{"id":6926,"date":"2006-02-10T12:17:00","date_gmt":"2006-02-10T12:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6926"},"modified":"2022-06-18T11:32:38","modified_gmt":"2022-06-18T11:32:38","slug":"grandola-gravada-as-3-da-manha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/grandola-gravada-as-3-da-manha\/","title":{"rendered":"\u00abGr\u00e2ndola\u00bb gravada \u00e0s 3 da manh\u00e3"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Quando, naquela manh\u00e3 de Abril de 1970, entrei no avi\u00e3o com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos est\u00e1dios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o \u00e1lbum intitulado Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">De facto, a minha inclus\u00e3o naquele trabalho tinha sido decidida poucos dias antes e por raz\u00f5es (como era h\u00e1bito) um pouco fortuitas. O meu passado musical, muito mais ligado \u00e0 guitarra el\u00e9ctrica e ao rock (exercido em conjuntos \u00ab\u00e0 Shadow\u00bb ou \u00ab\u00e0 Beatle\u00bb como foram os HI-FI e os \u00c1lamos), tinha apenas uma \u00fanica experi\u00eancia na arca da MPP (M\u00fasica Popular Portuguesa!) com o disco que tinha gravado com o Duarte e Cir\u00edaco.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Assim, apesar de pouco credenciado para a tarefa, entrei facilmente nos temas e, recordo claramente, nunca receei falhar na sua execu\u00e7\u00e3o em est\u00fadio. Sei agora que esta confian\u00e7a derivava directamente da universalidade da m\u00fasica do Zeca.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Acontecia-me afinal o que acontece quando contactamos com uma obra t\u00e3o consistente como a do Zeca: parece-nos que j\u00e1 a conhec\u00edamos h\u00e1 muito tempo e que, mais do que isso, ela j\u00e1 estava dentro de n\u00f3s. Foi sempre assim com a m\u00fasica dele. Quando ele a expunha pela primeir\u00edssima vez (\u00e0s vezes ao telefone e a desoras) vinha a sensa\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel de \u00abeu j\u00e1 senti isto\u00bb. E j\u00e1. S\u00f3 que o Zeca sabia traduzir tudo isso para um formato exteriormente intelig\u00edvel.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c0 partida do aeroporto, a primeira surpresa: o Lu\u00eds Filipe Cola\u00e7o (homem da r\u00e1dio, companheiro de Coimbra e ex-guitarrista dos \u00c1lamos), j\u00e1 dentro do avi\u00e3o, \u00e9 chamado pelo comandante, mandado sair e retido em Lisboa pela DGS por dois ou tr\u00eas dias. Conseguiu juntar-se a n\u00f3s em Londres, mais tarde, recorrendo sei l\u00e1 a que expedientes para convencer os zelosos Pides da inocuidade da sua viagem.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c0 chegada, a segunda surpresa. A guitarra que, muito profissionalmente, levava sob o assento e sem caixa protectora, apresentava uma rachadela monumental que a tomava, para sempre, in\u00fatil.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 os bons of\u00edcios dos amigos que o Zeca tinha em Londres (o Zeca tinha amigos em toda a parte) permitiram arranjar uma guitarra decente para a grava\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As sess\u00f5es no est\u00fadio come\u00e7aram com o \u00abMaria Faia\u00bb e com a del\u00edcia de trabalhar com uma m\u00e1quina de 4 (quatro!) pistas. A abund\u00e2ncia de meios t\u00e9cnicos, superiores aos que conhec\u00edamos, foi inspiradora. Pude sobrepor v\u00e1rias faixas de guitarra, obtendo efeitos orquestrais que, na \u00e9poca, pareciam interessantes.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As onze faixas foram gravadas sem sacrif\u00edcio em v\u00e1rias sess\u00f5es diurnas, ao longo de duas semanas ponteadas por passeios pela grande capital que parecia, ent\u00e3o, t\u00e3o diferente do nosso meio natal.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nos corredores alcatifados do hotel, o Zeca colocava a sua energia em demonstra\u00e7\u00f5es amig\u00e1veis de judo (modalidade que abra\u00e7ara recentemente).