{"id":6929,"date":"2006-02-10T12:19:00","date_gmt":"2006-02-10T12:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6929"},"modified":"2021-12-17T11:41:12","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:12","slug":"um-passaro-igual-a-ti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/um-passaro-igual-a-ti\/","title":{"rendered":"Um p\u00e1ssaro igual a ti"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Provavelmente, o mundo est\u00e1 mesmo feito \u00e0s avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola \u00e0s costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se tudo o passado n\u00e3o fosse sen\u00e3o um sonho long\u00ednquo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, no entanto, sabemos que n\u00e3o foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Gr\u00e2ndola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emo\u00e7\u00f5es, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que \u00e9 muito menos f\u00e1cil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da &#8216;vida art\u00edstica&#8217;, na qual ele nunca se encaixou, s\u00e3o como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar ap\u00f3s um instante de brilho e que, portanto, o importante \u00e9 estar vivo, ter como \u00fanica certeza a inquieta\u00e7\u00e3o permanente.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 coisas assim, que parecem imposs\u00edveis. Depois v\u00eam as inevit\u00e1veis cortesias-de-vel\u00f3rios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um pa\u00eds de homenagens p\u00f3stumas, n\u00e3o \u00e9? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre t\u00e3o dado a encolerizar-se com estas coisas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Veja-se a Televis\u00e3o, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe negou em vida, para descobrir agora (s\u00f3 agora, \u00f3 c\u00e9us?) que, afinal, Zeca \u00e9 um s\u00edmbolo da democracia e da resist\u00eancia antifascista! E proclama hossanas em sua gl\u00f3ria, como se j\u00e1 n\u00e3o bastasse a dor que ficou.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas li\u00e7\u00f5es de liberdade j\u00e1 se aperceberam tamb\u00e9m de todo o rid\u00edculo que se esconde por detr\u00e1s destes lamentos hip\u00f3critas. E sabem que Jos\u00e9 Afonso, poeta e trovador, n\u00e3o \u00e9 dos que morrem assim, sem mais aquelas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em bisca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste at\u00e9 aqui: n\u00e3o lhes ligues, ri-te deles, l\u00e1 desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as \u00faltimas c\u00e1 de baixo. Afinal, j\u00e1 sabes como \u00e9: o mundo est\u00e1 mesmo feito \u00e0s avessas. Se assim n\u00e3o fosse ainda agora por c\u00e1 te ter\u00edamos, a mandar vir como era teu h\u00e1bito contra &#8220;essa cambada engravatada e escolop\u00eandrica&#8221; que insiste em controlar a gente. E at\u00e9 v\u00e3o fazer de ti nome de rua, imagina!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Olha: l\u00e1 fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, h\u00e1 um p\u00e1ssaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou ser\u00e3o l\u00e1grimas? Seja como for, o p\u00e1ssaro \u00e9 igualzinho a ti: por mais que tentem, ningu\u00e9m consegue impedi-lo de voar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Viriato Teles<\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Provavelmente, o mundo est\u00e1 mesmo feito \u00e0s avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola \u00e0s costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. 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