{"id":6982,"date":"2006-03-30T07:37:00","date_gmt":"2006-03-30T07:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6982"},"modified":"2021-12-17T11:41:11","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:11","slug":"notas-de-jose-afonso-sobre-algumas-musicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/notas-de-jose-afonso-sobre-algumas-musicas\/","title":{"rendered":"Notas de Jos\u00e9 Afonso sobre algumas m\u00fasicas"},"content":{"rendered":"<p>Estas notas, inclu\u00eddas nas diversas edi\u00e7\u00f5es do livro &#8220;Cantares&#8221;, forma h\u00e1 pouco introduzidas na discografia no site da AJA. Aqui ficam mais uma vez.<\/p>\n<p>BALADA DO OUTONO &#8211; Mais propriamente Balada do rio. Dominada ainda pelo velho esp\u00edrito coimbr\u00e3o, \u00e9 o produto de um estado perp\u00e9tuo de enamoramento ou como tal vivido, uma esp\u00e9cie de revivesc\u00eancia tardia da juventude. O trovador julga-se imprescind\u00edvel, como um protagonista que a si pr\u00f3prio se interpela para convocar a presen\u00e7a das \u00e1guas dos ribeiros e dos rios, testemunhas vivas do seu solit\u00e1rio cantar. A imagem do &#8220;Bas\u00f3fias&#8221; (Nome por que \u00e9 conhecido o Mondego na g\u00edria coimbr\u00e3), que incha e desincha quando lhe apetece, deve ter influ\u00eddo na gesta\u00e7\u00e3o da &#8220;partitura&#8221;. Uma certa disposi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica propensa \u00e0 melancolia explica o come\u00e7o das dores sem falar na albumina anunciadora de futuras e promissoras &#8220;partenog\u00e9neses&#8221;.<\/p>\n<p>PASTOR DE BENSAFRIM &#8211; Letra e m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso, sendo a letra vagamente inspirada nas \u00e9clogas de Bernardim &#8211; desde crian\u00e7as que mostramos uma propens\u00e3o natural para as rimas em imo Num desses retornos \u00e0 fase pr\u00e9-I\u00f3gica das origens, o autor destas linhas travou conhecimento com um pastor que lhe narrou as suas m\u00e1goas. Um pouco a martelo, o assundo da conhecida \u00e9cloga de Bemardim apareceu metamorfoseado num drama pastoril cujo nome &#8220;Bensafrim&#8221; os montes e as ervinhas repetem at\u00e9 aos mais humildes recantos da serra algarvia.<\/p>\n<p>MENINO DO BAIRRO NEGRO &#8211; Estiliza\u00e7\u00e3o decente de um refr\u00e3o indecente recolhido numa parede cheia de sinais cabal\u00edsticos, desses que conservam para a posteridade as mais expressivas j\u00f3ias dos g\u00e9neros l\u00edricos nacionais. A negritude de que fala o poema existe nos est\u00f4magos diagnosticados por Josu\u00e9 de Castro no seu livro &#8220;Geopol\u00edtica da Fome&#8221;. Os meninos de ouro que habitavam os c\u00e9us antes do Dil\u00favio descem \u00e0 Terra e s\u00e3o condenados pelo tribunal de menores a viverem em habita\u00e7\u00f5es palafitas at\u00e9 ao dia do Ju\u00edzo Final representado por uma bola de cart\u00e3o que desce, desce at\u00e9 tocar nas montanhas.<\/p>\n<p>MINHA M\u00c3E &#8211; Letra e m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso. A uma m\u00e3e n\u00e3o canonizada por nenhuma data oficial nem institucionalizada por nenhuma nota oficiosa.