{"id":6865,"date":"2005-09-15T07:06:00","date_gmt":"2005-09-15T07:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=6865"},"modified":"2021-12-17T11:41:23","modified_gmt":"2021-12-17T11:41:23","slug":"menina-dos-olhos-tristes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/menina-dos-olhos-tristes\/","title":{"rendered":"Menina dos olhos tristes"},"content":{"rendered":"<p>Retirado do blog http:\/\/guitarradecoimbra.blogspot.com (Blog mantido por Oct\u00e1vio S\u00e9rgio, guitarrista de Coimbra que acompanhou in\u00fameras vezes Jos\u00e9 Afonso)<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/6011\/903\/400\/AN%20Menina%20dos%20olhos%20tristes1.jpg\" \/><br \/>MENINA DOS OLHOS TRISTES<br \/>(vers\u00e3o fonogr\u00e1fica de Jos\u00e9 Afonso)<\/p>\n<p>M\u00fasica: Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, dito Jos\u00e9 Afonso (1929-1987)<br \/>Letra: Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, dito Reinaldo Fereira ((1922-1959)<br \/>Incipit: Menina dos Olhos Tristes<br \/>Origem: Algarve (Faro)<br \/>Data: ca. 1962-1963 <\/p>\n<p>Menina dos Olhos Tristes,<br \/>O que tanto a faz chorar?<br \/>-O soldadinho n\u00e3o volta<br \/>Do outro lado do mar.<\/p>\n<p>Senhora de olhos cansados,<br \/>Porque a fatiga o tear?<br \/>-O soldadinho n\u00e3o volta<br \/>Do outro lado do mar.<\/p>\n<p>Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum<br \/>Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum<\/p>\n<p>Vamos, senhor pensativo,<br \/>Olhe o cachimbo a apagar,<br \/>-O soldadinho n\u00e3o volta<br \/>Do outro lado do mar.<\/p>\n<p>Anda bem triste um amigo,<br \/>Uma carta o fez chorar.<br \/>-O soldadinho n\u00e3o volta<br \/>Do outro lado do mar.<\/p>\n<p>Hum-Hum, etc.<\/p>\n<p>A Lua que \u00e9 viajante,<br \/>\u00c9 que nos pode informar<br \/>-O soldadinho n\u00e3o volta<br \/>Do outro lado do mar.<\/p>\n<p>O soldadinho j\u00e1 volta,<br \/>Est\u00e1 quase mesmo a chegar.<br \/>Vem numa caixa de pinho.<br \/>Desta vez o soldadinho<br \/>Nunca mais se faz ao mar.<\/p>\n<p>Hum-Hum, etc.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Cantam-se as quadras duas a duas, como se fossem oitavas, sem qualquer repeti\u00e7\u00e3o de versos ou de d\u00edsticos. Remata-se cada grupo com um trauteio (Hum-Hum) que serve de coro, a duas vozes. Segue-se o mesmo esquema no grupo final, com a 5\u00aa estrofe (quadra) e a 6\u00aa que \u00e9 uma quintilha.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Can\u00e7\u00e3o musical de tipo estr\u00f3fico, ilustrativa do Movimento da Balada, em compasso 6\/8 e tom de Mi Menor, de melodia muito sentimental, como que a ilustrar o choro dos mortos regressados das frentes de combate em Angola, Guin\u00e9 e Mo\u00e7ambique durante a Guerra Colonial (1961-1974). A 6\u00aa estrofe (&#8220;O soldadinho j\u00e1 volta&#8221;) enforma mesmo de alguma morbidez na vocaliza\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso. O coro adquire uma colora\u00e7\u00e3o fun\u00e9rea.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Afonso gravou esta can\u00e7\u00e3o pela primeira vez em 1969, com um not\u00e1vel arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola nylon: EP &#8220;Menina dos Olhos Tristes&#8221;, Porto, Orfeu, STAT-803, ano de 1969. Remasteriza\u00e7\u00e3o no CD &#8220;Jos\u00e9 Afonso. De Capa e Batina&#8221;, Lisboa, Movieplay JA 8000, ano de 1996, Faixa n\u00ba 9. O livreto transcreve o poema, mas n\u00e3o exactamente como Jos\u00e9 Afonso o canta. Jos\u00e9 Afonso segue uma dic\u00e7\u00e3o escorreita, apenas adulterando no 2\u00ba verso da 3\u00aa quadra &#8220;Olhe&#8221; para &#8220;\u00d3lh\u00f3&#8221;, proeza not\u00e1vel num cantor que raramente respeitava a tra\u00e7a original dos textos alheios.