{"id":7245,"date":"2006-05-19T14:36:00","date_gmt":"2006-05-19T14:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7245"},"modified":"2021-12-17T11:41:08","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:08","slug":"texto-de-evocacao-de-jose-afonso-por-elfriede-engelmayer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/texto-de-evocacao-de-jose-afonso-por-elfriede-engelmayer\/","title":{"rendered":"Texto de Evoca\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso por Elfriede Engelmayer"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3834\/1014\/1600\/untitled.9.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3834\/1014\/320\/untitled.8.jpg\" style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a>N\u00facleo do Norte da Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso (AJA) na C\u00e2mara Municipal de Matosinhos<\/p>\n<p><em>As can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num ver\u00e3o long\u00ednquo, durante o qual frequentei um curso de l\u00edngua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. Regressada \u00e0 \u00c1ustria, minha terra natal, e apesar de ainda n\u00e3o conhecer a totalidade da sua produ\u00e7\u00e3o, decidi escrever a minha tese sobre a sua l\u00edrica. Mais tarde, ao longo de um ano em que vivi em Lisboa para iniciar o trabalho de pesquisa, conheci pessoalmente Jos\u00e9 Afonso \u2013 que se tornou meu mestre, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua obra, mas tamb\u00e9m a este pa\u00eds que ele amava e que ao mesmo tempo o desesperava.<\/p>\n<p>Nesse tempo, o Zeca j\u00e1 era um cantautor consagrado, e no entanto, o meu projecto de tese causou-lhe algum espanto, porque em Portugal ningu\u00e9m se tinha lembrado de fazer algo de parecido. E mesmo hoje em dia, passados quase vinte anos sobre a sua morte, neste pa\u00eds os seus textos n\u00e3o constam de nenhuma antologia l\u00edrica, nem encontramos o seu nome referido nas hist\u00f3rias da literatura portuguesa. Ser\u00e1 que a m\u00fasica ensombrou os seus textos?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as numerosas adapta\u00e7\u00f5es, varia\u00e7\u00f5es e reinterpreta\u00e7\u00f5es e o uso de uma can\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso em circunst\u00e2ncias festivas ou reivindicativas provam a sua canoniza\u00e7\u00e3o. Mas por outro lado continuam ignorados os seus textos, musicados ou n\u00e3o, uma obra l\u00edrica de mais de 300 p\u00e1ginas, com uma evolu\u00e7\u00e3o ao longo das d\u00e9cadas, marcada por influ\u00eancias liter\u00e1rias, circunst\u00e2ncias sociais e desenvolvimento pessoal. Poderia descrever essa evolu\u00e7\u00e3o como um arco que se inicia com textos inspirados em tradi\u00e7\u00f5es populares, nos fados e baladas de Coimbra, na l\u00edrica de Cam\u00f5es e Pessoa, entre outros, passando por influ\u00eancias surrealistas e fases de grande hermetismo como resposta \u00e0 censura da \u00e9poca, passando tamb\u00e9m, logo depois do 25 de Abril, por uma \u201cabertura\u201d discursiva (e nesse aspecto, Jos\u00e9 Afonso foi um dos poucos no campo da literatura cuja produ\u00e7\u00e3o reflectiu tamb\u00e9m formalmente a revolu\u00e7\u00e3o de 1974). Mas foi tamb\u00e9m o desencanto que moldou a sua poesia, e naqueles anos entre 1978 e a morte, os seus textos documentam a hist\u00f3ria deste pa\u00eds e sobretudo a sua hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica liter\u00e1ria portuguesa tem manifestos problemas em reconhecer um valor aut\u00f3nomo \u00e0 l\u00edrica do Zeca. Se, no universo das can\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o em geral, existem letras que, sem m\u00fasica, perdem a sua for\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 este o caso dos textos de Jos\u00e9 Afonso. \u00c9 verdade que a m\u00fasica transforma e intensifica o texto (e poderia aqui lembrar, numa outra escala, as vers\u00f5es musicais que Franz Schubert fez a partir dos poemas de Goethe); mas parece-me \u00f3bvio que a autonomia do texto depende simplesmente da sua qualidade e n\u00e3o da circunst\u00e2ncia de ser ou n\u00e3o musicado.<\/p>\n<p>Para explicar o fen\u00f3meno do desconhecimento de que \u00e9 v\u00edtima ainda hoje em dia o poeta Jos\u00e9 Afonso, gostaria de desenvolver um pouco mais uma tese que j\u00e1 defendi em outras ocasi\u00f5es. \u00c9 o r\u00f3tulo de \u201cpol\u00edtico\u201d que veda a entrada da poesia de Jos\u00e9 Afonso no campo da literatura reconhecida. Gostaria de deixar bem claro que, em minha opini\u00e3o, \u201cpol\u00edtico\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas um r\u00f3tulo, mas uma realidade; s\u00f3 que n\u00e3o pode p\u00f4r em causa outra realidade, a \u201cest\u00e9tica\u201d. Esse veredicto, ali\u00e1s, tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o e peca por cegueira e erros de l\u00f3gica. \u00c9 mais um gesto de \u201cvade retro\u201d do que um julgamento baseado em crit\u00e9rios cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, vejamos: no caso da l\u00edrica de Jos\u00e9 Afonso, a qualidade de \u201cpol\u00edtico\u201d nem sequer \u00e9 sempre intr\u00ednseca ao texto, mas muitas vezes \u00e9 devida \u00e0s circunst\u00e2ncias em que o texto surgiu e em que depois chegou ao p\u00fablico (ouvinte). S\u00e3o disso exemplo \u201cGr\u00e2ndola, vila morena\u201d, mas tamb\u00e9m os cerca de vinte poemas que nasceram na pris\u00e3o de Caxias e de que h\u00e1 pouco tempo s\u00f3 conhec\u00edamos como can\u00e7\u00f5es criadas pelo pr\u00f3prio Zeca \u201cEra um redondo voc\u00e1bulo\u201d (do disco Venham mais cinco, de 1973) e \u201cDe sal de linguagem feita\u201d (de Fura fura, editado em 1978). Surgiu agora um in\u00e9dito, que Jo\u00e3o Afonso interpreta no seu mais recente \u00e1lbum Outra vida (2006). Trata-se do texto \u201cAo Z\u00e9 Letria que tamb\u00e9m sofre de azia\u201d, escrito em Caxias a 11 de Maio de 1973, e intitulado agora \u201cBombons de todos os dias\u201d.<\/p>\n<p>O hermetismo inerente a todos esses poemas \u00e9 a consequ\u00eancia do isolamento f\u00edsico e ps\u00edquico de que Jos\u00e9 Afonso foi alvo na pris\u00e3o, mas tamb\u00e9m da necessidade de cifrar a mensagem.<\/p>\n<p>A suposta contradi\u00e7\u00e3o entre valores po\u00e9ticos e pol\u00edticos que a cr\u00edtica liter\u00e1ria acad\u00e9mica tantas vezes invoca, encontra o seu reflexo em abordagens isoladas do poema pol\u00edtico sem fazer a liga\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica entre eles, ou seja, a interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica s\u00f3 analisa a forma art\u00edstica, enquanto a abordagem ideol\u00f3gica s\u00f3 avalia o conte\u00fado. Mas \u00e9 paradoxalmente por causa do seu valor \u201cideol\u00f3gico\u201d no sentido mais lato do termo que o valor art\u00edstico do poema pol\u00edtico nem sequer \u00e9 tomado em conta.