<\/p>\n<p>TRAZ OUTRO AMIGO TAMB\u00c9M &#8211; Qualquer semelhan\u00e7a entre a ep\u00edgrafe sintetisadora da Amizade e &#8220;Uma Casa Portuguesa Com Certeza&#8221; \u00e9 com certeza pura coincid\u00eancia. O autor nunca se colocou, por falta de m\u00e9ritos pr\u00f3prios, no plano polem\u00edstico da hospitalidade lusitana, o que n\u00e3o o impede de abrir a porta a quem quer que venha por bem, exclu\u00eddos, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, os amigos das bibliotecas alheias.<\/p>\n<p>LES BALADINS &#8211; O per\u00edodo louren\u00e7o-marquino, canto do cisne de uma s\u00e9rie iniciada na &#8220;Companhia Nacional de Navega\u00e7\u00e3o&#8221; conheceu o aparecimento de &#8220;Les Baladins&#8221;, eventualmente roubado ao t\u00edtulo de um poema de Appolinaire para figurar no que foi depois um arremedo de &#8220;valsa musette&#8221; repenicada e saltitante.<\/p>\n<p>CORO DA PRIMAVERA &#8211; Consultem-se os coment\u00e1rios ao &#8220;Canto Jovem&#8221; do qual o &#8220;Coro da Primavera&#8221; \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o coral e orquestral. A composi\u00e7\u00e3o da letra resistiu a todas as tentativas de lubrifica\u00e7\u00e3o. O rufar dos t\u00edmbales e dos tambores interv\u00e9m gradualmente como simples apoio no in\u00edcio, contagiante e poderoso no final.<\/p>\n<p>PERSPECTIVE &#8211; Melodia interrompida em Pombal pela chegada de um DKW descapot\u00e1vel \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o da &#8220;Shell&#8221;. O resto dos preparos e dos alinhavos continuou a viagem at\u00e9 Lisboa em dois carros pesados do mesmo modelo.<\/p>\n<p>CAN\u00c7\u00c3O DO MAR &#8211; O tema evocado no cen\u00e1rio um tanto simplista do casinodaFigueiradaFoz vive de uma valoriza\u00e7\u00e3o puramente sonora que lhe \u00e9 dada pelo acompanhamento e pela repeti\u00e7\u00e3o cadenciada da palavra mar. A dificuldade consistiu em faz\u00eala passar ao plano abstracto como elemento omnipresente no esp\u00edrito do cantor fora do ambiente convencional para que foi criada.<\/p>\n<p>CAN\u00c7\u00c3O &#8211; Letra de Lu\u00eds de Cam\u00f5es (modificada). M\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso. A leitura cadenciada do in\u00edcio da &#8220;Can\u00e7\u00e3o IV&#8221; susicitou a presum\u00edvel adapta\u00e7\u00e3o musical requerida pela primeira estrofe, mas de imposs\u00edvel aplica\u00e7\u00e3o que garantissem um m\u00ednimo de unidade e sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>BALADA ALEIXO &#8211; Homenagem a Ant\u00f3nio Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loul\u00e9.<\/p>\n<p>LAGO DO BREU &#8211; Balada de inspira\u00e7\u00e3o Brassens, define simult\u00e2neamente um estado de esp\u00edrito e uma autobiografia, uma crise de consci\u00eancia (destrui\u00e7\u00e3o do sentimento de remorso) e um meio social (os prost\u00edbulos do &#8220;Terreiro da Erva&#8221; ou os seus suced\u00e2neos mais ou menos bem iluminados).<\/p>\n<p>TENHO BARCOS, TENHO REMOS &#8211; O barco aludido pertencia a uma pequena sociedade constitu\u00edda por Manuel Pit\u00e9, Ant\u00f3nio Barahona, Ant\u00f3nio Bronze &amp; Jos\u00e9 Afonso. Situa\u00e7\u00f5es vividas pelos quatro, em comunidade perfeita com o mar algarvio, agruparam-se numa esp\u00e9cie de ciclo fraterno representativo de uma das fases mais felizes da vida do autor.