem reconhecer que Jos\u00e9 Afonso lutou por qualquer coisa que interes\u00adsava a todos e que, criticando a vida nacional, estava a fornecer mat\u00e9ria para que se formasse uma ideia mais concreta das reali\u00addades. E isso beneficiou toda a gente, de esquerda como de di\u00adreita. Nem sempre se entende assim, as pessoas est\u00e3o fanatica\u00admente agarradas \u00e0s suas idiossincrasias e n\u00e3o pensam que a ver\u00addade possa ser \u00fatil.&#8221;<br \/>A conversa flui. Um olhar ainda para &#8220;Espelho de Sons&#8221;, disco de Carlos Paredes recentemente editado, quebrando um &#8220;jejum&#8221; de quinze anos. &#8220;Espelho de Sons&#8221; \u00e9 uma esp\u00e9cie de apanhado de liga\u00e7\u00f5es &#8211; diz &#8211; de circunst\u00e2ncias, e sobretudo a presen\u00e7a do rio. &#8220;Com o meu conhecimento de Lisboa posso dizer que o Tejo \u00e9 uma evid\u00eancia constante na cidade (tal como o Mondego em Coimbra), que fatalmente acaba por influenciar os seus m\u00fa\u00adsicos e que me.influenciou a mim.<br \/>O &#8220;Espelho de Sons&#8221; \u00e9 esta rela\u00e7\u00e3o da guitarra ou do guitarrista com o seu mundo, o mundo em que vive, com quem convive, os seus problemas, as suas queixas.&#8221;<br \/>A conversa chegou ao fim. Uma \u00faltima observa\u00e7\u00e3o: &#8220;A obra de Jos\u00e9 Afonso \u00e9 para ouvir no seu conjunto.<br \/>Cada can\u00e7\u00e3o corresponde a uma faceta, a uma caracter\u00edstica diferente da sua maneira de ser. \u00c9 uma obra virada para o futuro&#8221; .<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>Carlos J\u00falio <\/strong> in Revista n\u00ba2  da AJA, 1988 <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A proposta era a de Carlos Paredes nos falar do seu album ES\u00adPELHO DE SONS, recentemente editado e ao mesmo tempo relembrar Jos\u00e9 Afonso atrav\u00e9s da mem\u00f3ria, das pequenas e gran\u00addes hist\u00f3rias vividas em comum.Carlos Paredes n\u00e3o aceitou o jogo. 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