{"id":6957,"date":"2006-03-12T16:16:00","date_gmt":"2006-03-12T16:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6957"},"modified":"2022-06-18T12:23:19","modified_gmt":"2022-06-18T12:23:19","slug":"a-musica-de-jose-afonso-esta-por-estudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/a-musica-de-jose-afonso-esta-por-estudar\/","title":{"rendered":"A m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso est\u00e1 por estudar"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Publicado em 1990 na revista n\u00ba6 da AJA, este artigo de Rui Eduardo Paes, reveste-se de uma enorme import\u00e2ncia por duas raz\u00f5es. Primeira: desde ent\u00e3o quase nada foi feito em termos de resposta a este texto\/apelo, exceptuando a obra de Elfriede Engelmeyer &#8220;Jos\u00e9 Afonso, poeta&#8221;. Segunda: vai ao encontro da frase proferida por Al\u00edpio de Freitas &#8220;Jos\u00e9 Afonso \u00e9 o nosso Bach&#8221;, na homenagem de Guimar\u00e3es do m\u00eas passado, a qual, descontextualizada, suscitou algumas reac\u00e7\u00f5es precipitadas, j\u00e1 que no contexto do seu discurso, Al\u00edpio de Freitas, simplesmente quis dizer o mesmo que Rui Paes disse h\u00e1 mais de 15 anos atr\u00e1s, ou seja, que chegou a hora da obra de Jos\u00e9 Afonso ser estudada. Como diz Rui Mota: <em>&#8220;N\u00e3o sei se \u00e9 o &#8220;nosso&#8221; Bach, mas deve ser estudado como tal. Porque n\u00e3o promover um col\u00f3quio s\u00e9rio sobre a obra po\u00e9tico-musical do Zeca, convidando especialistas da mat\u00e9ria. H\u00e1-os em Portugal e no estrangeiro e uma simples pesquisa permitir\u00e1 descobrir onde eles\/elas se encontram&#8230;<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal;\"><em>Esta \u00e9 uma boa altura para faz\u00ea-lo: 20 anos passados sobre a morte do Zeca e a cria\u00e7\u00e3o da AJA.&#8221;<\/em><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Aqui fica o texto, aqui fica o apelo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: italic;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>Se o leitor destas breves linhas se der ao trabalho de averiguar o que j\u00e1 foi escrito a prop\u00f3sito da m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso, e falo especificamente da m\u00fasica, n\u00e3o dos poemas ou da sua milit\u00e2ncia, verificar\u00e1 que muito pouco ou mesmo nada ficou registado em letra de imprensa. \u00c9 um trabalho, pois, que est\u00e1 por fazer.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>E no entanto parecia \u00f3bvio a aliciante da tarefa para os music\u00f3logos ou jornalistas especializados que poderiam, juntamente com os cantautores que privaram com o criador de Gr\u00e2ndola Vila Morena, ir ao fundo das suas motivac\u00f5es m\u00fasicais. N\u00e3o pretende ainda esta prosa colmatar tal aus\u00eancia de reflex\u00f5es retrospectivas, coma adiante se ver\u00e1, mas t\u00e3o s\u00f3 Ian\u00e7ar o repto necess\u00e1rio a quem esteja mais preparado.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>Tenha-se em considera\u00e7\u00e3o, antes do mais, que a m\u00fasica popular portuguesa n\u00e3o \u00e9 \u00e1rea em que eu habitualmente me movo, mas sem d\u00favida nenhuma que a m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso entronca com os valores e os procedimentos que me cativam e vem sendo objecto de uma intervenc\u00e3o jornal\u00edstica e cr\u00edtica minha j\u00e1 de anos. 0 que dele sei permite-me considerar que n\u00e3o the tem sido feita uma justi\u00e7a proporcional ao seu exemplo \u2013 \u00e9 demasiado habitual vermos quem use a figura do Zeca Afonso para defender estranhos conceitos de nacionalismo e isolacionismo m\u00fasical, ao encontro de uma portugalidade que \u00e9 na verdade muito menos pura do que se pretende fazer crer. Bastaria ter um m\u00ednimo de conhecimentos hist\u00f3ricos para perceb\u00ea-lo, se a ideologia n\u00e3o fosse mais poderosa do que a simples factologia.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>Passemos ao lado de maiores considera\u00e7\u00f5es a prop\u00f3sito desta esquerda com contornos ideol\u00f3gicos nacionalistas e contra-natura, para argumentar que Jos\u00e9 Afonso \u00e9 o primeiro e o maior dos compositores e int\u00e9rpretes da MPP a configurar uma m\u00fasica que \u00e9 o produto de conflu\u00eancias de g\u00e9nero, geografia e hist\u00f3ria, ou seja, algo de fabricado e conceptualizado. Pode-se admitir que a introdu\u00e7\u00e3o de ritmos africanos \u00e9 complementar, nalgumas das suas canc\u00f5es, ao projecto de uma m\u00fasica de cariz portugu\u00eas que n\u00e3o aliene nenhum dos seus \u00e2ngulos e nenhuma das consequ\u00eancias presenciais do portugu\u00eas no mundo, partindo do razo\u00e1vel princ\u00edpio de que toda a cultura, incluindo a m\u00fasical, se alimenta das suas exterioridades, das suas margens. Quando Jos\u00e9 Afonso tocava e cantava segundo uma tipologia africana era ainda de m\u00fasica portuguesa que se tratava, portanto.