<\/p>\n<p>SENHOR POETA &#8211; Complemento noct\u00edvago de &#8220;Tenho barcos&#8230;&#8221; Os dois versos Soltam-se as velas \/ Vamos largar foram intercalados na estrofe com o consentimento de Barahona a fim de ajustarem o conjunto \u00e0s necessidades da composi\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>ALTOS CASTELOS &#8211; Para ser executada \u00e0 viola por Rui Pato, obedecia mais \u00e0s exig\u00eancias duma instrumenta\u00e7\u00e3o de tipo cl\u00e1ssico ao gosto dos tocadores de ala\u00fade do s\u00e9culo XVI. Limitei-me depois a reajustar uma letra, ou melhor, um conjunto de sons que n\u00e3o ultrapassasse na divis\u00e3o sil\u00e1bica a divis\u00e3o musical. A ingenuidade de certas can\u00e7\u00f5es de roda e a gratuidade de alguns poemas surrealistas (lembrei-me duma can\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Barahona) indicaram-me o sentido do conjunto apropriado ao canto.<\/p>\n<p>POMBAS &#8211; Pretendia-se que a melopeia, feita de reitera\u00e7\u00f5es e alongamentos em que a voz mant\u00e9m as s\u00edlabas finais at\u00e9 se extinguir lentamente, correspondesse a um fundo independente do contexto liter\u00e1rio e vice-versa. O poema, a melodia e o acompanhamento separam-se e re\u00fanem-se de novo, repelidos por uma esp\u00e9cie de movimento ascencional sem princ\u00edpio nem fim. A voz eleva-se e tenta fixar por meio de modula\u00e7\u00f5es adequadas o voo dos p\u00e1ssaros que se perde na dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>CAN\u00c7\u00c3O VAI-E-VEM -O belo poema de Paulo Armando pareceume, como na realidade foi, inutilmente sacrificado aos compassos de uma valsa mon\u00f3tona e fria. Para finalizar exigia-se uma conclus\u00e3o airosa; o estribilho, meio aned\u00f3tico, foi colhido num livro de cancioneiro algarvio pertencente \u00e0 biblioteca da Capitania de faro. O verso Bonecas, primores, da minha lavra, substituiu o original Bonecos de palha. O resultado, um pouco cabotino, imp\u00f4s-se pela necessidade de sujeitar a letra ao primado da m\u00fasica.<\/p>\n<p>TECTO DO MENDIGO &#8211; Letra concebida em estado de pen\u00faria f\u00edsica e mental. O franciscanismo aparece no texto musicado como uma doutrina de compensa\u00e7\u00e3o sem qualquer rela\u00e7\u00e3o directa com a camisa lavada do autor.<\/p>\n<p>BALADA DO SINO &#8211; Resultou duma acompanhamento \u00e0 viola para outra can\u00e7\u00e3o inacabada. A letra e a melodia retomam o gosto antigo ainda n\u00e3o de todo extinto das barcarolas infantis que falavam de barcos e barqueiros. Numa praceta do Alto Ma\u00e9, \u00e0 hora da sesta, as crian\u00e7as brincavam: Que linda barquinha \/ Que l\u00e1 vem, l\u00e1 vem&#8230;<\/p>\n<p>CANTAR ALENTEJANO &#8211; A mulher a quem \u00e9 dedicada esta tentativa de A B C \u00e9 uma hero\u00edna popular bem conhecida no Alentejo onde h\u00e1 anos se deu o facto a que o autor faz discreta mas comovida refer\u00eancia. Numa vers\u00e3o primitiva o tenente dirigese \u00e0 ceifeira e diz-lhe: Quando eu te furar a pan\u00e7a \/ Muda a dan\u00e7a \/ P&#8217;ra voc\u00eas. Para al\u00e9m do epis\u00f3dio, Catarina vive na mem\u00f3ria dos homens e da pr\u00f3pria terra que a viu nascer e morrer. Os versos foram modificados por car\u00eancia de elementos biogr\u00e1ficos mas as ceifeiras continuam a p\u00f4r flores na campa de Catarina.