{"id":7220,"date":"2006-05-11T14:04:00","date_gmt":"2006-05-11T14:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7220"},"modified":"2021-12-17T11:41:08","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:08","slug":"zeca-75-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-75-anos\/","title":{"rendered":"Zeca, 75 Anos"},"content":{"rendered":"<p>Por NUNO PACHECO<br \/>Jornal P\u00fablico | 02 de Agosto de 2004 <\/p>\n<p>Aveiro, 2 de Agosto de 1929. Na freguesia da Gl\u00f3ria nascia um menino que teria o nome de Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Pai: Jos\u00e9 Nepomuceno Afonso, magistrado. M\u00e3e: Maria das Dores, professora prim\u00e1ria. N\u00e3o tardar\u00e3o a embarcar, os pais, para \u00c1frica. Ele ir\u00e1 depois. <\/p>\n<p>Aveiro, 2 de Agosto de 2004. Hoje. Junto \u00e0 Pra\u00e7a Fonte Nova, uma rua vai receber o nome do menino que foi para \u00c1frica e voltou, para aqui viver, cantar e morrer: Jos\u00e9 Afonso. H\u00e1 outras ruas ou pra\u00e7as com o nome dele, em terras que alguma vez o viram ou ouviram, na sua err\u00e2ncia pelo Portugal que amava, aquele que lhe permitia sentir de perto a vida das suas gentes. Agora haver\u00e1 mais uma, na cidade onde nasceu. \u00c0 noite, para que e lembran\u00e7a n\u00e3o se confine \u00e0 laje suspensa da topon\u00edmia, haver\u00e1 m\u00fasica de homenagem no Largo do Rossio (21h30). De entrada livre, como ele idealizava o universo, e com nomes pr\u00f3ximos: S\u00e9rgio Godinho, que com ele cantou, e V\u00edtor Almeida Silva que, de \u00f3culos de aros grossos, o imitou no antigo &#8220;Chuva de Estrelas&#8221;. <\/p>\n<p>Depois, o que vir\u00e1? De novo o sil\u00eancio? O que \u00e9 poss\u00edvel saber dele, para que o n\u00e3o esque\u00e7am? H\u00e1, dispon\u00edveis, al\u00e9m dos discos, v\u00e1rios livros e informa\u00e7\u00f5es dispersas que permitem conhecer melhor n\u00e3o s\u00f3 o m\u00fasico como tamb\u00e9m o homem (ver caixa). Para este ano, a juntar aos materiais dispon\u00edveis, prev\u00ea-se o lan\u00e7amento pela primeira vez em DVD (h\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o, em VHS) do Concerto no Coliseu dos Recreios de Lisboa, gravado a 29 de Janeiro de 1983 e difundido pela RTP com cr\u00edticas do pr\u00f3prio cantor pela forma como o programa foi, ent\u00e3o, montado e reduzido. Mesmo assim, ficou para a hist\u00f3ria como o \u00fanico registo videogr\u00e1fico dispon\u00edvel de um momento irrepet\u00edvel: sendo o primeiro concerto de Jos\u00e9 Afonso como m\u00fasico profissional foi tamb\u00e9m o \u00faltimo, porque a doen\u00e7a que o minava (uma esclerose lateral amiotr\u00f3pica) s\u00f3 lhe daria mais quatro anos de vida. Morreria em Set\u00fabal, a 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos. <\/p>\n<p>Uma noite hist\u00f3rica e outros registos <\/p>\n<p>Na noite do Coliseu, tensa e inesquec\u00edvel, h\u00e1 um momento em que a voz do cantor cede \u00e0 como\u00e7\u00e3o e denota um estrangulamento breve, numa passagem da &#8220;Balada do Outono&#8221; que, ali e naquelas circunst\u00e2ncias, soava j\u00e1 como epit\u00e1fio: &#8220;\u00c1guas das fontes calai \/ \u00d3 ribeiras chorai \/ Que eu n\u00e3o volto a cantar&#8221;. Muitos dos presentes n\u00e3o conseguiram esconder as l\u00e1grimas e ainda hoje, ao ouvir ao grava\u00e7\u00e3o do espect\u00e1culo, \u00e9 poss\u00edvel sentir esse momento como um arrepio. Com Jos\u00e9 Afonso, nesse palco onde o abra\u00e7o era j\u00e1 meia despedida, estavam, entre m\u00fasicos e cantores, Oct\u00e1vio S\u00e9rgio, Lopes Almeida, Durval Moreirinhas, Ant\u00f3nio S\u00e9rgio, Rui Pato, Francisco Fanhais, Fausto, J\u00falio Pereira, Janita Salom\u00e9, Serginho, Guilherme In\u00eas, Rui J\u00fanior e Rui