{"id":6924,"date":"2006-02-10T11:28:00","date_gmt":"2006-02-10T11:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6924"},"modified":"2021-12-17T11:41:12","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:12","slug":"jose-afonso-de-coimbra-ate-ao-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-de-coimbra-ate-ao-sul\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso: De Coimbra at\u00e9 ao Sul"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">A voz que guardo dentro de mim n\u00e3o est\u00e1 gravada em nenhum disco: anda a cantar \u00abcontos velhinhos de amor, numa noite branca e fria\u00bb, algures, em Coimbra.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Foi assim que conheci Jos\u00e9 Afonso, num Inverno de h\u00e1 muitos anos. Ainda se faziam serenatas, as raparigas agradeciam acendendo e apagando a luz tr\u00eas vezes e n\u00f3s viaj\u00e1vamos pela noite dentro, \u00abb\u00eabados de coisas inextric\u00e1veis\u00bb, como escrevia ent\u00e3o Herberto Helder. J\u00e1 a voz do Jos\u00e9 Afonso anunciava outras trovas, mas naquele tempo a Acad\u00e9mica era ainda (foi-o sempre) a nossa dama, por ela sofr\u00edamos aos domingos no Calhab\u00e9 ou nos campos do Pa\u00eds onde cheg\u00e1vamos \u00e0 boleia, de capa e moca, e sem um tost\u00e3o no bolso. At\u00e9 que um dia o Zeca resolveu partir para Marrocos. Conseguimos apanh\u00e1-lo a tempo, gra\u00e7as a uns ciganos nossos amigos. Mas a tenta\u00e7\u00e3o do Sul j\u00e1 estava dentro dele. Ou talvez daquele azul de que fala Mallarm\u00e9 e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espa\u00e7o do Ver\u00e3o, Alentejo, Algarve, a plan\u00edcie, as areias e o mar. \u00c9 preciso dizer que nessa altura j\u00e1 ele era distra\u00eddo (n\u00f3s diz\u00edamos despistado). Uma noite estava a jantar em minha casa e de repente deu um salto na cadeira: onde \u00e9 que deixei o meu filho? E l\u00e1 fomos \u00e0 procura. Mas o mi\u00fado, habituado aos despistan\u00e7os do pai, tinha ido tranquilamente do est\u00e1dio para casa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">T\u00ednhamos ent\u00e3o grandes discuss\u00f5es. Eu j\u00e1 andava na milit\u00e2ncia pol\u00edtica, o Zeca era, havia de ser sempre, um libert\u00e1rio em estado quase puro. Ainda se debatia a quest\u00e3o da arte e do empenhamento social e pol\u00edtico do artista.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Teoricamente o Zeca era contra, mas as coisas foram mudando e quase sem darmos por isso todos nos fomos comprometendo cada vez mais. Foi primeiro o Decreto 40 900, contra a autonomia das associa\u00e7\u00f5es e a resposta estudantil, com uma grande manifesta\u00e7\u00e3o em Coimbra. E depois 1958, o general Delgado e aquele vendaval que varreu o Pa\u00eds de l\u00e9s a l\u00e9s. Ent\u00e3o o Zeca quis pegar em armas. Mas como?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tivemos que recorrer \u00e0s que t\u00ednhamos \u00e0 m\u00e3o: a poesia, a guitarra, o canto. A guitarra do Ant\u00f3nio Portugal tornou-se de repente mais nervosa, experimentando novos ritmos e disson\u00e2ncias, e o Zeca aparece a trautear melodias estranhas. At\u00e9 que saiu a \u00abBalada do Outono\u00bb. Foi uma ilumina\u00e7\u00e3o. Assim como alguns poemas aparecem feitos, tamb\u00e9m aquela balada dava a impress\u00e3o de ter estado sempre ali e de ter sido colhida no ar num dos momentos de distrac\u00e7\u00e3o concentrada do Zeca. A can\u00e7\u00e3o de Coimbra n\u00e3o voltaria a ser a mesma, a m\u00fasica ligeira portuguesa tamb\u00e9m n\u00e3o. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradi\u00e7\u00e3o trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E tamb\u00e9m o esp\u00edrito de um tempo de mudan\u00e7a.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Entretanto o Zeca partia para o Sul. E eu para Angola. Reencontr\u00e1mo-nos no in\u00edcio de 1964, numa festa de recep\u00e7\u00e3o aos caloiros da Faculdade de Medicina no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Tinha eu acabado de regressar da pris\u00e3o em Angola, estava com resid\u00eancia fixa em Coimbra, mas vim sem pedir licen\u00e7a.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Traz\u00edamos a \u00abTrova do Vento Que Passa\u00bb. Cantou-a primeiro o Adriano, a seguir o Zeca, depois ambos. E acab\u00e1mos em coro, na rua. Era assim, naquele tempo. As trovas e baladas tinham o ritmo da nossa inquieta\u00e7\u00e3o, de uma luta, da nossa vida. E vieram o \u00abMenino do Bairro Negro\u00bb, \u00abOs Vampiros\u00bb, \u00abO Coro dos Ca\u00eddos\u00bb. O Sul entraria na m\u00fasica do Zeca com o seu \u00abPastor de Bensafrim\u00bb, o seu \u00abSol de Ver\u00e3o\u00bb, Catarina, o Alentejo, a cigarra, o sil\u00eancio, o grande espa\u00e7o, a sombra de uma azinheira e o calor da fraternidade. E depois a \u00c1frica, seus ritmos e seus tambores, na fase da maturidade. Vieram os ex\u00edlios, as longas separa\u00e7\u00f5es, as pequenas e grandes batalhas, o 25 de Abril, encontros, desencontros, reencontros. E a voz do Zeca sempre, a avisar e animar a malta. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Como os proven\u00e7ais da \u00e9poca de oiro, cuja li\u00e7\u00e3o Ezra Pound t\u00e3o bem captou, Jos\u00e9 Afonso foi um grande trovador moderno, ligando de novo a poesia e a m\u00fasica. Desse modo renovou uma e outra e contribuiu para mudar a pr\u00f3pria vida, como queria Rimbaud.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Foi um homem fraterno, despojado, por vezes at\u00e9 ao exagero. Mas era assim: um revolucion\u00e1rio franciscano, como lhe chamei, irritado por vezes com o seu desprendimento de tudo e de si mesmo. Talvez as sociedades n\u00e3o consigam suportar a for\u00e7a subversiva de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tantas vezes censurado. Por isso continua simultaneamente a encantar e a incomodar. Eu sei que gostariam de transform\u00e1-lo em \u00e1libi ou torn\u00e1-lo inofensivo depois de morto. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. A sua voz est\u00e1 t\u00e3o cheia de ternura que ser\u00e1 irremediavelmente subversiva.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Como disse Ant\u00f3nio Portugal: \u00abUm homem cuja voz foi a nossa voz durante muitos anos e que ajudou a tomar poss\u00edvel o nosso encontro colectivo com uma identidade perdida e com um destino que hoje orgulhosamente assumimos.\u00bb<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Talvez seja isso o que uns tantos n\u00e3o conseguem perdoar-lhe. Mas \u00e9 com certeza por isso que ele continua a ser a nossa voz.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Manuel Alegre<\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voz que guardo dentro de mim n\u00e3o est\u00e1 gravada em nenhum disco: anda a cantar \u00abcontos velhinhos de amor, numa noite branca e fria\u00bb, algures, em Coimbra. Foi assim que conheci Jos\u00e9 Afonso, num Inverno de h\u00e1 muitos anos. 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