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esta can\u00e7\u00e3o surge primeiramente fonografada por Adriano Correia de Oliveira, acompanhado na viola nylon por Rui Pato, em 1964. Adriano n\u00e3o respeita a sequ\u00eancia das estrofes, adultera a quintilha final e segue um trauteio diferente do adoptado por Jos\u00e9 Afonso. Altera a ordem das coplas, cantando a 3\u00aa como se fosse a 2\u00aa. Consultado sobre estas discrep\u00e2ncias, Rui Pato sugere que a vers\u00e3o Adriano se encontra mais pr\u00f3xima da composi\u00e7\u00e3o primitiva. Postas as coisas nestes termos, admitimos que Jos\u00e9 Afonso tenha corrigido e aperfei\u00e7oado a sua composi\u00e7\u00e3o com vista a uma vers\u00e3o definitiva que \u00e9 a de 1969, tal qual a transcrevemos. Importa anotar que entre 1960-1964 Adriano gravou diversas obras ainda em fase de elabora\u00e7\u00e3o (de Jos\u00e9 Afonso e de Machado Soares), cujas vers\u00f5es ultimadas divergem das a\u00e7odadas incurs\u00f5es de Adriano. Exemplificam estas situa\u00e7\u00f5es pe\u00e7as como Can\u00e7\u00e3o Vai e Vem (cf. diferen\u00e7as com Balada da Esperan\u00e7a), Senhora Partem T\u00e3o tristes (cf. registo de Fernando Gomes Alves), ou at\u00e9 mesmo adultera\u00e7\u00f5es intencionais de obras de autor como a Can\u00e7\u00e3o dos Malmequeres (de Ant\u00f3nio Menano), passada a Balada do Estudante. Como \u00e9 sabido, Jos\u00e9 Afonso radicou-se em Mo\u00e7ambique nos finais de Setembro de 1964, e talvez por isso mesmo n\u00e3o tenha ent\u00e3o gravado a can\u00e7\u00e3o de sua autoria, abrindo assim a porta \u00e0 vers\u00e3o Adriano.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Transcrevemos seguidamente o texto cantado por Adriano Correia de Oliveira:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Menina dos olhos tristes,<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O que tanto a faz chorar?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O soldainho n\u00e3o volta<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Do outro lado do mar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hum-Hum-Hum; Hum-.Hum; Hum-Hum<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Vamos, senhor pensativo,<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Olhe o cachimbo a apagar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O soldadinho n\u00e3o volta<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Do outro lado do mar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hum-Hum, etc.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Senhora de olhos cansados<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Porque a fatiga o tear?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O soldadinho n\u00e3o volta<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Do outro lado do mar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hum-Hum, etc.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Anda bem triste um amigo,<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma carta o fez chorar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O soldadinho n\u00e3o volta<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Do outro lado do mar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hum-Hum, etc.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A lua que \u00e9 viajante,<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que nos pode informar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O soldadinho &#8220;j\u00e1 volta&#8221;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&#8220;Est\u00e1 quase mesmo a chegar&#8221;.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hum-Hum, etc.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vem numa caixa de pinho.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nunca mais se faz ao mar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Do outro lado do mar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desta vez o soldadinho<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nunca mais se faz ao mar&#8221;.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hum-Hum, etc.