{"id":7351,"date":"2006-07-22T15:53:00","date_gmt":"2006-07-22T15:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7351"},"modified":"2021-12-17T11:41:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:07","slug":"as-vozes-que-nos-faltam-joao-afonso-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/as-vozes-que-nos-faltam-joao-afonso-dos-santos\/","title":{"rendered":"As vozes que nos faltam &#8211; Jo\u00e3o Afonso dos Santos"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">A tend\u00eancia \u00e9 para esquecermos as pessoas, na sua vera ef\u00edgie, depois que desaparecem. \u00c0s tantas, estamos a mold\u00e1-las segundo a perspectiva dominante, ou, na melhor das hip\u00f3teses, pela nossa, supondo que a temos discordante da primeira. O que de algum modo n\u00e3o deixa de ser natural, enquanto essa incorpora\u00e7\u00e3o nos valores cor\u00adrentes (de circula\u00e7\u00e3o fiduci\u00e1ria, passe o termo) ou na nossa subjecti\u00advidade induzida n\u00e3o \u00e9 o resultado dum acto deliberado do poder ou poderes constitu\u00eddos ou a eman\u00eancia deles. A\u00ed, sim, nada se configura como natural na aparente naturalidade com que se nivelam os mortos pela rasa bitola dos vivos.<br \/>Por isso, fomos hoje buscar a voz parcelar do Zeca a uma das suas menos distantes entrevistas, porventura das mais fi\u00e9is, atributo de que poucas vezes beneficiou. E a um cen\u00e1rio n\u00e3o muito diferente do actual, nem diferentes os actores da cena p\u00fablica, o mesmo se dizendo dos problemas capitais. Isto \u00e9, a um tempo pr\u00f3ximo, n\u00e3o tanto no sentido cronol\u00f3gico do termo, antes na sua significa\u00e7\u00e3o valorativa e sociol\u00f3gica. Com este expressivo acr\u00e9scimo, o de que, en\u00adtretanto, se agravaram os pressupostos de desumaniza\u00e7\u00e3o, de cin\u00adzentismo cultural, de omnipresente oficiosidade administrativa, de aceita\u00e7\u00e3o conformista; e tamb\u00e9m daquilo a que se poder\u00e1 chamar, com alguma ironia, a \u00e9tica da desigualdade. Consiste ela em se colo\u00adcar na gamela da nossa frustra\u00e7\u00e3o quotidiana os famosos indicado\u00adres macro-econ\u00f3micos, enquanto os novos privilegiados se banque\u00adteiam magnlfica e impudicamente, e erigir tudo isso em respeit\u00e1vel regra de vida e meta nacional, ao mesmo tempo. Que este tipo de &#8220;desenvolvimento&#8221; \u00e9 o adequado, inevit\u00e1vel e at\u00e9 excelente afir\u00admam-nos, abonados em modelos que nos apontam, os demiurgos desta outra harmonia universal sobre a qual recai a suspeita de ser t\u00e3o falaz, caduca e falsa como a profetizada no s\u00e9culo passado.<br \/>Hoje, que certos c\u00edrculos bem pensantes t\u00eam por moda celebrar, com grande clamor e alguma m\u00e1 consci\u00eancia, a suposta morte das ideologias; e se generaliza a apet\u00eancia pela dissolu\u00e7\u00e3o da identidade colectiva em troca duns dinheiros por que tudo se afere &#8211; onde se mostra que h\u00e1 Judas bem mais rapaces do que os dos Santos Evan\u00adgelhos; hoje, que todos querem ser, e n\u00e3o mais do que isso, sacer\u00addotes ordenados desse culto das novas tecnologias; que se maca\u00adqueiam provincianamente os figurinos importados, com grande sobra de fazenda; &#8211; bom \u00e9 que se oi\u00e7am e fa\u00e7am ouvir vozes criticas, re\u00adbeldes e solid\u00e1rias como a do Zeca.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong><em><\/em><\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong><em><\/em><\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong><em>Artigo publicado na revista n\u00ba 3 da AJA em 1989<\/em><\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tend\u00eancia \u00e9 para esquecermos as pessoas, na sua vera ef\u00edgie, depois que desaparecem. \u00c0s tantas, estamos a mold\u00e1-las segundo a perspectiva dominante, ou, na melhor das hip\u00f3teses, pela nossa, supondo que a temos discordante da primeira. 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