<\/p>\n<p>SANTA MARIA A SEM-PAR &#8211; Este nome um tanto anacr\u00f3nico \u00e9 o t\u00edtulo de uma pequena toada dedicada a Z\u00e9lia e depois adaptada a um texto comercializado para ser proposto a um concurso. Os elementos figurativos, excluindo o conhecido s\u00edmbolo da chamin\u00e9 algarvia, foram introduzidos na can\u00e7\u00e3o a t\u00edtulo coercitivo, de acordo com as normas determinadas pelo j\u00fari, que a eliminou na primeira volta.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O conhecimento da Z\u00e9lia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a \u00e1gua fresca e com os tons maiores. Passei a fazer can\u00e7\u00f5es maiores.<\/p>\n<p>CAVALEIRO E O ANJO &#8211; Nasceu a bordo do &#8220;Angola&#8221;, num estado de esp\u00edrito que exclu\u00eda qualquer veleidade criadora. O personagem aparece de relance, indeciso entre ficar na hospedaria e partir a coberto da noite mas em seguran\u00e7a. O mais dif\u00edcil \u00e9 ficar. \u00c9 no interior da hospedaria, guardada \u00e0 vista pelos &#8220;Botas Cardadas&#8221;, que o espectro decide permanecer e readquirir as suas humanas e verdadeiras dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>CAN\u00c7\u00c3O DO DESTERRO (EMIGRANTES) &#8211; Sugerida em Louren\u00e7o Marques, pela leitura dum artigo da Seara Nova sobre as causas da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa. Tenta-se evocar a odisseia dos for\u00e7ados actuais, partindo em modernas naus catrinetas, como os Mendes Pintos de outras \u00e9pocas, a caminho dum destino que na Hist\u00f3ria se repete como um dobre de finados.<\/p>\n<p>CAN\u00c7\u00c3O DE EMBALAR &#8211; Louren\u00e7o Marques 1965. Toada medievalesca em tom menor. Letra e m\u00fasica ocorreram quase simult\u00e2neamente. A estrela d&#8217;alva surge acima do horizonte para os lados de Xiparnanime com a cumplicidade das restantes. Quando os adultos dormem e as luzes se apagam nas janelas os meninos levantam-se e v\u00e3o cumprimentar as estrelas.<\/p>\n<p>CANTO JOVEM &#8211; Para ser cantado pelos estudantes universit\u00e1rios que o autor conheceu numa digress\u00e3o para que foi convidado. Destina-se a ser interpretado como m\u00fasica coral por duzentos figurantes de ambos os sexos e de todas as proveni\u00eancias e condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>POR AQUELE CAMINHO &#8211; Louren\u00e7o Marques 1965. Versos destinados \u00e0 p\u00e1gina liter\u00e1ria de &#8220;Voz de Mo\u00e7ambique&#8221;. A m\u00fasica peca por manifesta aus\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito dos ritmos e dos temas africanos.<\/p>\n<p>ELEGIA &#8211; O Lu\u00eds de Andrade toca todas as teclas. A m\u00fasica e a letra afiguram-se-me excepcionalmente consorciadas. Pertencem a um tipo de report\u00f3rio que inclui tamb\u00e9m as &#8220;Pombas&#8221;. A interpreta\u00e7\u00e3o procurou seguir \u00e0 risca a orienta\u00e7\u00e3o desejada pelo autor.