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Coteje-se a letra interpretada por Adriano com a transcri\u00e7\u00e3o presente em M\u00e1rio Correia, &#8220;Adriano Correia de Oliveira. Vida e Obra&#8221;, Coimbra, Centelha, 1987, p\u00e1g. 103, pois na referida biografia consta apenas o poema integral original. Primeiro registo vinil presente no EP &#8220;Menina dos Olhos Tristes&#8221;, Porto, Orfeu, EP-ATEP 6275, ano de 1964, com arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola de cordas de nylon. Fez-se outra edi\u00e7\u00e3o no LP &#8220;Adriano Correia de Oliveira&#8221;, LP-SB, ano de 1964; remasteriza\u00e7\u00e3o no duplo Lp vinil &#8220;Mem\u00f3ria de Adriano Correia de Oliveira&#8221;, Porto, Orfeu\/Riso e Ritmo Discos, ano de 1982, Disco 1, Face B, faixa 5. Na referida reedi\u00e7\u00e3o constam as autorias correctas mas omitem-se o ano da grava\u00e7\u00e3o e o instrumentista. Remasteriza\u00e7\u00e3o compact disc na antologia &#8220;Adriano. Obra Completa&#8221;, Lisboa, Movieplay\/Orfeu 35.003, ano de 1994 (CD &#8220;A Noite dos Poetas&#8221;, Orfeu 35.010, 1994, faixa 1), cuja coordena\u00e7\u00e3o esteva a cargo de Jos\u00e9 Niza. Neste caso omite-se a data da primeira grava\u00e7\u00e3o, mas identifica-se Rui Pato como instrumentista e arranjista.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Quanto ao autor da letra, Reinaldo Ferreira, ou melhor, Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, nasceu em Barcelona pelos idos de 20 de Mar\u00e7o de 1922. Veio a falecer de cancro pulmonar em Louren\u00e7o Marques, Mo\u00e7ambique, em 30 de Junho de 1959. Era filho do famoso jornalista e romancista policial &#8220;Rep\u00f3rter X&#8221;. Radicou-se em Louren\u00e7o Marques (Maputo) em 1941, cidade onde terminou os estudos liceais. Trabalhou como funcion\u00e1rio p\u00fablico e animador de programas radiof\u00f3nicos na R\u00e1dio Clube de Mo\u00e7ambique. Adoeceu em 1958 e ap\u00f3s tentativa infrut\u00edfera de tratamente na \u00c1frica do Sul, faleceu em 1959. Era de sua autoria o delicioso e muito conservador texto &#8220;Uma casa portuguesa&#8221;, gravado em disco por Am\u00e1lia Rodrigues. Autor de poemas bel\u00edssimos, a obra de Ferreira, &#8220;Poemas&#8221;, foi editada em 1960 na cidade de Louren\u00e7o Marques, em 1962 na Portug\u00e1lia (com pref\u00e1cio de Jos\u00e9 R\u00e9gio) e em 1998 na Vega. Ignoramos em que data Ferreira comp\u00f4s a sua linda e triste Menina, sendo de aceitar que tivesse por horizonte a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mas nunca a Guerra Colonial que n\u00e3o chegou a conhecer. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabemos quando e em que circunst\u00e2ncias Jos\u00e9 Afonso acedeu ao poema. Pode ter conhecido uma vers\u00e3o em manuscrito ou de p\u00e1gina de jornal nas suas idas a Mo\u00e7ambique em 1949 (Orfeon), 1956 (TAUC), 1958 (TAUC a Angola) e 1960 (Orfeon a Angola). O mais certo \u00e9 que tenha adquirido a edi\u00e7\u00e3o lisboeta de 1962, ligada ao nome de Jos\u00e9 R\u00e9gio. A Guerra Colonial tinha rebentado no ano anterior em Luanda (04\/02\/1961) e estava na mem\u00f3ria a Opera\u00e7\u00e3o Dulcineia (assalto ao Santa Maria, 21\/01\/1961).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esta can\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o mereceu qualquer trabalho de regrava\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 1974 junto das vozes juvenis e respectivas forma\u00e7\u00f5es activas em Coimbra. Eis um Jos\u00e9 Afonso timidamente recuperado e ternamente &#8220;perdoado&#8221; pelas alas conservantistas da CC, o mesmo n\u00e3o se podendo afirmar quanto \u00e0 heran\u00e7a de Adriano. A\u00ed a m\u00fasica \u00e9 outra&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Para saber mais sobre o poeta Reinaldo Ferreira consulte htt:\/\/alfarrabio.um.geira.pt\/reinaldo\/index.html<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Transcri\u00e7\u00e3o musical de Oct\u00e1vio S\u00e9rgio; pesquisa documental e texto de Ant\u00f3nio M. Nunes<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retirado do blog http:\/\/guitarradecoimbra.blogspot.com (Blog mantido por Oct\u00e1vio S\u00e9rgio, guitarrista de Coimbra que acompanhou in\u00fameras vezes Jos\u00e9 Afonso) MENINA DOS OLHOS TRISTES(vers\u00e3o fonogr\u00e1fica de Jos\u00e9 Afonso) M\u00fasica: Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, dito Jos\u00e9 Afonso (1929-1987)Letra: Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, dito Reinaldo Fereira ((1922-1959)Incipit: Menina dos Olhos TristesOrigem: Algarve (Faro)Data: ca. 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