{"id":6931,"date":"2006-02-10T12:20:00","date_gmt":"2006-02-10T12:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6931"},"modified":"2022-06-18T11:36:39","modified_gmt":"2022-06-18T11:36:39","slug":"o-que-e-preciso-e-criar-desassossego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-que-e-preciso-e-criar-desassossego\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 preciso \u00e9 criar desassossego"},"content":{"rendered":"<p>A conversa que se segue aconteceu em finais de Novembro de 1985, por ocasi\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o de Galinhas do Mato, e foi originalmente publicada no Se7e. Foi das \u00faltimas entrevistas que Jos\u00e9 Afonso concedeu, numa altura em que o seu estado de sa\u00fade se agravava dia ap\u00f3s dia. Apesar disso, falava do futuro com algum entusiasmo e uma for\u00e7a interior que quase faziam esquecer a enfermidade sem cura que o atormentava.<br \/>\nA sua inclus\u00e3o no livro Zeca Afonso: As voltas de um andarilho justifica-se, a meu ver, por isso mesmo, por esse sentido dial\u00e9ctico exemplar que as suas palavras transmitem. Propositadamente, mantive intacto o di\u00e1logo original, apesar do car\u00e1cter datado e circunstancial de algumas das suas declara\u00e7\u00f5es \u2013 nomeadamente as relativas a quest\u00f5es de ordem pol\u00edtica, como o seu apoio \u00e0 candidatura presidencial de Lourdes Pintasilgo, cuja campanha ent\u00e3o se iniciara.<\/p>\n<p>Parte significativa desta conversa refere-se, como \u00e9 \u00f3bvio, ao derradeiro disco de Jos\u00e9 Afonso, produzido por Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e J\u00falio Pereira, que tamb\u00e9m nele participam como int\u00e9rpretes, ao lado de Helena Vieira, N\u00e9 Ladeiras, Lu\u00eds Represas, Janita Salom\u00e9 e as duas filhas deste, Marta e Catarina. Foi \u00abum trabalho de equipa muito bonito\u00bb, nas palavras de Z\u00e9 M\u00e1rio. \u00abUma coisa que transcendeu a pr\u00f3pria ternura\u00bb, acrescenta J\u00falio Pereira. Tal como a cavaqueira que se segue.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Este disco vai, se calhar, surpreender muita gente, que te julgava acabado para a m\u00fasica&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013Talvez. Eu, a princ\u00edpio, achei que n\u00e3o valia a pena, n\u00e3o estava a ver-me assim no papel de compositor. Por mim punha uma pedra no assunto e ficaria o \u2018Como Se Fora Seu Filho\u2019 o meu \u00faltimo disco. Mas a verdade \u00e9 que tinha por a\u00ed algum material, disperso por algumas cassetes, que, se calhar era pena ficar aqui perdido. E achei que as pessoas que estavam mais pr\u00f3ximas de mim, at\u00e9 em termos de assiduidade, de acompanharem e se interessarem pelas coisas que eu aqui tinha eram, de facto, o Z\u00e9 M\u00e1rio Branco e o J\u00falio Pereira. E foram eles que insistiram nessa ideia, que seria necess\u00e1rio utilizar essas m\u00fasicas para um novo disco.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Al\u00e9m do que agora foi gravado, existem ainda outros in\u00e9ditos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Sim, algumas coisas. Umas que ainda s\u00e3o dos meus primeiros tempos de professorado, em Set\u00fabal, outras feitas em \u00c1frica ou no barco, quando fui colocado em Mo\u00e7ambique. H\u00e1 coisas que s\u00e3o s\u00f3 pequenos trechos musicais, n\u00e3o s\u00e3o propriamente can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Este disco tem tamb\u00e9m can\u00e7\u00f5es dessa altura?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Tem. O tema \u2018Galinhas do Mato\u2019, por exemplo, \u00e9, talvez, o mais representativo. Tem uma certa sugest\u00e3o africana de ritmos e coros, \u00e9 uma m\u00fasica que eu pus na prateleira, \u00e0 espera de um dia ter um texto que se enquadrasse. E h\u00e1 o \u2018Tu Gitana\u2019, uma m\u00fasica que eu fiz com uma \u2018letra-robot\u2019, a letra de uma can\u00e7\u00e3o de Vila Vi\u00e7osa que eu cantei muito em Coimbra, no grupo que deu origem ao Coral da Faculdade de Letras. Descobri que essa letra se coadunava perfeitamente com aquela m\u00fasica que eu tinha feito.