{"id":6933,"date":"2006-02-10T12:22:00","date_gmt":"2006-02-10T12:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6933"},"modified":"2022-06-18T11:41:27","modified_gmt":"2022-06-18T11:41:27","slug":"zeca-afonso-e-lobao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-afonso-e-lobao\/","title":{"rendered":"Zeca Afonso e Lob\u00e3o"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"6933\" class=\"elementor elementor-6933\" data-elementor-settings=\"[]\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-section-wrap\">\n\t\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-3aaed78b elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"3aaed78b\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-57a10803\" data-id=\"57a10803\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2aa753ee elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2aa753ee\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<style>\/*! elementor - v3.5.6 - 28-02-2022 *\/\n.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-stacked .elementor-drop-cap{background-color:#818a91;color:#fff}.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-framed .elementor-drop-cap{color:#818a91;border:3px solid;background-color:transparent}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap{margin-top:8px}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap-letter{width:1em;height:1em}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap{float:left;text-align:center;line-height:1;font-size:50px}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap-letter{display:inline-block}<\/style>\t\t\t\t<div style=\"text-align: justify;\">Quando li, e ouvi, o verso \u201co que \u00e9 preciso \u00e9 animar a malta\u201d, de uma composi\u00e7\u00e3o de Zeca Afonso, fiquei extasiada. E mais ainda ao ler, e ouvir, \u201c&#8230;Eles comem tudo\/ E n\u00e3o deixam nada.\/ No ch\u00e3o do medo\/ Tombam os vencidos&#8230;\u201d, de outra composi\u00e7\u00e3o do famoso m\u00fasico-poeta portugu\u00eas. E o \u201cch\u00e3o de medo\u201d fez-me lembrar Lob\u00e3o, o revolucion\u00e1rio m\u00fasico-poeta brasileiro, que comp\u00f4s \u201cPerdoa a f\u00faria do meu sonho\/ A viol\u00eancia me distrai\/ Pois a viol\u00eancia&#8230;\/ \u00c9 voc\u00ea!\u201d. Na din\u00e2mica dos dois compositores encontrei um ponto comum: a perpetua\u00e7\u00e3o do instante emocional, pol\u00edtico e\/ou amoroso, que revoluciona.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Embora a realidade dos dois seja bem diferente, une-os a batalha contra os colonialismos pol\u00edticos e burocr\u00e1ticos que dimensionam a M\u00fasica Popular como pe\u00e7a mercantil, ou Produto, n\u00e3o como Arte. \u201cZeca Afonso gerou, entre os Anos 60 e 70, o que se pode nomear como a mais aut\u00eantica M\u00fasica Lus\u00f3fona ao aplicar nas suas composi\u00e7\u00f5es as variantes s\u00f3cio-pol\u00edticas e culturais que conheceu em Portugal, Mo\u00e7ambique e Angola, e isso determinou que pusesse de lado a Guitarra Portuguesa, no modelo \u00b4fado-balada\u00b4 de Coimbra, para passar a trabalhar com a Viola e outros instrumentos, no que ganhou uma est\u00e9tica musical peculiar, com uma sonoridade tirada dos confins das m\u00fasicas populares portuguesa e africana&#8230;\u201d, escreveu o poeta J. C. Macedo, que conheceu e at\u00e9 acompanhou Zeca Afonso em v\u00e1rios eventos s\u00f3cio-pol\u00edticos, na efervesc\u00eancia do \u00b4processo revolucion\u00e1rio em curso\u00b4 [prec]. O pr\u00f3prio poeta encarava, na \u00e9poca, a quest\u00e3o \u201clusofonia\u201d como um palavr\u00e3o a ser estudado com maior cuidado, mas \u00e9 certo que caiu muito bem no contexto da explica\u00e7\u00e3o sobre a sonoridade conseguida por Zeca Afonso. E este, no conjunto da sua Obra, n\u00e3o poderia ser adotado nunca como pe\u00e7a mercantil ideal pelas editoras convencionais: Zeca Afonso era a ant\u00edtese do