Castro. <\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o do DVD, quase pronta, reunir\u00e1, segundo a editora que a preparou (a Costa do Castelo), mais uma hora de extras \u00e0 grava\u00e7\u00e3o do concerto tal como foi difundido pela RTP, tamb\u00e9m com 60 minutos (ter\u00e1 sido imposs\u00edvel uma remontagem, para amplia\u00e7\u00e3o, do material original). Ser\u00e3o sete extras, no total, todos dos arquivos da RTP: uma participa\u00e7\u00e3o do cantor no programa Lugar de Ex\u00edlio, em Maio de 1980, onde fala, da sua vida e carreira, e canta, acompanhando-se \u00e0 viola (a grava\u00e7\u00e3o \u00e9 a cores); uma esp\u00e9cie de teledisco gravado numa quinta de Azeit\u00e3o, 1981, com a can\u00e7\u00e3o &#8220;Saudades de Coimbra&#8221;; imagens do 25 de Abril com &#8220;Gr\u00e2ndola Vila Morena&#8221; em fundo; e v\u00e1rios registos a preto e branco, dele a cantar: &#8220;Os vampiros&#8221;; &#8220;Menino do bairro negro&#8221; na s\u00e9rie Coimbra Musical, em 1978; &#8220;Os fantoches de Kissinger&#8221;, na s\u00e9rie Pifelin, 1975; &#8220;Milho Verde&#8221;, num dueto com o cantor franc\u00eas Georges Moustaki, 1975; e um registo do I Encontro Livre da Can\u00e7\u00e3o Portuguesa, no Pal\u00e1cio de Cristal do Porto, logo a seguir ao 25 de Abril (na noite de a 3 de Maio de 1974), ele e outros cantores a entoarem juntos &#8220;Venham mais cinco&#8221;. <\/p>\n<p>Gr\u00e2ndola e o que se seguiu <\/p>\n<p>Para quem conhece mal ou n\u00e3o conhece sequer Jos\u00e9 Afonso, refira-se que dos tr\u00eas aos dez anos ele andou por Angola (1933-36), Aveiro (1936), Mo\u00e7ambique (1937), Belmonte (1938-39), devido a obriga\u00e7\u00f5es de carreira do pai. Em 1940 vai para Coimbra, onde casa pela primeira vez e onde fica at\u00e9 ser chamado ao servi\u00e7o militar, em 1953. Entretanto, come\u00e7a a cantar. Primeiro no liceu, depois na Universidade. Rui Pato, seu amigo, acompanha-o \u00e0 viola. Grava o primeiro 45 rota\u00e7\u00f5es, &#8220;Baladas de Coimbra&#8221;, em 1958 e, durante uma desloca\u00e7\u00e3o ao Algarve (\u00e9 ent\u00e3o professor) conhece aquela que vir\u00e1 a ser a sua futura mulher: Z\u00e9lia Santos. \u00c9 com ela que, em 1964, ruma de novo a \u00c1frica, com destino a Mo\u00e7ambique, uma viagem decisiva no cimentar da sua consci\u00eancia anti-colonial. No regresso, \u00e9 expulso do liceu e perseguido pelas suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Canta mais para sobreviver do que por op\u00e7\u00e3o de carreira, mas no entanto os seus discos come\u00e7am a ser bandeira de uma gera\u00e7\u00e3o que v\u00ea nele um dos seus mais l\u00facidos arautos. <\/p>\n<p>A escolha de &#8220;Gr\u00e2ndola Vila Morena&#8221; para senha do 25 de Abril de 1974 associa para sempre o seu nome \u00e0 hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o dos cravos. De 1966 at\u00e9 1985 gravou 15 \u00e1lbuns, todos j\u00e1 reeditados em CD (a esmagadora maioria pela Movieplay, que possui o cat\u00e1logo Orfeu, mas tamb\u00e9m pela EMI-VC e pela Strauss). O \u00faltimo, &#8220;Galinhas do Mato&#8221;, teve em 2002 uma edi\u00e7\u00e3o especial, pela MVM, com um document\u00e1rio v\u00eddeo extra, com v\u00e1rios depoimentos. A estes \u00e1lbuns juntaram-se nestes anos algumas colect\u00e2neas e tr\u00eas outros CD com grava\u00e7\u00f5es antigas: &#8220;Carlos Paredes\/Jos\u00e9 Afonso\/Luiz Goes&#8221;, da EMI, 1992 (que tem, por exemplo, o &#8220;Coro dos Ca\u00eddos&#8221; e &#8220;Can\u00e7\u00e3o do Mar&#8221;), &#8220;Os Vampiros&#8221; (uma edi\u00e7\u00e3o med\u00edocre da Edisco, de 1987) e &#8220;De Capa e Batina&#8221;, esta com libreto biogr\u00e1fico de 72 p\u00e1ginas e textos de Jos\u00e9 Niza (Movieplay, 1996). <\/p>\n<p>Para perpetuar a sua obra e mem\u00f3ria, como