<\/p>\n<p>NATAL DOS MENDIGOS &#8211; Inspirada em parte em &#8220;Los Quatro Generales&#8221; e outras can\u00e7\u00f5es populares espanholas. Os acompanhamentos apropriados deveriam incluir ru\u00eddos produzidos por guisos, pedras e matracas. Na regi\u00e3o de Alpedrinha e nos ambientes da Beira-Serra, l\u00e1 para os lados de Folgosinho, os mendigos acercam-se dos portais dos grandes senhores para cantar as janeiras e encher os alforges de p\u00e3o e castanhas.<\/p>\n<p>RONDA DOS PAISANOS &#8211; A m\u00fasica ocorreu-me no WC do r\u00e1pido Faro-Lisboa, depois da esta\u00e7\u00e3o da Funcheira. Lembrei-me de algumas, semelhantes na forma e diferentes no seu conte\u00fado picaresco: D. Miquelina tinha uma sobrinha, Conheci uma francesa, \u00d3 moleiro guarda a filha (esta \u00faltima, minhota), cantadas em coro nos grandes festins coimbr\u00f5es. Em Lisboa inteirei-me dos postos do ex\u00e9rcito, que s\u00e3o muitos e soantes. Rimados \u00e0s parelhas dariam uma can\u00e7\u00e3o popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.<\/p>\n<p>CORO DOS CA\u00edDOS &#8211; Um antigo poema incompleto serviu de base \u00e0 m\u00fasica. O conjunto constituiria como que um complemento dos vampiros entretidos, ap\u00f3s a batalha, na recolha dos mais valiosos despojos.<\/p>\n<p>CAN\u00c7\u00c3O LONGE &#8211; Foi a primeira balada a ser composta no edif\u00edcio dos &#8220;Incas&#8221;, em Coimbra. Estavam presentes, entre outros, o V\u00edtor Lob\u00e3o, o Tom\u00e9 e o Cassiano. O Tom\u00e9 disse que era semelhante \u00e0 m\u00fasica de fundo do filme &#8220;Sans\u00e3o e Dalila&#8221;. Por isso, nunca a levei muito a s\u00e9rio, embora me tivesse agradado.<\/p>\n<p>NA FONTE EST\u00c1 LIANOR &#8211; O arcaismo repetitivo da melodia coadunava-se, a meu ver, com o esp\u00edrito de uma redondilha do cancioneiro de Garcia de Resende, mas a m\u00e9trica depurada da &#8220;medida nova&#8221; raramente se adaptava \u00e0 chateza vagamente afadistada da composi\u00e7\u00e3o. &#8220;Cantiga partindo-se&#8221; e a redondilha dentro da m\u00fasica n\u00e3o seriam uma ofensa \u00e0 l\u00edrica camoniana mas uma pequena e despretensiosa homenagem prestada, a s\u00e9culos de dist\u00e2ncia, ao g\u00e9nio do seu autor.<\/p>\n<p>VAMPIROS &#8211; Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composi\u00e7\u00f5es radiof\u00f3nicas e no nosso musichaIl de exporta\u00e7\u00e3o. Se lhe d\u00e9ssemos uma certa dignidade e lhe atribu\u00edssemos, pela urg\u00eancia dos temas tratados, um m\u00ednimo de valor educativo, conseguir\u00edamos talvez fabricar um novo tipo de can\u00e7\u00e3o cuja actualidade poderia repercutir-se no esp\u00edrito narcotizado do p\u00fablico, molestando-lhe a consci\u00eancia adormecida em vez de o distrair. Foi essa a inten\u00e7\u00e3o que orientou a g\u00e9nese de &#8220;Vampiros&#8221;, entidades destinadas ao desempenho duma fun\u00e7\u00e3o essencialmente laxante ao contr\u00e1rio do que poder\u00e1 supor o ouvinte menos atento. A fauna hipernutrida de alguns parasitas do sangue alheio serviu de bode espiat\u00f3rio. Descarreguei a bilis e fiz uma can\u00e7\u00e3o para servir de pasto \u00e0s aranhas e \u00e0s moscas. Casualmente acabou-se-me o dinheiro e fiquei em Pombal com um amigo chamado Pit\u00e9. A noite apanhou-nos desprevenidos e enregelados num pinhal que me lembrou o do rei e outros ambientes brr herdados do Velho Testamento.