{"id":7240,"date":"2006-05-18T11:59:00","date_gmt":"2006-05-18T11:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7240"},"modified":"2021-12-17T11:41:08","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:08","slug":"traz-outro-amigo-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/traz-outro-amigo-tambem\/","title":{"rendered":"Traz outro amigo tamb\u00e9m"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Quando foi publicado o \u00e1lbum \u201ctraz outro amigo tamb\u00e9m\u201d do Jos\u00e9 Afonso, nos finais dos anos sessenta, princ\u00edpios dos setenta, o meu grande amigo Nando, um dos tipos mais inteligentes e mais cultos que conhe\u00e7o (ent\u00e3o estudante na FEUP e actualmente no n\u00edvel abaixo de catedr\u00e1tico de Engenharia Civil e projectista de vias de comunica\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1rias), n\u00e3o resistiu a compr\u00e1-lo.N\u00e3o era propriamente um revolucion\u00e1rio, mas tudo o que considerava ter qualidade, agradava-lhe. Ainda hoje \u00e9 assim.Seu pai, arquitecto talentoso e amante dos livros e da m\u00fasica, tinha uma biblioteca e uma discoteca de discos cl\u00e1ssicos que davam gosto. Muitas vezes ouvi obras de grandes compositores na sua casa. Desapareceu da nossa companhia precocemente, quando ainda caminhava para o sucesso e reconhecimento p\u00fablico que merecia.Pois quando o Nando chegou, depois de ter adquirido o LP, encontrou na sala o pai com um amigo.Muito satisfeito, exibiu o disco como um trof\u00e9u e falou dele como de uma obra-prima.O professor, pois o pai tamb\u00e9m tinha essa actividade, perante tantas loas, n\u00e3o se conteve:- Mas quem \u00e9 esse tipo? Dizes que tamb\u00e9m \u00e9 poeta? Ora, poemas desses tamb\u00e9m eu fa\u00e7o. Ou ainda melhores \u2013 e lan\u00e7ou um olhar de gozo ao amigo, que concordou.- \u00d3 pai! Est\u00e1s a falar e n\u00e3o ouviste o disco. Portanto, est\u00e1s a falar do que n\u00e3o sabes.- J\u00e1 ouvi esse tipo a cantar na r\u00e1dio. N\u00e3o o queiras comparar aos que s\u00e3o verdadeiramente talentosos, como o Cam\u00f5es, por exemplo. Pode ter uma voz agrad\u00e1vel e algumas m\u00fasicas com boa sonoridade, mas\u2026- Olha, pai. Neste disco, est\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o cuja letra \u00e9 um poema de Cam\u00f5es e as outras s\u00e3o quasi todas feitas com poemas do Jos\u00e9 Afonso.E lan\u00e7ou o desafio:- Eu ponho o disco a tocar e tu, e o Sr. Eng. tamb\u00e9m, no fim dizem qual dos poemas \u00e9 do Cam\u00f5es. Reconhecem que o Cam\u00f5es \u00e9 um poeta fora de s\u00e9rie, n\u00e3o \u00e9 verdade?E esperou, com o ar mais s\u00e9rio do mundo a resposta ao repto que habilmente lan\u00e7ara.O arquitecto hesitou um pouco. Mas n\u00e3o tinha alternativa, e anuiu. O amigo tamb\u00e9m.E o Nando coloca o disco no prato do aparelho e senta-se.- Mas n\u00e3o digo os t\u00edtulos \u2013 sentenciou o meu colega.- Ah! As m\u00fasicas tamb\u00e9m s\u00e3o quasi todas da sua autoria \u2013 esclareceu.E v\u00e3o passando sucessivamente:\u201cTraz outro amigo tamb\u00e9m\u201d- Hum\u2026n\u00e3o me parece Cam\u00f5es. Podes eliminar.\u201cMaria Faia\u201d (uma can\u00e7\u00e3o popular da Beira \u2013 Baixa)- Esta n\u00e3o! Podes avan\u00e7ar!\u201cCanto Mo\u00e7o\u201d- Essa n\u00e3o elimines, para j\u00e1!\u201cEp\u00edgrafe para a arte de furtar\u201d (sobre um poema de Jorge de Sena)- Hum\u2026aguenta essa!\u201cModa do Entrudo\u201d- Isso n\u00e3o! Passa \u00e0 seguinte!\u201cOs eunucos\u201d- Essa tamb\u00e9m n\u00e3o! A seguinte!\u201cAvenida de Angola\u201d- Isso n\u00e3o \u00e9 Cam\u00f5es!\u201cCan\u00e7\u00e3o do desterro\u201d- Aguenta essa! Muitas alus\u00f5es ao mar!\u201cVerdes s\u00e3o os campos\u201d (a que tinha como texto um poema de Cam\u00f5es)- Essa tem laivos da l\u00edrica camoniana. \u00c9 capaz de ser essa!\u201cCarta a Miguel Dj\u00e9j\u00e9\u201d- Podes passar! Essa n\u00e3o \u00e9 de certeza!\u201cCantiga do monte\u201d- N\u00e3o \u00e9 m\u00e1! Mas podes eliminar!(todas aquelas em que n\u00e3o mencionei o autor tinham poemas do Zeca)- Ent\u00e3o pai? Ainda tens de optar por quatro.- P\u00f5e essas outra vez \u2013 ordena o arquitecto.E o Fernando l\u00e1 fez tocar as que n\u00e3o tinham sido eliminadas.Terminada a segunda sess\u00e3o, o pai ainda hesitava entre a realmente camoniana e o \u201cCanto Mo\u00e7o\u201d.- Bom! \u2013 disse \u2013 \u00e9 a dos campos verdes.- \u00c9, pai! Mas, afinal, n\u00e3o h\u00e1 assim uma diferen\u00e7a t\u00e3o grande entre o Jos\u00e9 Afonso e o Cam\u00f5es! \u2013 disparou o jovem com um sorriso mordaz.- Ora! E esse gajo era capaz de escrever os Lus\u00edadas ou compor a Nona?- Se calhar fazia melhor! \u2013 murmurou entre dentes o Nando.E agora v\u00e3o ouvir o disquinho, est\u00e1 bem?\u00c9 dos melhores do Zeca, na minha opini\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f3nio Castilho Dias<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>in<\/em> <a href=\"http:\/\/eusoulouco.blogspot.com\/2005\/05\/traz-outro-amigo-tambm.html\">http:\/\/eusoulouco.blogspot.com\/2005\/05\/traz-outro-amigo-tambm.html<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando foi publicado o \u00e1lbum \u201ctraz outro amigo tamb\u00e9m\u201d do Jos\u00e9 Afonso, nos finais dos anos sessenta, princ\u00edpios dos setenta, o meu grande amigo Nando, um dos tipos mais inteligentes e mais cultos que conhe\u00e7o (ent\u00e3o estudante na FEUP e actualmente no n\u00edvel abaixo de catedr\u00e1tico de Engenharia Civil e projectista de vias de comunica\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7240"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7240"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7240\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}