{"id":6925,"date":"2006-02-10T12:16:00","date_gmt":"2006-02-10T12:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6925"},"modified":"2021-12-17T11:41:12","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:12","slug":"ensaios-na-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/ensaios-na-brasileira\/","title":{"rendered":"Ensaios na \u00abBrasileira\u00bb"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Conheci o Zeca nos meus 16 anos, tinha ele 33, j\u00e1 licenciado em Letras, a leccionar em Mangualde, mas aproveitando todas as folgas para vir a Coimbra, ansioso por mostrar aos amigos as suas \u00faltimas baladas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 essa altura, a sua actividade musical tinha sido, na d\u00e9cada de 50 e princ\u00edpio da de 60, a de um estudante com boa voz, que cantava no Orfe\u00e3o e que, juntamente com o Rolim, Machado Soares, Goes, Levy Baptista, Lopes de Almeida, Portugal, Brojo e outros, se agrupavam para executar fados e guitarradas, actuando quer em espect\u00e1culos do Orfe\u00e3o, quer em espect\u00e1culos da Tuna, quer em serenatas e, de vez em quando, para a grava\u00e7\u00e3o de um disco de fados.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Eu ouvi o seu nome, as primeiras vezes, ao meu pai que, como jornalista em Coimbra, fazia quest\u00e3o de viver intensamente a vida coimbr\u00e3, saltitando das tert\u00falias futrico-intelectuais para as acad\u00e9micas. E nestas \u00faltimas pontificava o Zeca, como o seu bom humor, com as suas permanentes distrac\u00e7\u00f5es e com uma irrever\u00eancia intelectual a que chamavam de \u00abexistencialista\u00bb. Mais tarde, j\u00e1 com os meus 12 anos, ao tentar a minha sorte como aprendiz de fadista, acompanhando \u00e0 viola rapazes da minha idade em guitarradas e fados, o nome do Zeca vinha \u00e0 baila, a prop\u00f3sito dos fados que ele cantava como ningu\u00e9m (os \u00abContos Velhinhos\u00bb, \u00abAquela Mo\u00e7a da Aldeia\u00bb, etc, etc.) e que n\u00f3s tent\u00e1vamos imitar no seu jeito de voz \u00abcaprina\u00bb, como dizia o Menano. Mas em 1962, ano tumultuado em Coimbra, com a Academia envolvida numa das mais violentas crises estudantis, o Zeca, j\u00e1 cansado com aquilo a que chamou a \u00abquinquilharia passadista do velho romantismo do Penedo\u00bb, sempre que podia, vinha a Coimbra para sentir esse fervilhar das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a assim a sua fase de ruptura com aquilo que mais o tinha ligado at\u00e9 ent\u00e3o \u00e0 cidade, \u00abo tanger dos bord\u00f5es da viola, as casas de prego, as bicas nos caf\u00e9s da Baixa e as arengas dos te\u00f3ricos da bola\u00bb.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Possu\u00eda, al\u00e9m disso, um profundo conhecimento do grave problema colonial, porque, al\u00e9m de ter em Mo\u00e7ambique muita fam\u00edlia, fez algumas digress\u00f5es com a Tuna e com o Orfe\u00e3o \u00e0s col\u00f3nias. Era, tamb\u00e9m, um tempo de separa\u00e7\u00e3o dolorosa com a mulher que lhe tinha dado os seus primeiros dois filhos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste contexto de viragem, caldeada com muita ang\u00fastia, que conhe\u00e7o o Zeca. A sua mudan\u00e7a deveu-se, no meu entender, ao seu amadurecimento intelectual, \u00e0s profundas marcas deixadas pela desilus\u00e3o afectiva, \u00e0s mudan\u00e7as do ambiente coimbr\u00e3o, \u00e0 desilus\u00e3o dos primeiros anos de doc\u00eancia, \u00e0s not\u00edcias de \u00c1frica e, muito principalmente, ao contacto com novos amigos como o Barahona, a Lu\u00edsa Neto Jorge, o Lu\u00eds Andrade, o Bronze, o Pit\u00e9 e tantos outros.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ele vinha de Mangualde a Coimbra para mostrar aos amigos um outro tipo de m\u00fasica, sem o \u00abespartilho da Guitarra de Coimbra\u00bb [com letra mai\u00fascula no original], com uma grande liberdade r\u00edtmica e que necessitava apenas de uns leves acordes de viola para sublinhar o poema que era o mais importante da can\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Assim nasce \u00abMenino de Oiro\u00bb, \u00abTenho Barcos, Tenho Remos\u00bb, \u00abOs Vampiros\u00bb, \u00abO Senhor Poeta\u00bb, etc., ensaios muitas vezes feitos no segundo andar do Caf\u00e9 Brasileira, ou em minha casa ou em qualquer Rep\u00fablica onde ele tinha o estatuto de \u00ablivre tr\u00e2nsito\u00bb quando vinha a Coimbra e necessitava de dormir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Conseguiram-se os dois primeiros EP que tanto esc\u00e2ndalo provocaram nos meus \u00abamigos do fado\u00bb. Foi considerado uma afronta \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. Mas os meios intelectuais e os meios oper\u00e1rios de esquerda logo nos aproveitaram para saraus mais ou menos clandestinos. Zeca vai tentando o ensino, saltitando, depois de Mangualde para Aljustrel, Lagos, Faro, Alcoba\u00e7a e de novo Faro.