artista-para-consumo. Quer o regime fascista de Salazar, quer as editoras que lhe publicavam os trabalhos fonogr\u00e1ficos, tentaram muitas vezes silenciar aquela Voz-Poema&#8230; Assim acontece com \u201c&#8230;Lob\u00e3o, o brasileiro que canta o Amor com a mesma paix\u00e3o da Revolta Social, porque o estado emocional determina a Arte, determina a Sociedade&#8230;\u201d, na defini\u00e7\u00e3o de Prof. M\u00e1rio Gon\u00e7alves de Castro. Os dois m\u00fasicos e poetas do que agora \u00e9 chamado \u00b4espa\u00e7o lus\u00f3fono\u00b4 concentraram os seus esfor\u00e7os no desvendamento das peculiaridades est\u00e9tica do Povo, e nesse trabalho proporcionaram a si mesmos \u201cuma meta-linguagem de rupturas, [re]criadora da mais valiosa participa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do Povo: a Est\u00e9tica estabelecida como chave para a Na\u00e7\u00e3o mental\u201d, no dizer de Jo\u00e3o Barcellos, a prop\u00f3sito da \u201cruptura que s\u00f3 o \u00e9 ao gerar a \u00b4coisa\u00b4 nova, o \u00b4ser\u00b4 novo, n\u00e3o o continu\u00edsmo&#8230;\u201d. E foi o que eu percebi ao ler e ouvir Zeca Afonso para logo envolver Lob\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O c\u00e2ntico po\u00e9tico \u00e9 um dos caminhos da Liberdade. No final de 2004, a mo\u00e7ambicana C\u00e9line Abdullah ofereceu-me uma colet\u00e2nea de trabalhos de Zeca Afonso que ela havia registrado em fita magn\u00e9tica, e uma carta \u2013 ou\u00e7amos a bela negra de Mo\u00e7ambique, em parte da \u00b4orienta\u00e7\u00e3o\u00b4: \u201c[&#8230;] e se queres saber o que \u00e9 Cultura Libertadora, ouve com aten\u00e7\u00e3o o canto de interven\u00e7\u00e3o de Zeca Afonso, pois, ele, mais do que muitos portugueses e africanos armados at\u00e9 aos dentes, ajudou a libertar os nossos povos da tirania colonialista, que tem pilares no Catolicismo e na Cavalaria medieval. Para os portugueses e africanos sabedores da Hist\u00f3ria recente, ouvir e cantar Zeca Afonso \u00e9 n\u00e3o deixar cair a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d. E ouvi. E li. E quis retribuir. O que fiz com a remessa de alguns trabalhos de Lob\u00e3o, \u201cporque ele, Lob\u00e3o, \u00e9 o mais fecundo e talentoso m\u00fasico-poeta do Brasil aut\u00eantico, al\u00e9m de ser o brasileiro em ruptura com o sistema consumista que quer a sua alma revolucion\u00e1ria esmagada\u201d, escrevi na carta. Que, antes de enviar, li para o amigo Jo\u00e3o Barcellos&#8230; \u201cSim, o Lob\u00e3o \u00e9, hoje, um paradigma da Cultura Brasileira n\u00e3o-oficial, e pode-se aferir politicamente o seu trabalho com o de Zeca Afonso na emerg\u00eancia de uma Anarquia geradora do processo art\u00edstico-cultural revolucion\u00e1rio\u201d, ouvi. Uns quarenta dias depois do in\u00edcio de 2005, C\u00e9line Abdullah endere\u00e7ou-me um e-mail: \u201cRealmente, Mariana, a Revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 por todo o lado, e Lob\u00e3o representa isso contra tudo o que \u00e9 o fundamental do \u00b4politicamente correcto\u00b4. Gostei de conhecer Lob\u00e3o e o outro lado do Brasil que o mundo n\u00e3o conhece, ou conhece pouco. Agora, \u00e9 preciso objectivar a uni\u00e3o de esfor\u00e7os revolucion\u00e1rios, ou a ac\u00e7\u00e3o de artistas e de intelectuais vai continuar isolada\u201d. Gosto de M\u00fasica, e gosto de dedilhar a minha viola, mas nunca pensei envolver-me t\u00e3o profundamente em um assunto t\u00e3o \u00b4quente\u00b4 como s\u00e3o os do portugu\u00eas Zeca Afonso e do brasileiro Lob\u00e3o. Creio que um desafio at\u00e9 para muitos cr\u00edticos do ramo&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Zeca Afonso [Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, 1929-1987] nasceu em Aveiro, uma regi\u00e3o que foi a \u00b4m\u00e3e\u00b4 de uma Consci\u00eancia \u2013 verdadeiramente \u2013 Portuguesa, e em tenra idade partiu para acompanhar