{"id":7165,"date":"2006-04-30T15:26:00","date_gmt":"2006-04-30T15:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7165"},"modified":"2021-12-17T11:41:09","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:09","slug":"proibido-esquecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/proibido-esquecer\/","title":{"rendered":"Proibido esquecer!"},"content":{"rendered":"<p>Nesta enxurrada de &#8220;artristes&#8221; disfar\u00e7ados de &#8220;artistas&#8221;, agarremo-nos com toda a for\u00e7a ao M\u00e1rio, ao Zeca, ao Sena, ao Giacometti e a todos aqueles cujos tr\u00eas &#8220;f&#8221; eram outros: for\u00e7a, fraternidade e futuro. A falta que voc\u00eas fazem!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3834\/1014\/1600\/qqqq.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3834\/1014\/400\/qqqq.jpg\" style=\"cursor: hand; cursor: pointer; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3834\/1014\/1600\/aSDF.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3834\/1014\/400\/aSDF.jpg\" style=\"cursor: hand; cursor: pointer; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nas suas primeiras f\u00e9rias de Natal, ap\u00f3s ter ingressado no Col\u00e9gio Internato Pio XII, em Lisboa, e ter passado o primeiro semestre longe de casa, M\u00e1rio Viegas anunciou aos pais: &#8220;Matriculei-me no Conservat\u00f3rio&#8221;. Em meados dos anos 60, num pa\u00eds em plena guerra colonial e governado por uma ditadura j\u00e1 bolorenta, uma declara\u00e7\u00e3o destas poderia parecer bomb\u00e1stica. N\u00e3o foi o caso. Ant\u00f3nio M\u00e1rio Lopes Pereira Viegas, que na altura era ainda o Ant\u00f3nio, filho var\u00e3o de uma linhagem de farmac\u00eauticos do lado paterno, n\u00e3o ouviu nenhuma reprimenda. O pai disse-lhe que esta era uma decis\u00e3o dele. A m\u00e3e exclamou: &#8220;Eu ficaria admirada se n\u00e3o tivesses tomado esta decis\u00e3o&#8221;.<br \/>O teatro era o caminho mais que natural para quem, no seu di\u00e1rio, aos treze anos de idade, escrevia que o seu sonho era ser actor. Naquela noite de Natal, Ant\u00f3nio ainda ouviu da m\u00e3e: &#8220;Que fa\u00e7as o melhor&#8221;. As palavras revelaram-se quase prof\u00e9ticas. Raul Solnado &#8211; o \u00fanico que poderia ocupar, na hist\u00f3ria do teatro portugu\u00eas contempor\u00e2neo, o lugar do filho de Francisco e Mariana Viegas &#8211; sempre disse: &#8220;Ele \u00e9 o melhor actor da nossa gera\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>Esp\u00edrita por convic\u00e7\u00e3o, apesar da educa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, M\u00e1rio Viegas sempre acreditou nos des\u00edgnios da sua fam\u00edlia. No seu livro auto-photo-biogr\u00e1fico, com apenas duzentos exemplares editados, conta a hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia, tanto do lado do pai como da m\u00e3e. M\u00e1rio Viegas, que morreu h\u00e1 cinco anos, dizia ser a encarna\u00e7\u00e3o do seu trisav\u00f4 paterno, o famoso actor Francisco Leoni, fundador do Teatro da Trindade.<br \/>Do lado da m\u00e3e, a hist\u00f3ria \u00e9 mais comprida. O seu tio, Ant\u00f3nio Cardoso Lopes J\u00fanior, foi o fundador da famosa revista de banda desenhada &#8220;O Mosquito&#8221;, pioneira em Portugal. A sua m\u00e3e, Mariana, aos dezoito anos, foi convidada pelo irm\u00e3o para dirigir o suplemento feminino da revista, denominado &#8220;A Formiga&#8221;. Assinava como Tia Nita e chegava a dar aconselhamento \u00e0s muitas cartas de raparigas que chegavam \u00e0 redac\u00e7\u00e3o. Pela sua tenra idade, nunca se deu a conhecer.