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas f\u00e9rias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana na sua casa, no n.\u00ba 68 da Rua Duarte Pacheco, em Faro. Part\u00edamos de manh\u00e3 com destino \u00e0 ilha do Farol ou da Armona, de barco com a viola e uma ra\u00e7\u00e3o de duas sandu\u00edches e duas meloas. Quando eu n\u00e3o podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra \u00e0 boleia ou ent\u00e3o apanhava o comboio at\u00e9 \u00e0 esta\u00e7\u00e3o para a qual o pouco dinheiro que dispunha dava &#8211; \u00abvenda-me um bilhete de 60 escudos em segunda classe em direc\u00e7\u00e3o ao norte\u00bb -, fazendo o resto \u00e0 boleia ou a p\u00e9 e c\u00e1 chegava cheio de fome, sem um tost\u00e3o no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Negoci\u00e1vamos, na altura, um contrato com a Raps\u00f3dia, que lhe desse alguma estabilidade econ\u00f3mica. O Zeca pretendia quatro contos por m\u00eas e cinco por cento na percentagem das vendas. Mas partiu em Agosto de 1964 para \u00c1frica, sem conseguir esse \u00abfabuloso contrato\u00bb, mas feliz com o seu recente casamento com a Z\u00e9lia. S\u00e3o dois anos em que semanalmente escreve para minha casa, com o remetente \u00abcaixa postal n.\u00ba 50-Beira\u00bb, cartas repletas das suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, da sua instabilidade, mas cheias de not\u00edcias dessa \u00c1frica em ebuli\u00e7\u00e3o. Terminavam sempre com o envio de abra\u00e7os para o Serrano, Ab\u00edlio, Rui Mendes e para toda a malta.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00abQuero a\u00ed chegar a tempo de mandar rufar os tambores que para o efeito tenho ensaiados e ouvir o coro que ressuscitar\u00e1 o L\u00e1zaro do seu t\u00famulo\u00bb, escrevia ele em Mar\u00e7o de 1965. E veio, pois em 1967 acabou por ser expulso de Mo\u00e7ambique por v\u00e1rios problemas com a administra\u00e7\u00e3o colonial.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Volta e vai para Set\u00fabal. Manda-me cassetes com as \u00faltimas m\u00fasicas. Vou at\u00e9 Set\u00fabal, de vez em quando, ficando aboletado na casa dele, na Quinta do Montalv\u00e3o, lote 5-2.\u00ba esquerdo, com a Z\u00e9lia e j\u00e1 com a sua terceira filha, a Joana, muito pequenita.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mais dois LP e muitos espect\u00e1culos &#8211; Almada, Barreiro, Seixal, Vila Franca, Marinha Grande, etc., sempre casas cheias de gente de oposi\u00e7\u00e3o ao regime da altura, muitos oper\u00e1rios e estudantes, a PIDE a pairar e, por vezes, a intervir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Entretanto, junta-se a n\u00f3s o Adriano, o Manuel Freire, o Fanhais e outros que n\u00e3o me recordo. \u00c9 bastante dif\u00edcil avaliar o impacte que o contacto com figuras como o Zeca, o Adriano, o Ant\u00f3nio Portugal, entre os 16 e os 20 e poucos anos, tem na forma\u00e7\u00e3o da personalidade de um adolescente. Nessa altura, eu n\u00e3o tinha a no\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o humana e intelectual desses amigos. O meu desgosto \u00e9 ter tido uma fortuna enorme em ter amigos desse quilate e, na altura, sem a no\u00e7\u00e3o desse valor, n\u00e3o ter agarrado cada momento, deixando at\u00e9, por vezes, que a mem\u00f3ria me falhe e tantos momentos bonitos e ricos se percam.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A partir de 1968, devido \u00e0 minha situa\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica e \u00e0 impossibilidade de o acompanhar ao estrangeiro para as grava\u00e7\u00f5es, deixo de ser o acompanhante habitual. Felizmente para o Zeca, pois assim conhece o Igl\u00e9sias e o B\u00f3ris (Carlos Correia) que tocavam bastante melhor do que eu. Passo a v\u00ea-lo menos vezes, mas sempre que posso estou com ele para o acompanhar ou s\u00f3 para o ouvir. A \u00faltima vez que pego numa viola ao seu lado e a seu pedido, foi no c\u00e9lebre espect\u00e1culo do Coliseu, pouco antes da sua morte.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Rui Pato<\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci o Zeca nos meus 16 anos, tinha ele 33, j\u00e1 licenciado em Letras, a leccionar em Mangualde, mas aproveitando todas as folgas para vir a Coimbra, ansioso por mostrar aos amigos as suas \u00faltimas baladas. 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