os pais nos seus afazeres profissionais em Angola e em Mo\u00e7ambique, mas voltou para fazer os estudos secund\u00e1rio e superior, em Coimbra, para ser, depois, professor. Os seus primeiros trabalhos discogr\u00e1ficos foram publicados em 1953: eram fados de Coimbra. Ainda nesses Anos 50 conhece o alvor de uma pol\u00edtica destinada a derrotar eleitoralmente Salazar: a campanha do general Humberto Delgado. Para ele, conhecedor da precariedade social em que o Catolicismo e o Salazarismo haviam mergulhado o Povo Portugu\u00eas, a Campanha de Delgado iria abrir portas para democratiza\u00e7\u00e3o. Iria&#8230; o ditador manobrou nos bastidores para evitar a vit\u00f3ria daquele que havia ousado gritar \u201cObviamente, demito-o!\u201d e ordenou que a pol\u00edcia pol\u00edtica o eliminasse da vida p\u00fablica e pol\u00edtica. Mas esse fato pol\u00edtico mexeu com Portugal, e mexeu mais ainda com a emo\u00e7\u00e3o anti-fascista da jovem intelectualidade e dos artistas n\u00e3o engajados ao regime. Assassinado \u201co general sem medo\u201d, em 1965, tr\u00eas anos depois, em plena era de terrorismo de Estado, \u201co professor Zeca Afonso foi expulso do Ensino e iniciou a sua peregrina\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica contra o Fascismo; os comunistas queriam-no nas suas trincheiras, mas ele nunca seria um opositor politicamente correcto, mas ele-mesmo com o Povo&#8230;\u201d, como escreveu J. C. Macedo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Das suas viagens para Angola e Mo\u00e7ambique, ainda nas atividades universit\u00e1rias, Zeca Afonso aprofundou os seus conhecimentos acerca da \u00b4batida\u00b4 musical e emocional da \u00c1frica, assim como Lob\u00e3o faz agora no reconhecimento da genu\u00edna musicalidade que \u00e9 constru\u00edda nos morros e favelas brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro, musicalidade que \u00e9 urbana e \u00e9 rural, pela cumplicidade das levas migrat\u00f3rias. E \u201c&#8230;com o conhecimento da diversidade cultural do Povo Portugu\u00eas, Zeca Afonso transformou-se no elo captador-difusor dos quereres e dos sonhos do Ser-Portugu\u00eas sem nunca esquecer o caminho africano&#8230;\u201d [idem]. \u00c9 esse Zeca Afonso, que j\u00e1 havia composto \u201cGr\u00e2ndola, Vila Morena\u201d, em 1964, a balada-senha que sinalizou o Golpe de Estado de \u00b425 de Abril de 1974\u00b4, revolucion\u00e1rio e agitador cultural, que vai marcar as gera\u00e7\u00f5es imediatas do ant e do p\u00f3s \u00b425 de Abril\u00b4.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Lob\u00e3o [Jo\u00e3o Luiz Woerdenbag Filho, 1957] foi, principalmente nos Anos 80, compositor. Tinha tudo para ser mais um carioca a olhar, de maneira tur\u00edstica, \u201co Brasil dos mafiosos e mesquinhos percursos da classe m\u00e9dia que, afinal, sustenta uma Na\u00e7\u00e3o de elites dengosamente perdidas no abra\u00e7o sanguin\u00e1rio do Capitalismo global e colonizador, do qual s\u00e3o cobaias e s\u00e3o escravas\u201d, na an\u00e1lise do Prof. Carlos Firmino. Em vez disso, Lob\u00e3o percebeu, como Zeca Afonso havia percebido em Portugal, a agressividade institucional que cercava o Povo, e nesse sufoco fez a leitura do n\u00e3o-Amor que o Consumismo e a Pol\u00edtica incutiam\/incutem no Povo Brasileiro. \u201cN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil pra quem n\u00e3o tem emo\u00e7\u00f5es\/ Vendem crises\/ Vendem mis\u00e9rias\/ Vendem tudo at\u00e9 em mil presta\u00e7\u00f5es\/ Est\u00e3o brincando\u201d, canta ele na e para a mais abrangente das linguagens: o eco da Consci\u00eancia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1xis art\u00edstica de Lob\u00e3o, que tem base no Pop e no Rock\u00b4n Roll, ganhou \u00b4batida\u00b4 brasileira ao compor para artistas como as cantoras Elza Soares e Marina Lima \u2013, \u00b4batida\u00b4 que ilustra o ganho cultural