<\/p>\n<p><strong>\u2013 \u00c9 essa que \u00e9 cantada, no disco, pela Helena Vieira&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 e, ali\u00e1s, acho que \u00e9 admiravelmente cantada. Estas duas m\u00fasicas s\u00e3o talvez de 1968, portanto anteriores a quase todas as que eu fiz para o \u2018Como Se Fora Seu Filho\u2019. A mais recente \u00e9, talvez, a \u2018Alegria da Cria\u00e7\u00e3o\u2019, que foi feita para a pe\u00e7a Fern\u00e3o, Mentes?&#8221;.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Dizia eu que este disco pode surpreender muita gente. At\u00e9 porque \u00e9 feito segundo um esquema que creio ser mais ou menos in\u00e9dito em Portugal: \u00e9, digamos, um disco de autor, com a maioria das interpreta\u00e7\u00f5es entregues a outros cantores&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Isso \u00e9 uma coisa que, para l\u00e1 das condicionantes que obrigaram a que assim fosse, me d\u00e1 um certo contentamento. At\u00e9 porque, neste caso, se pode escolher a voz apropriada para cada tipo de can\u00e7\u00e3o. O \u2018Tu Gitana\u2019, por exemplo, nunca poderia ser cantado por mim, nem mesmo quando eu tinha voz para cantar. Tem uma tessitura, uma escala de tal ordem que s\u00f3 uma mulher com uma voz educada como a Helena Vieira a poderia cantar.<\/p>\n<p><strong>\u2013 O J\u00falio Pereira e o Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco coordenaram o trabalho de arranjos. Voc\u00eas mantiveram-se em contacto com regularidade?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Sim, sim. O J\u00falio, por exemplo, n\u00e3o dava um passo que fosse fora do meu conhecimento. E a \u2018Alegria da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o cujo arranjo coral e instrumental se deve ao Z\u00e9 M\u00e1rio. \u00c9 claro que muito embora eu tenha concebido muitos dos arranjos, ao longo deste meu trabalho, n\u00e3o conseguiria fazer este disco sem a participa\u00e7\u00e3o do J\u00falio e do Z\u00e9 M\u00e1rio, que foram uns excelentes colaboradores. Est\u00e1vamos em contacto telef\u00f3nico quase permanente e, no est\u00fadio, estive regularmente a par do que se foi fazendo. Mas o trabalho de bases foi feito por eles, embora eu soubesse o que quer o J\u00falio, quer o Z\u00e9 M\u00e1rio iam fazer. Eles gravavam previamente o que faziam e eu dava sugest\u00f5es a partir da\u00ed, imitando sons, dando imagens, sei l\u00e1&#8230; \u00c9 muito, dif\u00edcil explicar isto tudo, \u00e9 um processo emp\u00edrico&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u2013 Est\u00e1s, portanto, satisfeito?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Eh, p\u00e1! Pela primeira vez, isto deu-me um prazer bastante grande. Talvez pelo facto de serem outras pessoas a cantar, mas tamb\u00e9m pelo tipo de m\u00fasicas&#8230; O \u2018Agora\u2019 ou o \u2018Galinhas do Mato\u2019, por exemplo, eram coisas que estavam na prateleira e cheguei a admitir n\u00e3o poder gravar. \u2018Galinhas do Mato\u2019 \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o demasiado africana, demasiado ligada \u00e0s minhas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, e pensei que n\u00e3o encontrar\u00edamos uma solu\u00e7\u00e3o instrumental para ela. Mas, afinal, com a ajuda de um computador, conseguiu-se.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Um computador?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Um computador, nas m\u00e3os do J\u00falio Pereira. Mete sons v\u00e1rios, desde o kissange, percuss\u00f5es e outros sons mais ou menos electrificados ou plastificados mas que s\u00e3o exactamente tipo som artesanal. E tivemos que recorrer \u00e0s vozes das mulheres do Coro de Oeiras, um bocadinho modificadas, de modo a criar aquele ambiente africano. E, al\u00e9m disso, cont\u00e1mos com as filhas do Janita que, no caso presente, parecem duas pretinhas a cantar&#8230; Eu fiquei surpreendido porque, no final, o resultado \u00e9 de tal ordem que eu me senti transportado aos meus quatro ou cinco anos, quando estive no planalto do Bi\u00e9. E h\u00e1 outras coisas: uma m\u00fasica chamada \u2018Tarkovsky\u2019, em que utiliz\u00e1mos quase arbitrariamente o nome do cineasta russo porque, a dada altura, eu pensei criar um ambiente, num coro sem palavras, que tivesse um pouco de \u00c1frica e da R\u00fassia. Imagina-te no \u2018Andrei Rubliov\u2019 ou, de uma forma geral, nos filmes do [Andrei] Tarkovsky. E l\u00e1 se fez, com a ajuda da trompa do Ad\u00e1cio Pestana e da voz do Janita.