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>Mas \u00e9 precisamente neste ponto que reside o cerce da quest\u00e3o. Toda a m\u00fasica que disp\u00f5e de uma identidade, distinguindo-se por ela e a partir dela, \u00e9 tamb\u00e9m uma m\u00fasica que se d\u00e2 ao mundo. Ou para ir ainda urn pouco mais longe: a m\u00fasica portuguesa do Zeca vale enquanto m\u00fasica do mundo, e se \u00e9 portuguesa porque \u00e9 uma m\u00fasica do mundo, porque resultou de um determinado percurso hist\u00f3rico e humano, porque transformou as geografias (Europa, Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, \u00c1frica, no caso) mediante a sua transversalidade cultural e f\u00edsica, porque interiorizou as express\u00f5es musicais que a rodeavam, lhe deram enquadramento e raz\u00e3o de ser.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>Jos\u00e9 Afonso talvez tenha sido o mais feliz cantor do chamado fado de Coimbra, e se esta \u00e9 uma opini\u00e3o pessoal, n\u00e3o fica dif\u00edcil confirm\u00e1-la. O fado de Coimbra, como se sabe, \u00e9 uma m\u00fasica de raiz, tem uma autenticidade pr\u00f3pria, mas conv\u00e9m lembrar de que se trata, igualmente, de uma constru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de uma forma \u00abnatural\u00bb de m\u00fasica. Em cultura nada h\u00e1 que seja natural, tenha-se coma assente. Vamos pois ao resto. 0 Zeca fez um excelente trabalho de recolha da tradi\u00e7\u00e3o musical portuguesa, uma tradic\u00e3o que apresenta, diga-se para mais, uma boa diversifica\u00e7\u00e3o de modelos a origens e j\u00e1 por si comprova os cruzamentos que constituem isso que \u00e9 \u00abser portugu\u00eas\u00bb. Esses temas vestiu-os numa f\u00f3rmula da can\u00e7\u00e3o que, obviamente, n\u00e3o surgiu do nada. De onde vem ela, ent\u00e3o?<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>De tantas e tantas pr\u00e1ticas que conheceu de outros m\u00fasicos a cantores de similar empenhamento, entra catal\u00e3es a italianos, franceses e bascos, irlandeses e alem\u00e3es, entra cantores de intervenc\u00e3o de nacionalidades v\u00e1rias, entra escolas muito bem caracterizadas (a \u00abchanson fran\u00e7aise\u00bb, por exemplo), entra autores de m\u00fasica popular. Compositor original, sem d\u00favida, Jos\u00e9 Afonso pertence de qualquer modo a uma fam\u00edlia de caracter\u00edsticas claramente definidas, com pares \u00e0 altura na cena internacional. E porque nunca o Zeca pretendeu traduzir na sua m\u00fasica aquilo que Portugal era antes da Revoluc\u00e3o, isto \u00e9, um pa\u00eds fechado sobre si mesmo, ante a lonjura de um mar metaf\u00edsico e os montes junto da fronteira espanhola que serviam para esconder a emigrag\u00e3o, ele fez quest\u00e3o em \u00abproduzir\u00bb os seus discos com a distancia\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para o reconhecimento. Lembro-me do seu convite a um brasileiro para certo trabalho de produ\u00e7\u00e3o, um jovem chamado Phototi. Nessa altura n\u00e3o clamaram as salazaristas de esquerda.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal; font-weight: normal;\"><strong><em>Jos\u00e9 Afonso gostava dos blues, do jazz, e at\u00e9 alguma coisa do rock \u2013 menos, todavia \u2013 podemos encontrar nos seus \u00e1lbuns. Nos arranjos, mas mais estruturalmente na composi\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 evidente, e n\u00e3o oferece mat\u00e9ria para imprecis\u00f5es conjecturais. Ou julgariamos que n\u00e3o, mas afinal houve quem n\u00e3o escutasse o Zeca com atenc\u00e3o. \u00c9 pena, mas no meio de outros desmandos que sobre ele j\u00e1 se fizeram n\u00e3o \u00e9 para admirar. Corrija-se a tempo este legado: a m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso est\u00e1 por estudar.<\/em><\/strong><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Rui Eduardo Paes<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em 1990 na revista n\u00ba6 da AJA, este artigo de Rui Eduardo Paes, reveste-se de uma enorme import\u00e2ncia por duas raz\u00f5es. Primeira: desde ent\u00e3o quase nada foi feito em termos de resposta a este texto\/apelo, exceptuando a obra de Elfriede Engelmeyer &#8220;Jos\u00e9 Afonso, poeta&#8221;. 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