da amplid\u00e3o musical rural que inundou os morros e favelas cariocas, e assim nasceu um Lob\u00e3o \u00b4pop-roqueiro\u00b4 com densidades mel\u00f3dicas entre a balada marcadamente amorosa e o canto corrosivo da urbanidade criminosamente policiada. T\u00e3o policiada que artistas, nascidos at\u00e9 no combate a esse status quo social, passaram [e passam&#8230;] a fazer parte do Consumismo mais hediondo e que escraviza o Povo. Aquela a\u00e7\u00e3o de \u00c9tica pregada por Zeca Afonso na caminhada anti-fascista passou a ser, diante da abjeta atitude da classe m\u00e9dia e dos artistas engajados, a mesma a\u00e7\u00e3o de Lob\u00e3o, porque \u00e9 preciso conscientizar a Classe a que pertencemos para ganharmos o Povo para a luta da melhoria da Vida, da Liberdade. Isolado, mas consciente e ativamente anti-colonialista, Lob\u00e3o trabalha a sua Obra discogr\u00e1fica e social nos circuitos alternativos, como bancas de jornais, feiras, web, r\u00e1dios e imprensa comunit\u00e1ria. Tudo aquilo que, em princ\u00edpio, o \u00b4pop-roqueiro\u00b4 n\u00e3o pode ser, ele \u00e9 e prova que pode e sabe sobreviver enquanto marginal ao Sistema Consumista, al\u00e9m de ter consigo o apoio significativo da juventude mais atenta ao quotidiano da problem\u00e1tica dita \u00b4brasileira\u00b4. Mas isso faz com que a Ind\u00fastria Fonogr\u00e1fica o persiga ainda mais, a ponto de o cantor Zeca Baleiro sair a p\u00fablico, no jornal \u00b4O Estado de S. Paulo\u00b4, de 02.08.2002, acusando&nbsp;<span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">[&#8230;] a gravadora Universal Music de querer &#8220;desmoralizar&#8221;&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">o m\u00fasico Lob\u00e3o, ao exigir publicamente que ele pague direitos autorais&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">pelo uso de uma m\u00fasica de Baleiro no \u00e1lbum A Vida \u00c9 Bela (1999).<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&#8220;O cach\u00ea que recebi por minha participa\u00e7\u00e3o \u00e9 impag\u00e1vel \u2013&nbsp;<span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">a satisfa\u00e7\u00e3o de fazer parte de&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">um disco hist\u00f3rico e belo&#8221;, afirmou Baleiro.&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">&#8220;Se a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica reclama do projeto de lei&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">que a trata, presumidamente, como fraudadora, que aja ent\u00e3o com&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">clara transpar\u00eancia, que conquiste a credibilidade p\u00fablica&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">com a lisura e evite a pr\u00e1tica de golpes&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 18px; color: var( --e-global-color-text );\">baixos como esse&#8221;, acrescentou. Zeca \u00e9 contratado da gravadora [&#8230;]<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O que engrandeceu, pelo reconhecimento p\u00fablico, o caminho \u00e9tico que Lob\u00e3o trilha isolado, mas contando com a solidariedade pontual da Classe art\u00edstica menos \u00b4vendida\u00b4. Na maioria esmagadora, os chamados \u201cartistas populares\u201d s\u00e3o os vinculados \u00e0 Ind\u00fastria Fonogr\u00e1fica e que, a partir dela, emprestam a sua imagem p\u00fablica para enfeitar a propaganda de produtos industriais das grandes empresas locais e multinacionais; no entanto, Artista Popular \u00e9 aquela pessoa que cria e recria a \u00b4batida\u00b4 po\u00e9tica e musical que nas comunidades, sendo que alguma dessa produ\u00e7\u00e3o verdadeiramente comunit\u00e1ria s\u00f3 chega ao grande p\u00fablico quando artistas integrados no Esp\u00edrito das Tradi\u00e7\u00f5es neles se inspiram e com eles fazem parcerias. Quando a Classe Art\u00edstica, notabilizada mais pelas chamadas