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Essa m\u00fasica representa, de algum modo, uma homenagem ao Tarkovsky?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 De certo modo. At\u00e9 porque os filmes dele me impressionaram bastante e deixa-me dizer-te que estou convencido que dificilmente ele poderia fazer, no Ocidente, os filmes que, apesar de todas as limita\u00e7\u00f5es que teve, fez na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Aquele \u2018peso\u2019, aquela liga\u00e7\u00e3o tel\u00farica \u00e0 \u2018m\u00e3e R\u00fassia\u2019, aqueles personagens espantosos que ele criou, tudo isto \u00e9 dif\u00edcil reproduzir aqui, quer na Europa, quer nos Estados Unidos. Por isso a m\u00fasica tamb\u00e9m \u00e9 uma homenagem. Sabes?, eu quando falo de coisas de m\u00fasica, falo tamb\u00e9m muito de quest\u00f5es extramusicais, para dar o ambiente. Socorro-me muito de imagens, de espa\u00e7os e at\u00e9 da m\u00edmica. Quando estou diante de um tipo que vai cantar as minhas coisas bamboleio-me, fa\u00e7o caretas para ele se situar na interpreta\u00e7\u00e3o que idealizei. Foi um trabalho de equipa excelente, sem qualquer tipo de asperezas, com um entendimento espantoso entre a malta&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u2013 Coisa que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil, na m\u00fasica&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o. Isto \u00e9 tudo um bocado confuso, o que n\u00f3s fazemos \u00e9 sempre uma coisa muito periclitante: meter em tr\u00eas minutos uma can\u00e7\u00e3o e conseguir um efeito \u00fanico&#8230; Mas que a m\u00fasica, entre aspas, \u2018popular portuguesa\u2019 continua viva acho que sim. E a prova \u00e9 que t\u00eam sa\u00eddo coisas, cada m\u00fasico tem qualquer coisa de seu, n\u00e3o se confunde com outro. H\u00e1 uma marca pessoal, que \u00e9 desej\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>\u2013 \u2018M\u00fasica popular portuguesa\u2019 entre aspas? Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Porque esse conceito \u00e9 muito pol\u00e9mico. N\u00e3o sei se lhe chame m\u00fasica de texto, m\u00fasica social, m\u00fasica de inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tudo conceitos muito indefinidos, mas m\u00fasica popular \u00e9 ainda mais pol\u00e9mico. Sen\u00e3o voltamos outra vez para a discuss\u00e3o sobre m\u00fasica popular e m\u00fasica tradicional e eu n\u00e3o quero entrar nisso. Prefiro dizer \u2018a m\u00fasica da minha \u00e1rea\u2019 ou \u2018da nossa \u00e1rea\u2019, abrangendo um conjunto de colegas ou ex-colegas que sempre estiveram nestas coisas, que sempre tiveram um percurso pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>\u2013 A pr\u00f3pria inten\u00e7\u00e3o e a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00e3o hoje, por vezes, postas de parte por alguns colegas teus&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Pois \u00e9, mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero entrar nessa \u00e1rea. Isso \u00e9 um problema de consci\u00eancia. Eu sempre disse que a m\u00fasica \u00e9 comprometida quando o m\u00fasico, como cidad\u00e3o, \u00e9 um homem comprometido. N\u00e3o \u00e9 o produto sa\u00eddo do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunst\u00e2ncias que o envolvem com o momento hist\u00f3rico e pol\u00edtico que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta. Tipos como o Daniel Viglietti, por exemplo, s\u00e3o cantores com um ineg\u00e1vel perfil pol\u00edtico e militante, tamb\u00e9m. Se isso \u00e9 vi\u00e1vel e de que maneira n\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u2013 Mas tu, por exemplo, continuas activo a comprometido politicamente. Ainda h\u00e1 poucos dias apelaste ao voto na APU para as elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o consigo nem pretendo estar fora das coisas. Este meu apelo ao voto na APU, n\u00e3o \u00e9 um apelo paternalista, mas fruto da constata\u00e7\u00e3o directa, atrav\u00e9s da minha experi\u00eancia como cidad\u00e3o, que as verea\u00e7\u00f5es mais honestas, que d\u00e3o prioridade a coisas essenciais como saneamentos b\u00e1sicos, escolas e