<\/p>\n<p>E que fazer dos in\u00fameros poemas de Jos\u00e9 Afonso que n\u00e3o foram musicados e\/ou que n\u00e3o s\u00e3o pol\u00edticos? Que fazer de facetas do poeta e homem que admirava os textos de Santa Teresa D\u2019 \u00c1vila e de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz? Ou que prop\u00f4s ao Padre M\u00e1rio fazer um LP inspirado no seu livro Maria de Nazar\u00e9 com o argumento de que \u201caquela Maria de Nazar\u00e9 que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de m\u00e3os vazias os ricos e enche de bens os esfomeados \u00e9 uma mulher revolucion\u00e1ria\u201d? (jornal fraternizar N\u00ba 161, Abril\/ Junho 2006. Padre M\u00e1rio no Caf\u00e9 Concerto, \u201cE quanto ao poder que v\u00e1 para a puta que o pariu!\u201d)<\/p>\n<p>O que distingue os textos pol\u00edticos de Jos\u00e9 Afonso do chav\u00e3o e os torna poesia n\u00e3o \u00e9 diferente da qualidade que torna poesia os seus textos n\u00e3o-pol\u00edticos. O chav\u00e3o \u00e9 sempre redu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o chap\u00e9u que cobre as particularidades. Mas a literatura nasce sempre do particular, do subjectivo, para poder ser lida como universal. A t\u00edtulo de exemplo gostaria de pegar em dois poemas, \u201cIn\u00fateis eram as vozes\u201d, texto n\u00e3o musicado e escrito em Caxias, e \u201cBenditos\u201d, musicado e parte do disco Galinhas do mato.<\/p>\n<p><\/em><em><strong>In\u00fateis eram as vozes e as palavras<br \/>O cativeiro preso dos sentidos<br \/>Abre-se uma comporta e nada altera<br \/>A mat\u00e9ria dura de que \u00e9 feita a vida<br \/>Ferros peda\u00e7os brancura nunca vista<br \/>E um rio que n\u00e3o p\u00e1ra nem descansa<br \/>Que perfeita modorra n\u00e3o se esconde<br \/>Nesta vasa indecisa e aos ouvidos<br \/>Chegam silvos cantantes gargalhadas<br \/>E tudo d\u00f3i como se fora treva<br \/>Como se fora vinho esta n\u00e9voa<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo se n\u00e3o soub\u00e9ssemos onde e em que circunst\u00e2ncias nasceu este poema, perceb\u00edamos que o texto assenta no contraste entre um fora e um dentro, entre um mundo em movimento povoado de sons de barcos e pessoas, onde o tempo passa normalmente, e a clausura de um indiv\u00edduo separado desse mundo. Isolamento e dor caracterizam a sua situa\u00e7\u00e3o, a inutilidade e, provavelmente, a impossibilidade de comunica\u00e7\u00e3o. Os muros da pris\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o nomeados. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso, eles est\u00e3o l\u00e1, no texto. O poema poderia n\u00e3o tratar da pris\u00e3o de Caxias, mas sempre tratar\u00e1 da experi\u00eancia extrema do cativeiro. O elo entre estes dois mundos separados s\u00e3o as imagens do \u201ccativeiro represo dos sentidos\u201d e da comporta que se abre, \u00e9 um elo meramente imagin\u00e1rio porque \u201ca mat\u00e9ria dura de que \u00e9 feita a vida\u201d fica inalterada. Este poema, por partir de uma situa\u00e7\u00e3o pessoal de limite e ao mesmo tempo encontrar meios liter\u00e1rios adequados para transportar a sua mensagem, consegue n\u00e3o s\u00f3 exprimir, de uma maneira universal, o sofrimento do indiv\u00edduo preso, mas transforma-se ao mesmo tempo numa acusa\u00e7\u00e3o. A mais-valia do texto reside, a meu ver, exactamente no facto de essa acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser directamente expressa por palavras.<\/p>\n<p>Por fim, e no fim da minha (espero) breve interven\u00e7\u00e3o, convido-os a olhar um pouco mais de perto o poema \u201cBenditos\u201d.