{"id":7330,"date":"2006-07-17T22:44:00","date_gmt":"2006-07-17T22:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7330"},"modified":"2022-11-18T11:59:28","modified_gmt":"2022-11-18T11:59:28","slug":"zeca-encantava-cantando-natalia-correia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-encantava-cantando-natalia-correia\/","title":{"rendered":"Zeca: Encantava cantando &#8211; Nat\u00e1lia Correia"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Encontr\u00e1mo-nos no mar alto. Ambos vindos de \u00c1frica. Eu, de An\u00adgola onde, com o pretexto que me calhava ao gosto, de fluir feiti\u00e7os africanos escapados \u00e0 gan\u00e2ncia evangelizadora dos mission\u00e1rios, ia em miss\u00e3o de tratos conspirat\u00f3rios que a Pide farejava no cerco das andan\u00e7as. O Zeca, de Mo\u00e7ambique, onde a sua voz de gorgolejos de \u00e1gua fora com a Tuna Acad\u00e9mica, humedecedor com toadas saudo\u00adsas de Coimbra cora\u00ad\u00e7\u00f5es endurecidos pela faina de enriquecer a ex\u00adpensas do ind\u00edgena. O encontro foi de im\u00adpacto m\u00e1gico. Noct\u00edva\u00adgo, por conseguinte. Enlevos, sonhos e indig\u00adna\u00e7\u00e3o contra a morda\u00e7a com bota de el\u00e1stico, exalta\u00e7\u00f5es vividas noite fora por um pequeno grupo que s\u00f3 recolhia ao camarote quando o raiar da manh\u00e3 aureoleava o ritual da baldea\u00e7\u00e3o que nos expulsava do conv\u00e9s.<br \/>\nRecordo-o ali entre um apaixonado estar presente e um despren\u00addimento de n\u00e3o estar. Era belo. Mas o pudor de o ser ornava-lhe a cabe\u00e7a de grego deslei\u00adxado. Parecia que se envergonhava da beleza do seu rosto talhado pela medida ouro. A alma, essa por\u00e9m expu\u00adnha-se quando nos fazia ouvir o correr do seu sangue para a Poesia.<br \/>\nA sua demanda de cavaleiro da Causa que os fantoches do viver por viver, dizem ser coisa perdida.<br \/>\nEm Lisboa chega\u00adram-me os seus versos com uma pergunta. Ele queria saber se em minha opini\u00e3o aquilo era public\u00e1vel. Perplexa in\u00adterroguei-me: mas ent\u00e3o aquele g\u00e9nio da poesia <em>cantabile<\/em> n\u00e3o sabia que os fados o tinham predestinado para despertar a adormecida origem do nosso lirismo na recomposi\u00e7\u00e3o das n\u00fapcias do canto e do poema?! Foi o que lhe respondi por outras palavras: Public\u00e1veis? N\u00e3o. Melhor do que isso. Cant\u00e1veis.<br \/>\nE de que maneira o foram, fei\u00adtos sustento do anseio revolucio\u00adn\u00e1rio que, se n\u00e3o for impulso da po\u00e9tica da liberta\u00e7\u00e3o acaba sem\u00adpre no bolso dos abutres dos Termidores.<br \/>\nRecordo-o ainda nas ferventes noites alentejanas em que envol\u00advidos no coral enluarado dos homens da planicie, emparelh\u00e1\u00advamos em estampidos de revolta cantada e recitada, o Zeca, o Adriano e poetas do claro grito da indigna\u00e7\u00e3o, entre os quais eu, como f\u00eamea guerrilheira da palavra libert\u00e1ria fru\u00eda o piropo alentejano de ai filha de um real cabr\u00e3o! que a urbani\u00addade ensossa toma por ofensa E nessa mar\u00e9 de vozes concertadas no esconjuro dos vampiros boiava a voz andr\u00f3gina do Zeca, como uma es\u00adtreia de cantos acesa pelo que sufocadamente remanesce no cora\u00e7\u00e3o do povo das antigas idades em que todos eram irm\u00e3os no reino da M\u00e3e Natureza.<br \/>\nAlinhei imagens que a minha mem\u00f3ria selec\u00adtiva elege das muitas que guarda de um con\u00adv\u00edvio persistentemente afectivo apesar de entre\u00adcortado pela sua err\u00e2n\u00adcia residencial desde Coimbra at\u00e9 fixar-se em Set\u00fabal.<br \/>\nFoi-me tremendo sa\u00adber que as Parcas lhe teciam o fim. Ciosos dos que amam, os deuses en\u00adcomendaram-lhes o te\u00adcer fatal. Porque o Zeca era jovem. N\u00e3o o era nos anos? Sei l\u00e1 com que idade morreu. A \u00fani\u00adca juventude que me des\u00adlumbra \u00e9 a que tem o dom de encantar. E ele encantava cantando.<br \/>\nPorque cantar e encan\u00adtar s\u00e3o uma s\u00f3 coisa na arte de fazer ascender os cora\u00e7\u00f5es em que o canto sortilegamente se derrama, \u00e0quele ponto espiritual do sentimento de todos serem Um.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontr\u00e1mo-nos no mar alto. Ambos vindos de \u00c1frica. Eu, de An\u00adgola onde, com o pretexto que me calhava ao gosto, de fluir feiti\u00e7os africanos escapados \u00e0 gan\u00e2ncia evangelizadora dos mission\u00e1rios, ia em miss\u00e3o de tratos conspirat\u00f3rios que a Pide farejava no cerco das andan\u00e7as. 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