jardins de inf\u00e2ncia, s\u00e3o efectivamente as da APU. Posso citar Coruche, Moura, Seixal, M\u00e9rtola&#8230; E, tomando estes casos como padr\u00e3o, eu n\u00e3o hesito em diz\u00ea-lo \u00e0s pessoas, se \u00e9 que a minha presen\u00e7a tem alguma for\u00e7a. Uma coisa \u00e9 a minha actividade musical, a frui\u00e7\u00e3o l\u00fadica da m\u00fasica, outra coisa \u00e9 o homem pol\u00edtico que sou. Agora como \u00e9 que as duas coisas se harmonizam, ainda estou para saber&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u2013 As Presidenciais est\u00e3o tamb\u00e9m a chegar. J\u00e1 tomaste posi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Decidi ontem [22 de Novembro de 1985] apoiar a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo. A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 o reino do absoluto, estamos numa conjuntura que n\u00e3o aponta para nenhuma ac\u00e7\u00e3o popular e revolucion\u00e1ria. Afirmar isto era pura demagogia. Portanto eu apoio um candidato que d\u00ea margem para determinadas movimenta\u00e7\u00f5es a que eu chamo de contra-poder&#8230; E come\u00e7o a desconfiar a s\u00e9rio da rigidez partid\u00e1ria. Entendo que, efectivamente, h\u00e1 partidos mais aconselh\u00e1veis que outros e sou de opini\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 concilia\u00e7\u00e3o entre uma perspectiva de esquerda e uma perspectiva de direita, autoritarista e reaccion\u00e1ria. Continuo a perfilhar convictamente estes pontos de vista, mas isso n\u00e3o me impede de apoiar uma personagem interessante, de grande carisma pessoal como \u00e9 a Lourdes Pintasilgo. Que, a meu ver, est\u00e1 muito mais ligada a uma conota\u00e7\u00e3o de esquerda, de mudan\u00e7a, do que os outros. H\u00e1 quem se esque\u00e7a que o Salgado Zenha foi o arauto do antigon\u00e7alvismo, do antip\u00eac\u00eapismo, da \u2018Carta Aberta\u2019. E que foi pela boca dele que se fizeram os mais duros ataques \u00e0 CGTP. H\u00e1 quem se esque\u00e7a, mas eu n\u00e3o tenho falta de mem\u00f3ria, pelo menos nestas coisas&#8230; Podes escrever isto tudo que eu disse&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u2013 E l\u00e1 estamos n\u00f3s a falar de pol\u00edtica&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 que da pol\u00edtica se chega \u00e0 m\u00fasica e da m\u00fasica \u00e0 consci\u00eancia? Eh, p\u00e1, eu acho que as coisas podem estar ou n\u00e3o ligadas, depende do lado para onde estivermos virados. Mas o que \u00e9 preciso \u00e9 criar desassossego. Quando come\u00e7amos a procurar \u00e1libis para justificar o nosso conformismo, ent\u00e3o est\u00e1 tudo lixado! E, quando isso acontecer comigo, eu at\u00e9 agrade\u00e7o que os meus amigos me chamem \u00e0 aten\u00e7\u00e3o e me critiquem. No campo da m\u00fasica continuo interessad\u00edssimo, nesta \u00e1rea e fora dela. Acho que, por exemplo, \u00e9 necess\u00e1rio que exista um grupo como o Opus Ensemble, um m\u00fasico como o Victorino d&#8217;Almeida. Ou como o R\u00e3o Kyao, embora nem sempre goste das \u00faltimas coisas dele \u2013 mas isso \u00e9 outro problema. E, na \u00e1rea do chamado rock portugu\u00eas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual eu sou muito reticente, h\u00e1, por exemplo, os J\u00e1fumega, que eu vi h\u00e1 tempos e de quem gostei bastante, fiquei sinceramente impressionado. Estou interessado, sim, pelo que por c\u00e1 se faz. Acho que, acima de tudo, \u00e9 preciso agitar, n\u00e3o ficar parado, ter coragem, quer se trate de m\u00fasica ou de pol\u00edtica. E n\u00f3s, neste pa\u00eds, somos t\u00e3o pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u2018homenzinhos\u2019 e \u2018mulherzinhas\u2019. Temos \u00e9 que ser gente, p\u00e1!<\/p>\n<p><strong>Entrevista de Viriato Teles<\/strong><br \/>\n<strong>Se7e &#8211; 27 de Novembro de 1985<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A conversa que se segue aconteceu em finais de Novembro de 1985, por ocasi\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o de Galinhas do Mato, e foi originalmente publicada no Se7e. Foi das \u00faltimas entrevistas que Jos\u00e9 Afonso concedeu, numa altura em que o seu estado de sa\u00fade se agravava dia ap\u00f3s dia. 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