<\/p>\n<p><\/em><em><strong>J\u00e1 fui neve no mar<br \/>J\u00e1 fui espada na m\u00e3o<br \/>J\u00e1 fui a corda<br \/>Da lira a vibrar<\/p>\n<p>J\u00e1 fui servo de um Deus<br \/>Vida e morte num momento<br \/>J\u00e1 nasci no barlavento<br \/>J\u00e1 fui como a erva do ch\u00e3o<\/p>\n<p>Bendito seja o p\u00e3o<br \/>Bendita seja a dor<br \/>Benditas as portas do amor<br \/>J\u00e1 fui favo de mel<br \/>Cajado de pastor<br \/>J\u00e1 fui a nuvem correndo no c\u00e9u<\/p>\n<p>J\u00e1 fui ceptro de um rei<br \/>Arco-\u00edris num instante<br \/>J\u00e1 fui vento do Levante<br \/>J\u00e1 fui andarilho e cantor<\/p>\n<p>Bendita seja a paz<br \/>Bendita sejas tu<br \/>Benditos os peixes do azul<br \/><\/strong><br \/>N\u00e3o h\u00e1, na literatura que conhe\u00e7o, um texto de despedida que mais me comova. E n\u00e3o \u00e9 por ter conhecido pessoalmente Jos\u00e9 Afonso.<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 duas formas de verbo ao longo do poema: o passado que nomeia tudo o que o \u201ceu\u201d j\u00e1 foi \u201cem vida\u201d e o conjuntivo que projecta o desejo da b\u00ean\u00e7\u00e3o num futuro que j\u00e1 n\u00e3o faz parte do texto (e do tempo do \u201ceu\u201d que fala). De entre aquilo que o \u201ceu\u201d j\u00e1 foi, aparecem fen\u00f3menos da natureza, como \u201ca neve no mar\u201d; instrumentos como a \u201cespada na m\u00e3o\u201d; aparece a caracteriza\u00e7\u00e3o como \u201cservo de um Deus\u201d e \u201candarilho e cantor\u201d; momentos existenciais como vida\/nascimento e morte. \u00c9 um invent\u00e1rio de identidades de quem parte e se quer reassegurar daquilo que j\u00e1 foi.<\/p>\n<p>E a partir dessa (s) identidade (s) que nitidamente destroem as fronteiras entre o que \u00e9 considerado humano e n\u00e3o-humano, \u00e9 proferida a b\u00ean\u00e7\u00e3o a todos os aspectos pretensamente simples da vida como o p\u00e3o e a paz, a beleza e o amor, em suma, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas onde fica quem aben\u00e7oa? N\u00e3o h\u00e1 presente no poema, a n\u00e3o ser o acto de fala de quem se lembra daquilo que foi e que deixa um legado. \u00c9 um legado de uma pessoa que j\u00e1 est\u00e1 a partir e que fez as pazes com todos os seus caminhos e desvios. Se olharmos de perto as enumera\u00e7\u00f5es que surgem no texto, vemos contradi\u00e7\u00f5es. Quem foi espada na m\u00e3o, n\u00e3o foi, ao mesmo tempo, favo de mel; quem foi cajado de pastor, n\u00e3o foi, ao mesmo tempo, andarilho e cantor. Mas quem foi tudo o que o texto diz, em momentos diferentes, sem renegar nada do seu passado, encontra-se no lugar certo.<\/p>\n<p>A despedida po\u00e9tica e a outra despedida de Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o se fizeram com amargura. Por sugest\u00e3o dele, o t\u00edtulo do \u00faltimo disco estava para ser \u201cNem o pai morre nem a gente almo\u00e7a\u201d. E \u00e9 espantoso que um dos tra\u00e7os mais marcantes da sua obra seja a for\u00e7a que d\u00e1 para viver. Deveria ouvir-se mais a sua m\u00fasica, ler mais os seus textos. Pode viciar, mas os efeitos secund\u00e1rios s\u00e3o ben\u00e9ficos.<\/p>\n<p><strong>Elfriede Engelmayer<\/strong><br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00facleo do Norte da Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso (AJA) na C\u00e2mara Municipal de Matosinhos As can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num ver\u00e3o long\u00ednquo, durante o qual frequentei um curso de l\u00edngua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. 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