publicit\u00e1rias do que pelo trabalho, se vende ao vender outros produtos, ela passa a estar com o Consumismo, deixa de ser Povo, e a\u00ed, ao falar de Povo\/Popular \u00e9 j\u00e1 uma caricatura da pessoa que iniciou a carreira art\u00edstica no balan\u00e7o tradicional popular&#8230; Nesse aspecto \u00e9 que Zeca Afonso e Lob\u00e3o, no enquadramento das suas circunst\u00e2ncias culturais e geogr\u00e1ficas, mais se parecem&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Um dos trabalhos fonogr\u00e1ficos que mais gosto de Lob\u00e3o \u00e9 \u201cNoite\u201d, no qual uma \u00b4base\u00b4 Tecno agrega todas as batidas do Pop-Rock ao Samba passando pela Bossa-Nova, e \u00e9 um trabalho representativo da caminhada art\u00edstica e cultural desse genial brasileiro do Rio de Janeiro. O seu suporte criativo \u00e9 um Pensamento conectado com as realidades do Quotidiano que passa pelas suas pr\u00f3prias realidades de Artista consciente e livre.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Entre Zeca Afonso e Lob\u00e3o existem diferen\u00e7as est\u00e9ticas e ideol\u00f3gicas, mas, nos respectivos pa\u00edses, ambos marcaram\/marcam uma presen\u00e7a pol\u00edtica e cultural de transgress\u00e3o aos c\u00e2nones do Poder estabelecido \u2013 o pol\u00edtico, o religioso e o econ\u00f4mico.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Vivemos o Ano 5 do S\u00e9c. 21 e eu sou uma mulher, professora e artista visual, que acabou de conhecer um personagem-marco da Hist\u00f3ria recente de Portugal, e que se confronta com um campo de a\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m art\u00edstico e tamb\u00e9m pol\u00edtico, de um personagem-marco da Hist\u00f3ria contempor\u00e2nea do Brasil. O que encontrei? Um ponto comum onde a Transgress\u00e3o \u00e9 o motor libertador e a chave para a Resist\u00eancia, ou, como me lembrou C\u00e9line Abdullah, \u201c&#8230;a linguagem da for\u00e7a moral contra todos os colonialismos&#8230;\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Zeca Afonso \u00e9 profundamente agressivo ao cantar \u201cO povo \u00e9 quem mais ordena&#8230;\u201d, e leio e ou\u00e7o a mesma agressividade no canto de Lob\u00e3o em plena obscenidade social e pol\u00edtica: \u201cPorque sou bem pretinho\/ Pensam que sou marginal [&#8230;]\/ Fui metido a bam-bam-bam\/ Cat\u00f3lico apost\u00f3lico soterrado no div\u00e3\/ Preto vota \u00b4em branco\u00b4 \/ Contestando a raz\u00e3o\/ A gente \u00e9 branco e preto\/ Preto e branco&#8230; \u00c9 tudo irm\u00e3o\u201d. Tudo pela Ruptura. Tudo para que o Povo se perceba Gente e ganhe for\u00e7as para conquistar o espa\u00e7o que meia d\u00fazia usurpa em nome de deuses e\/ou de mitos familiares grafitados na mem\u00f3ria falsa dos manuais escolares. Sem se transgredir n\u00e3o se derrubam muros nem fronteiras, sem se transgredir n\u00e3o se conquista a Liberdade.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Falar de Zeca Afonso e de Lob\u00e3o n\u00e3o \u00e9, propriamente, falar de uma roda de viola \u2013 tamb\u00e9m \u00e9, mas&#8230; \u2013, \u00e9 mais falar de atos contempor\u00e2neos. Em rodas de artistas e intelectuais j\u00e1 ouvi que \u201c&#8230;o Lob\u00e3o \u00e9 resto da produ\u00e7\u00e3o de Cultura Consumista. Ele foi feito pelo Sistema e agora cospe em quem lhe deu nome comercial!\u201d. O que \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o completamente equivocada. E mesmo que assim fosse, todas as pessoas t\u00eam o direito de arrepiar caminho quando a viv\u00eancia quotidiana e profissional n\u00e3o lhe faz bem, porque aprendemos da Vida dando as duas faces para bater. Ora, seria o mesmo que dizer: \u201co fascista Salazar deixou crescer o Zeca Afonso porque sabia que o pr\u00f3prio Sistema n\u00e3o o absorvia e lhe tolhia a carreira. O que faz falta a alguns cr\u00edticos de M\u00fasica \u00e9 serem, de fato, o-Cr\u00edtico com conhecimento de causa&#8230; Entre os dois nem fa\u00e7o compara\u00e7\u00f5es, porque cada um tem a sua \u00e9poca\/circunst\u00e2ncia. A grande Li\u00e7\u00e3o social, art\u00edstica, e pol\u00edtica de Zeca Afonso e de Lob\u00e3o, \u00e9 terem conseguido construir linguagens pr\u00f3prias e contempor\u00e2neas e nelas mostrarem ao Povo, o que fala portugu\u00eas em Portugal e no Brasil, como na \u00c1frica, que a grandeza da Humanidade est\u00e1 em ser vivida na plenitude da Liberdade&#8230; transgredindo, transgredindo sempre&#8230;!