{"id":6922,"date":"2006-02-08T09:58:00","date_gmt":"2006-02-08T09:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6922"},"modified":"2021-12-17T11:41:12","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:12","slug":"o-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-homem\/","title":{"rendered":"O Homem"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tinha mais de seis anos. Era um Ver\u00e3o qualquer de meados de 60. T\u00ednhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas \u2014 acabam de me recordar as minhas queridas irm\u00e3s. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petr\u00f3leo. Eu vinha da \u00e1gua roxo, depois de horas incans\u00e1veis a mergulhar das pontes, com a Irm\u00e3 Mais Nova. Eu n\u00e3o sabia nadar bem, mas usava bra\u00e7adeiras insufl\u00e1veis e com elas aventurava-me fosse para onde fosse, mesmo sem p\u00e9. \u00c0 noite, depois do jantar, ouv\u00edamos m\u00fasica. Otis Redding. Charles Aznavour. Coisas que os adolescentes da altura (os meus irm\u00e3os e primos) ouviam. E tamb\u00e9m Adriano Correia de Oliveira. E Zeca Afonso.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a minha primeira recorda\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso. Uns anos mais tarde, mas n\u00e3o muitos, lembro-me de estarmos na sala de estar e alguem toca \u00e0 campa\u00ednha (coisa comum, viv\u00edamos numa pens\u00e3o). Subitamente o meu irm\u00e3o corre a tirar do prato do gira-discos o 33 rota\u00e7\u00f5es que est\u00e1vamos a ouvir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Recordo-me lindamente da capa. Que n\u00e3o da m\u00fasica: eu teria uns 8, 9 anos. Perante o sururu, devo ter feito uma pergunta de puto e deram-me uma resposta b\u00e1sica, para puto entender: havia coisas que n\u00e3o se podiam ouvir, eram proibidas pela pol\u00edcia, pela PIDE, e aquela era uma delas. Os porqu\u00eas eram demasiado complexos para mim, muito puto. Mas aquilo encaixava em duas coisas: eu n\u00e3o gostar de pol\u00edcias, porque o pol\u00edcia de giro parava sempre os nossos jogos de bola na rua, e j\u00e1 ter ouvido nas conversas da tasca (t\u00ednhamos uma &#8220;casa de pasto&#8221; abaixo da pens\u00e3o, \u00e9 hoje um bar na famosa Rua do Crime, em Faro, que na realidade, ir\u00f3nica, se chama Rua do Prior) que havia um viajante (pens\u00e3o e tasca eram frequentados sobretudo pelos caixeiros viajantes) que era informador da PIDE, fosse l\u00e1 isso o que fosse, e o meu pai tinha ido responder qualquer coisa \u00e0 PIDE uma vez. O meu pai era um homem absolutamente de Direita e cumpridor, embora houvesse coisas do Salazar que ele n\u00e3o gostava muito: n\u00e3o imagino porque ter\u00e1 l\u00e1 ido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A minha Irm\u00e3 Mais Velha foi aluna do Jos\u00e9 Afonso em Faro, onde ele deu aulas. O meu Irm\u00e3o tamb\u00e9m. Na ent\u00e3o chamada Escola Industrial e Comercial de Faro. Ela recorda-se de um \u00abmau professor, que faltava muito e era despistado. N\u00e3o seguia o programa, falava de outras coisas\u00bb. Certo e sabido era que por alturas de Abril ele ia faltar, pelo menos um m\u00eas. Os alunos sabiam porqu\u00ea, recorda essa minha Irm\u00e3: \u00abcom o aproximar do 1\u00ba de Maio, a PIDE ia l\u00e1 e engaiol\u00e1va-o durante um m\u00eas\u00bb.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O meu Irm\u00e3o n\u00e3o partilha da mesma opini\u00e3o dele como professor, talvez por ser j\u00e1 na altura mais politizado e, digamos, avan\u00e7ado que ela. Quando deix\u00e1mos a Pens\u00e3o Mirense (onde nasci) que foi a seguir pens\u00e3o de putas e mais tarde o primeiro Lar de Estudantes da Associa\u00e7\u00e3o da Universidade do Algarve (est\u00e1 \u00e0 venda, decr\u00e9pita, fica por cima do bar Ovelha Negra), surripiei a colec\u00e7\u00e3o &#8220;Vida Mundial&#8221;, onde ele se informava na altura. (Ainda tenho a capa do Homem na Lua.) Ontem o meu Irm\u00e3o recordava, com alguma emo\u00e7\u00e3o, como o professor \u00abusava os sapatos desatados\u00bb. E \u00abfaltava para ir fazer as grava\u00e7\u00f5es em Fran\u00e7a\u00bb.