{"id":7327,"date":"2006-07-16T17:44:00","date_gmt":"2006-07-16T17:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7327"},"modified":"2021-12-17T11:41:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:07","slug":"a-solidariedade-em-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/a-solidariedade-em-jose-afonso\/","title":{"rendered":"A solidariedade em Jos\u00e9 Afonso"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Era por excel\u00eancia solid\u00e1rio, o Zeca. Foi-o, a bem dizer, at\u00e9 ao derradeiro limite, desprendido de si e do que \u00e9 de uso chamar-se, numa perspectiva de fora, os interesses pessoais&#8230; que n\u00e3o eram naturalmente os seus interesses pessoais. De o ser, pelos caminhos da vida e ao longo dela, de temperar a pr\u00e1tica de o ser no crisol dessa inexaur\u00edvel conviv\u00eancia com as situa\u00ad\u00e7\u00f5es, as pessoas comuns e seus agrupamentos, a soli\u00addariedade que dele se desprendia era uma soalheira sala-abrigo, toda caiada de branco, um gesto natural, uma esp\u00e9cie de atributo da personalidade. Nunca toda\u00advia contraditoriamente inconsciente e f\u00e1cil, menos ainda piedosa. O fraternal impulso para com os outros, especialmente os \u201cesquecidos\u201d do poder (com os quais se identificava), melhor dizendo, de todos os poderes, institucionalizados ou n\u00e3o, convertia-o ele na exig\u00eancia dum sentido de mudan\u00e7a (n\u00e3o esta festiva e formal mudan\u00e7a em que vivemos), no alertar pedag\u00f3gico das consci\u00eancias para a potencialidade da ac\u00e7\u00e3o colectiva. Tendo por horizonte a edifica\u00e7\u00e3o da cidade ut\u00f3pica, de que nos fala a can\u00e7\u00e3o, \u201csem muros nem ameias, gente igual por dentro, gente igual por fora\u201d? Esse des\u00edgnio ideal, profundamente ancorado no seu substracto \u00e9tico e pol\u00edtico, n\u00e3o o impediu de se bater pelas causas con\u00adcretas, radicadas nos interesses e nas organiza\u00e7\u00f5es populares, profissionais ou outras, de as estimular ou apoiar \u00e0 sua maneira. Por muito imediatos e circunstan\u00adciais que fossem, segundo o princ\u00edpio mesmo da solida\u00adriedade assumida. Zeca media bem a dist\u00e2ncia que vai da sociedade real, desumana e injusta, para o sonho dela que sempre sonhou. E, para al\u00e9m das metas reali\u00adz\u00e1veis sabe-se l\u00e1 quando, que ser\u00e3o as utopias sen\u00e3o a den\u00fancia, por alto contraste, da cidade actual?<br \/>Essa atitude solid\u00e1ria era claramente adversa a todo o dogmatismo intransigente, ou talvez este segundo comportamento seja a condi\u00e7\u00e3o essencial do primeiro. Aos ju\u00edzos categ\u00f3ricos, \u00e0s verdades reveladas, trans\u00adcendentes ou imanentes, \u00e0s infalibilidades dos papas laicos Que enxameiam o nosso pequeno universo &#8211; tudo isso que desde sempre tra\u00e7ou as fronteiras da intole\u00adr\u00e2ncia &#8211; opunha ele o permanente interrogar-se das quest\u00f5es, a d\u00favida cr\u00edtica e o esfor\u00e7o da sua supera\u00ad\u00e7\u00e3o, a relatividade das solu\u00e7\u00f5es, em suma, a abertura de esp\u00edrito. Questionando os outros e a si mesmo, lan\u00ad\u00e7ava pontes de di\u00e1logo, abria clareiras de conv\u00edvio, atava os la\u00e7os da aproxima\u00e7\u00e3o, sem ceder todavia nas suas posi\u00e7\u00f5es de fundo e na sua \u201cpraxis\u201d actuante.<br \/>Esta postura transmudou-a o Zeca para o plano musical. Cantou. Mas o canto solid\u00e1rio foi mais do que mera consequ\u00eancia da atitude solid\u00e1ria do seu autor. Dele fez deliberadamente &#8211; como sabemos &#8211; um instru\u00admento de acusa\u00e7\u00e3o e de protesto colectivos, uma senha de reconhecimento comum, uma mensagem de luta e de porvir. Nos signos explrcitos da linguagem do tempo reconhecemos os nossos verdugos e o seu fim anunciado. Uma vezes em met\u00e1foras carregadas de significa\u00e7\u00e3o facilmente percept\u00edvel (\u201cCoro dos Ca\u00eddos\u201d, \u201cOs Vampiros\u201d, \u201cO Av\u00f4 Cavernoso\u201d, etc.); outras, ser\u00advindo-se de casos singulares como paradigmas da opress\u00e3o a v\u00e1rios n\u00edveis (\u201cVai Maria Vai\u201d, \u201cCantar Alen\u00adtejano\u201d, \u201cTeresa Torga&#8221;, etc.); sobre o pano de fundo dum lirismo que mergulhou as ra\u00edzes na verdade da terra e da gente, e tinto tamb\u00e9m, aqui e ali, das tintas do surrealismo.<br \/>Foram perto de trinta anos da Mcan\u00e7\u00e3o de interven\u00ad\u00e7\u00e3o&#8221;. Se quisermos fixar um momento, poderemos d\u00e1-Ia por come\u00e7ada em 1959, com a edi\u00e7\u00e3o do \u201cMenino do Bairro Negro\u201d e prolongada por todo o tempo que a ditadura levou enfim a cair. Zeca n\u00e3o se deu, no entan\u00adto, por quite com o derrube do fascismo. Celebrou, em novas formas sem\u00e2nticas e musicais, o prometimento do novo dia, exprimiu, de modo mais conjuntural e directo, as vicissitudes dessa \u00e9poca hist\u00f3rica, e, visto que o acto solid\u00e1rio se n\u00e3o nega em fronteiras, cantou o amanhecer esperado doutros povos, n\u00e3o t\u00e3o seguro como isso. Escarmentou, por fim, o adiamento da socie\u00addade prometida pela revolu\u00e7\u00e3o de 74, os seus alibis, as suas entorses, os seus glut\u00f5es insaci\u00e1veis, herdeiros<br \/>. directos dos vampiros de recentes eras. Esteve onde o reclamaram, enquanto p\u00f4de, ele mais os seus colegas de of\u00edcio, at\u00e9 ao osso da resist\u00eancia. Pelas associa\u00e7\u00f5es recreativas e culturais, nos colectivos dos trabalhado\u00adres, nas escolas e academias, entre os intelectuais e os emigrantes, nos campos e nas cidades, em Angola e Mo\u00e7ambique, ele e a sua voz foram companheiros fi\u00e9is das nossas d\u00favidas e revoltas, dos nossos anseios e esperan\u00e7as.<br \/>Em 1985, ano da \u00faltima grava\u00e7\u00e3o, Zeca cantou, na sua \u201cAlegria da Cria\u00e7\u00e3o&#8221;, o que podemos interpretar como sendo uma esp\u00e9cie de balan\u00e7o antecipado,<\/div>\n<p>&#8220;De nada me arrependo<br \/>S\u00f3 a vida<br \/>Me ensinou a cantar<br \/>Esta cantiga\u201d<\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Afonso dos Santos<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era por excel\u00eancia solid\u00e1rio, o Zeca. 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