<br><br><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mariana d\u00b4Almeida y Pi\u00f1on<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Professora de Artes Visuais<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo \/ SP \u2013 Br, 2005.<br><br><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Notas:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">MACEDO, J. C. [poeta e ensa\u00edsta] \u2013 \u201cZeca Afonso, um anarquista no contra-ponto do capitalismo\u201d, art., Lisboa-Pt, 1974. [Do arquivo de Johanne Liffey.]<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">CASTRO, M\u00e1rio G. de [professor e foto-jornalista] \u2013 \u201cNa toca do anti-colonialismo com Lob\u00e3o, ou a certeza de que a Anarquia \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para a Paz\u201d, art., Campinas\/SP \u2013 Br, 2003.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">BARCELLOS, Jo\u00e3o [escritor, jornalista cultural] \u2013 \u201cRuptura: ou a Anarquia filos\u00f3fica cria uma nova identidade humana, ou o Colonialismo far\u00e1 de n\u00f3s simples pe\u00e7as para compra e venda\u201d, ensaio-palestra, Web \/ TN Comunic &amp; Jerogl\u00edfo, Buenos Aires \u2013 Arg., 1998.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">ABDULLAH, C\u00e9line [bioqu\u00edmica] \u2013 \u201cOrienta\u00e7\u00e3o Para Uma Jovem Brasileira Que Adora Ser Livre\u201d, carta, S\u00e3o Paulo \/ SP \u2013 Br, 2004.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">DELGADO, Humberto [1906-1965] \u2013 \u201c[&#8230;] Militar, opositor do regime colonial salazarista, foi assassinado pela pol\u00edcia pol\u00edtica [PIDE] numa emboscada armada na Espanha, em Villanuena del Fresno, perto de Badajoz, onde tamb\u00e9m foi morta a sua secret\u00e1ria, a brasileira Arajaryr Moreira Campos. Humberto Delgado reuniu em torno de si as esperan\u00e7as de Democracia que o Povo Portugu\u00eas acalentava contra o sufoco social e econ\u00f4mico instalado por Salazar, com apoio t\u00e1cito e vis\u00edvel da Igreja Cat\u00f3lica. Ao ser questionado sobre Salazar, caso fosse eleito Presidente da Rep\u00fablica, o general declarou Obviamente, demito-o!&#8230; A desassombrada declara\u00e7\u00e3o incendiou Portugal e, muito especialmente, a juventude intelectual e militar. O seu assassinato aprofundou ainda mais o sentimento de medo em que Portugal j\u00e1 vivia, e do qual s\u00f3 se libertaria 9 anos depois, com o golpe militar de \u00b425 de Abril\u00b4&#8230;\u201d [BARCELLOS, Jo\u00e3o \u2013 in \u201cO Terrorismo Do Estado Novo Salazarista Sob As Ben\u00e7\u00e3os Do Catolicismo\u201d, art., Rio de Janeiro \/ Br, 1990].<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">FIRMINO, Carlos [professor] \u2013 \u201cOs Medos\/Erros Da Classe M\u00e9dia Que Fizeram Mais Ricas As Elites Fascistas Do Brasil\u201d, ensaio, Campinas\/SP \u2013 Br, 1997.<\/div>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando li, e ouvi, o verso \u201co que \u00e9 preciso \u00e9 animar a malta\u201d, de uma composi\u00e7\u00e3o de Zeca Afonso, fiquei extasiada. E mais ainda ao ler, e ouvir, \u201c&#8230;Eles comem tudo\/ E n\u00e3o deixam nada.\/ No ch\u00e3o do medo\/ Tombam os vencidos&#8230;\u201d, de outra composi\u00e7\u00e3o do famoso m\u00fasico-poeta portugu\u00eas. 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