<\/p>\n<p>TROVAS ANTIGAS &#8211; Dedicadas ao doutor V\u00edtor Pereira. Correspondem \u00e0 mesma \u00e9poca em que surgem &#8220;Ronda dos Paisanos&#8221; e &#8220;Altos Castelos&#8221;. Do contacto superficial com o folclore romeno, muito semelhante na forma a certas can\u00e7\u00f5es raianas, prov\u00eam as origens subconscientes destas trovas. A escolha um pouco arbitr\u00e1ria das quadras e os solos introduzidos antes de cada quadra pela viola de Rui Pato deram ao conjunto uma fei\u00e7\u00e3o mais ligeira, mas talvez mais genu\u00edna.<\/p>\n<p>\u00d3 CAVADOR DO ALENTEJO &#8211; Feita no Algarve a pensar no Alentejo. A letra foi modificada em \u00c1frica, depois de um ef\u00e9mero mas profundo contacto com uns amigos da &#8220;Sociedade Musical Fratemidade Oper\u00e1ria Grandolense&#8221;, aos quais muito deve o autor.<\/p>\n<p>\u00d3 VILA DE OLH\u00c3O &#8211; Fiz muitas viagens a Olh\u00e3o, minha terra adoptiva. A meio do caminho da Fuzeta, entre Olh\u00e3o e Marim, a vila vai-se adelga\u00e7ando, a viagem toma-se mais r\u00e1pida e ruidosa, devido ao vento que entra pelas janelas. Pode-se berrar sem que ningu\u00e9m nos ou\u00e7a. Foi assim que nasceu esta cr\u00f3nica rimada. Servida pela cad\u00eancia mec\u00e2nica do &#8220;pouca terra&#8221;, versa um tema alusivo \u00e0s vicissitudes por que passa o mexilh\u00e3o quando o mar bate na rocha. A culpa n\u00e3o \u00e9 do mar.<\/p>\n<p>\u00d3 ALTAS FRAGAS DA SERRA &#8211; Letra e m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso, glosando a primeira quadra de origem popular.<\/p>\n<p>MENINO D&#8217;OIRO &#8211; Letra e m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso. O tema parece filiar-se em long\u00ednquas ra\u00edzes peninsulares. Tratado pelas mais diversas formas mas conservando a sua origem popular, surge como motivo inspirador dum conhecido fado de Coimbra.<\/p>\n<p>GR\u00c2NDOLA, VILA MORENA &#8211; Pequena homenagem \u00e0 &#8220;Sociedade Musical Fratemidade Oper\u00e1ria Grandolense&#8221;, onde actuei juntamente com Carlos Paredes.<\/p>\n<p>AVENIDA DE ANGOLA &#8211; Adapta\u00e7\u00e3o dum antigo poema.<\/p>\n<p>VEJAM BEM &#8211; M\u00fasica do filme &#8220;O An\u00fancio&#8221;, a apresentar no Festival de Cinema Amador pelo Cineclube da Beira. O filme foi projectado em sess\u00e3o privada, ainda incompleto e sem di\u00e1logos. Um homem procura emprego num escrit\u00f3rio, dirigese ao gerente de uma firma conceituada, a capatazes e mestresde-obra. Em v\u00e3o! Privado de fundos, v\u00ea-se obrigado a dormir ao relento e a roubar para comer. Na retrete de um restaurante, \u00fanico lugar onde n\u00e3o \u00e9 visto, devora apressadamente dois ovos que metera ao bolso, aproveitando-se da algazarra geral. \u00c9 \u00e0 luz deste contexto dram\u00e1tico que poder\u00e3o entender-se a linha mel\u00f3dica e o texto rimado apensos \u00e0s sequ\u00eancias julgadas mais expressivas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estas notas, inclu\u00eddas nas diversas edi\u00e7\u00f5es do livro &#8220;Cantares&#8221;, forma h\u00e1 pouco introduzidas na discografia no site da AJA. Aqui ficam mais uma vez. BALADA DO OUTONO &#8211; Mais propriamente Balada do rio. 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