m\u00fasico, poeta, cantor e compositor, t\u00eam contribu\u00eddo a actividade da Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso, o pr\u00e9mio musical Jos\u00e9 Afonso atribu\u00eddo anualmente pela C\u00e2mara da Amadora e os discos (de homenagem ou reencontro) &#8220;Filhos da Madrugada&#8221; (1994) e &#8220;Maio Maduro Maio&#8221; (1995), onde se prop\u00f5em diferentes releituras de muitas das suas can\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>DISCOS OBRIGAT\u00d3RIOS<\/p>\n<p>Sem dispensar outros, h\u00e1 pelo menos cinco discos de Jos\u00e9 Afonso de audi\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, todos dispon\u00edveis em CD: \u201cBaladas e Can\u00e7\u00f5es\u201d (1967, com registos de 1964), \u201cTraz Outro Amigo Tamb\u00e9m\u201d (1970), \u201cCantigas do Maio\u201d (1971). \u201cVenham Mais Cinco\u201d (1973) e \u2018Como Se Fora Seu Filho\u201d (1983). Correspondendo a v\u00e1rias fases da sua evolu\u00e7\u00e3o criativa, s\u00e3o obras-primas.<\/p>\n<p>OBRAS BIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>A par de in\u00fameros artigos dispersos, h\u00e1 tr\u00eas livros de refer\u00eancia: Jos\u00e9 Afonso\u2014Andarilho, Poeta e Cantor\u201d, editado pela Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso (1994), \u201cJos\u00e9 Afonso, O Rosto da Utopia\u201d, de Jos\u00e9 A. Salvador (Terramar, 1994, 1999) e \u201cZeca Afonso, As Voltas de um Andarilho\u201d, de Viriato Telas (Ulmeiro, 1999).<\/p>\n<p>MEM\u00d3RIAS INTIMISTAS<\/p>\n<p>Aos ensaios juntam-se mem\u00f3rias de amigos ou familiares. \u00c9 o caso de \u201cJos\u00e9 Afonso, Um Olhar Fraterno\u201d, do irm\u00e3o mais velho do cantor, Jo\u00e3o Afonso dos Santos (Caminho, 2002) e de \u201cZeca Afonso Antes do Mito\u201d, de um amigo dos tempos de Coimbra, Ant\u00f3nio dos Santos Silva (Minerva, 2000). De Jos\u00e9 Jorge Letria, cantor nos anos -70, h\u00e1 tr\u00eas: \u201cJos\u00e9 Afonso: O Que Faz Falta\u201d, colect\u00e2nea de depoimentos co-organizada com Jos\u00e9 Fanha (Campo das Letras, 2804); \u201cZeca Afonso e a Malta das Cantigas\u201d, a hist\u00f3ria contada aos mais novos (Terramar, 2882); e \u201cCarta a Zeca Afonso\u201d, ep\u00edstola em forma de poema (Universit\u00e1ria Poesia, 1999).<\/p>\n<p>POESIA E CAN\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p>Livros com poemas e can\u00e7\u00f5es h\u00e1 tr\u00eas: uma reedi\u00e7\u00e3o actualizada de \u201cCantares\u201d, editado pela Nova Realidade em 1965 e reeditado pela Fora do Texto, Coimbra, 1992; o pequeno \u201cQuadras Populares\u201d, de 1982. reeditado pela Ulmeiro em 1990; e, por fim, o \u00fanico que re\u00fane a totalidade da sua poesia, \u201cTextos e Can\u00e7\u00f5es, editado pela Ass\u00edrio &amp; Alvim em 1983 e com \u00faltima edi\u00e7\u00e3o revista e aumentada por Elfriede Engelmayer datada de 2000. Este \u00faltimo \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>AN\u00c1LISE DA OBRA<\/p>\n<p>O livro mais relevante \u00e9 \u201cJos\u00e9 Afonso, Poeta\u201d, de Elfriede Engelmayer, estudiosa da obra de Jos\u00e9 Afonso (Ulmeiro, 1999). Mas \u00e9 tamb\u00e9m digno de nota o op\u00fasculo \u201cA M\u00fasica Tradicional na Obra de Jos\u00e9 Afonso\u201d, de M\u00e1rio Correia (C\u00e2mara da Amadora, 1999).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por NUNO PACHECOJornal P\u00fablico | 02 de Agosto de 2004 Aveiro, 2 de Agosto de 1929. Na freguesia da Gl\u00f3ria nascia um menino que teria o nome de Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Pai: Jos\u00e9 Nepomuceno Afonso, magistrado. M\u00e3e: Maria das Dores, professora prim\u00e1ria. N\u00e3o tardar\u00e3o a embarcar, os pais, para \u00c1frica. 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