<br \/>Com esta tradi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia e um ambiente prop\u00edcio, era natural que M\u00e1rio Viegas j\u00e1 brincasse aos quatro anos de idade com os fantoches que a m\u00e3e lhe dera. N\u00e3o era crian\u00e7a para brincar de carrinhos e passava os dias a ler, fechado no quarto e a ensaiar as vozes das personagens que imaginava. Inventou o Teatro ABC, criava as personagens e desenhava os cartazes das pe\u00e7as de escrevia, espalhando-os pela casa. J\u00e1 aos dez anos de idade, n\u00e3o havia festa ou sarau em Santar\u00e9m que n\u00e3o fosse convidado para apresentar o seu teatro, sempre auxiliado pela sua irm\u00e3 mais velha, H\u00e9lia Viegas.<br \/>Nos seus 47 anos de vida, M\u00e1rio Viegas fundou v\u00e1rias companhias de teatro &#8211; entre elas a &#8220;sua&#8221; Companhia do Chiado -, contracenou com Maria do C\u00e9u Guerra, <em><strong>fez in\u00fameras sess\u00f5es p\u00fablicas com Zeca Afonso e outros cantores de resist\u00eancia,<\/strong><\/em> trabalhou com Carlos Avilez e encenou pe\u00e7as de v\u00e1rios autores, com especial \u00eanfase para a obra de Samuel Beckett. No cinema, encarnou &#8220;Kilas, o Mau da Fita&#8221; (um dos filmes portugueses mais vistos de sempre), trabalhou com Manoel de Oliveira e contracenou com Marcelo Mastroianni e Victoria Abril. Na televis\u00e3o, atingiu grande popularidade com o programa &#8220;Palavras Ditas, entre 1978 e 1982. Ao longo da sua vida, gravou catorze discos de poesia, onde declamou mais de 200 versos de Almada Negreiros, Alexandre O&#8217;Neill, Pablo Neruda, Ruy Belo, entre muitos outros.<br \/>Nos seus \u00faltimos anos de vida, M\u00e1rio Viegas n\u00e3o parou de surpreender. Autor de seus pr\u00f3prios textos, concebeu &#8220;Europa, N\u00e3o! Portugal Nunca!!&#8221;, um espect\u00e1culo em forma de confer\u00eancia de imprensa onde personifica um pseudocandidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Levou t\u00e3o a s\u00e9rio a sua preocupa\u00e7\u00e3o com o estado geral do Pa\u00eds, que participou nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 1995 como candidato independente pela UDP. Um ano antes, era galardoado por M\u00e1rio Soares, ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, com a Ordem do Infante D. Henrique.<br \/>Dois meses antes da sua morte, a 1 de Abril de 1996, M\u00e1rio Viegas entregou o seu esp\u00f3lio pessoal a sua sobrinha, com quem viveu os seus tr\u00eas \u00faltimos anos de vida. Ana Viegas \u00e9 a filha que o actor n\u00e3o teve, nas palavras de sua m\u00e3e. Pressentindo o fim da sua vida, ensinou \u00e0 sobrinha o que fazer com o material que acumulou, deixando instru\u00e7\u00f5es por escrito. Nos quadros que tanto gostava, escreveu por detr\u00e1s: &#8220;Este quadro custou tanto, se um dia venderem, n\u00e3o se deixem morder&#8221;, conta a m\u00e3e Mariana. Mesmo vivendo em Lisboa, M\u00e1rio Viegas vinha sempre aos fins-de-semana \u00e0 casa de fam\u00edlia, pois &#8220;tinha saudades do seu quarto de garoto&#8221;. <\/p>\n<p>&#8220;Nascemos e durante a vida estamos \u00e0 espera de uma coisa que nunca chegar\u00e1, que chega pouco&#8230; A vida sempre foi assim.&#8221;<\/p>\n<p>M\u00e1rio Viegas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta enxurrada de &#8220;artristes&#8221; disfar\u00e7ados de &#8220;artistas&#8221;, agarremo-nos com toda a for\u00e7a ao M\u00e1rio, ao Zeca, ao Sena, ao Giacometti e a todos aqueles cujos tr\u00eas &#8220;f&#8221; eram outros: for\u00e7a, fraternidade e futuro. A falta que voc\u00eas fazem! 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