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Eu conheci Jos\u00e9 Afonso em circunst\u00e2ncias muito diferentes. Muitos discos, pris\u00f5es, revolu\u00e7\u00f5es depois. Em 1985\/86. Conheci-o em circunst\u00e2ncias no m\u00ednimo estranhas, num apartamento em Faro, na presen\u00e7a do ent\u00e3o director do Tal &amp; Qual, Jos\u00e9 Rocha Vieira, e do meu camarada jornalista Francisco Rosa, que tinha uma Dyane onde o Guilherme Silva Pereira fazia o Gagarine (sair por uma janela, passar pelo tecto e entrar pela janela oposta \u2014 em andamento). O Guilherme foi depois capa do Tal &amp; Qual por causa duma cena qualquer. Era (acho que ainda \u00e9) uma figura controversa&#8230; <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Z\u00e9lia acompanhava Jos\u00e9 Afonso. Era um homem doente. Ajud\u00e1vamo-lo a andar pegando-lhe por debaixo dos sovacos. Tinha um olhar absolutamente sereno. Conversava com brilho. Em voz pausada, por causa do esfor\u00e7o. Mas com intelig\u00eancia e perspic\u00e1cia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dias depois visitei-o na casa de Azeit\u00e3o. Conversas soltas. Eu era personagem secund\u00e1ria no cen\u00e1rio. Lembro-me das estantes vergadas com o peso de centenas de livros. Conheci a Joana Afonso, filha dele (que entrevistei mais tarde para um pasquim chamado &#8220;O Rebelde&#8221; que foi percursor das revistas para adolescentes).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Lembro-me de um homem admiravelmente consciente da proximidade da morte e ainda assim um homem sereno, tranquilo. Forte. Estar junto de Jos\u00e9 Afonso era estar mergulhado numa paz activa, estimulante. Quando falava era um s\u00e1bio. \u00c9 essa a imagem que retenho dele: uma pessoa s\u00e1bia, consciente das realidades do mundo, nada interessado em falar dele ou da doen\u00e7a, mas sim da actualidade. Com not\u00e1vel perspic\u00e1cia, algum humor e um belo poder de antecipa\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias sociais e pol\u00edticas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O Jos\u00e9 Afonso que eu conheci n\u00e3o \u00e9 o Zeca Afonso comunista, n\u00e3o \u00e9 o Zeca Afonso perigoso revolucion\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 o Zeca Afonso maldito, aparentemente malquisto e inc\u00f3modo, at\u00e9 hoje, \u00e0 Esquerda e aos partidos que ajudou dando a cara por eles, mesmo que n\u00e3o lhes pertencesse (o Jos\u00e9 Afonso nunca pertenceu a nada sen\u00e3o \u00e0 cultura portuguesa e ao povo portugu\u00eas). Era uma pessoa que dava gosto conhecer, com quem dava gosto estar e conversar. Um pessoa de bom fundo e car\u00e1cter vincado com opini\u00f5es s\u00e1bias e nada extremas, bem pelo contr\u00e1rio.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Este &#8220;meu&#8221; Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o tem tamb\u00e9m nada a ver com a &#8220;malta de Esquerda&#8221; desses tempos que, em per\u00edodo final do cavaquismo, desistiu de lutar pelos seus ideiais. O capital \u00e9 mais forte, desisto: onde est\u00e1 o bom emprego, onde posso ir beber uns copos? O &#8220;meu&#8221; Jos\u00e9 Afonso, n\u00e3o fora a doen\u00e7a, teria continuado a lutar pelos seus ideais noutro palco. Um palco qualquer. Um palco onde ele fosse preciso. H\u00e1 menos de um ano tive o grato prazer de conhecer alguns dos que n\u00e3o desistiram. Continuam a luta nos foruns pris\u00f5es, associa\u00e7\u00f5es, escolas, etc a defender os direitos individuais, a sensibilizar e educar as pessoas nos seus direitos e deveres. Quando conheci o Ant\u00f3nio Pedro Dores lembrei-me do Jos\u00e9 Afonso e de pensar: \u00e9 a mesma for\u00e7a. H\u00e1 gente que n\u00e3o desiste de ser melhor e fazer os outros melhores. Ainda bem.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Paulo Querido<\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o tinha mais de seis anos. Era um Ver\u00e3o qualquer de meados de 60. T\u00ednhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas \u2014 acabam de me recordar as minhas queridas irm\u00e3s. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petr\u00f3leo. 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