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dos muitos amigos que apareciam no est\u00fadio para ver o grande autor-int\u00e9rprete, como j\u00e1 era reconhecido, recordo o brasileiro tropicalista Gilberto Gil, exilado pela ditadura. Esteve presente na grava\u00e7\u00e3o de \u00abVerdes S\u00e3o os Campos\u00bb e a introdu\u00e7\u00e3o de guitarra &#8211; inventada na hora &#8211; teve a sua aprova\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Terminado o trabalho e quando, j\u00e1 em Portugal, recebemos um exemplar do disco para avalia\u00e7\u00e3o, o Zeca reprovou-o por n\u00e3o gostar da mistura e deu instru\u00e7\u00f5es para esta ser feita de maneira diferente. Se havia (e havia) zonas em que o Zeca n\u00e3o fazia concess\u00f5es, uma era de certeza a que dizia respeito ao ambiente musical das suas can\u00e7\u00f5es, especialmente se eram para colocar em disco.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nos dois discos que gravei com ele, testemunhei esse perfeccionismo, inesperado num homem t\u00e3o simples e que n\u00e3o era, de modo nenhum, um instrumentista, nem um conhecedor das subtilezas t\u00e9cnicas dos est\u00fadios de grava\u00e7\u00e3o. Nem precisava ser.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ainda conservo o prot\u00f3tipo rejeitado (um vinil). A venda do disco, editado pela Arnaldo Trindade, decorrera como era costume: um ou dois dias nas montras das lojas e, depois da proibi\u00e7\u00e3o pela censura, clandestinamente e ao mesmo ritmo. Fic\u00e1mos, provavelmente, a dever ao Sr. Arnaldo Trindade a edi\u00e7\u00e3o de autores como o Zeca e o Adriano, em condi\u00e7\u00f5es comercialmente t\u00e3o adversas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No ano seguinte &#8211; em Outubro\/Novembro a minha segunda experi\u00eancia discogr\u00e1fica com o Zeca. Aqui, j\u00e1 ele tinha ouvido as duas vozes portuguesas no ex\u00edlio em Paris que traziam os sons novos que ele constantemente procurava. O Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco foi incumbido da direc\u00e7\u00e3o musical desse novo disco que viria a chamar-se Cantigas do Maio. Foi ele que enquadrou o Zeca num ambiente de trabalho bem estruturado e com o tacto humano adequado a n\u00e3o fazer o Zeca sentir-se engaiolado e artisticamente diminu\u00eddo.A grava\u00e7\u00e3o decorreu num castelo-est\u00fadio dos arredores de Paris e teve a colabora\u00e7\u00e3o (bem aud\u00edvel em algumas faixas) do Francisco Fanhais.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A direc\u00e7\u00e3o musical e a presen\u00e7a humana do Z\u00e9 M\u00e1rio Branco revelaram-se fundamentais para o bom sucesso do trabalho. O seu conhecimento do meio musical parisiense conseguiu trazer ao est\u00fadio m\u00fasicos de primeira categoria -como \u00e9 o caso do percussionista Michel Delaport, com os seus sons indianos t\u00e3o bem aproveitados no \u00abSenhor Arcanjo\u00bb.Foi a\u00ed que grav\u00e1mos (em sess\u00f5es, desta vez, nocturnas) o \u00abGr\u00e2ndola\u00bb com o som dos passos obtido no exterior do castelo \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3.A mistura final foi feita no est\u00fadio e desta vez (aben\u00e7oado Z\u00e9 M\u00e1rio) n\u00e3o foi rejeitada.Foi o meu segundo e \u00faltimo disco com o Zeca. A minha vida profissional afastou-me irremediavelmente do meio e s\u00f3 volto a v\u00ea-lo, anos mais tarde, no quarto de urna cl\u00ednica em Coimbra. J\u00e1 estava ferido de morte pela doen\u00e7a, mas pensava ainda em mais can\u00e7\u00f5es e tinha esperan\u00e7a.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Carlos Correia (B\u00f3ris)<\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, naquela manh\u00e3 de Abril de 1970, entrei no avi\u00e3o com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos est\u00e1dios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o \u00e1lbum intitulado Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m. 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