{"id":41864,"date":"2007-02-27T18:35:00","date_gmt":"2007-02-27T18:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=41864"},"modified":"2022-11-27T18:36:44","modified_gmt":"2022-11-27T18:36:44","slug":"pai-o-zeca-morreu-esta-noite-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/pai-o-zeca-morreu-esta-noite-2\/","title":{"rendered":"&#8220;Pai, o Zeca morreu esta noite&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Para os mais velhos, os que em 1974 eram adultos, o dia em que Zeca Afonso morreu \u00e9 um dia preciso. Lembram-se onde estavam e como souberam da not\u00edcia. Hoje, j\u00e1 se conseguem rir<\/p>\n\n\n\n<p>a Apesar de ter sido amigo de Zeca Afonso, de terem frequentado a mesma tert\u00falia em Coimbra, cidade que o m\u00fasico dizia ser um &#8220;caramujo&#8221; (&#8220;para onde quer que se v\u00e1, vai-se sempre ter \u00e0 torre da universidade&#8221;), Ab\u00edlio Hernandez (acima dos 60), professor da universidade, hesitou muito antes de aceitar o convite da Almedina Est\u00e1dio &#8211; a livraria foi das poucas, se n\u00e3o a \u00fanica, a organizar em Coimbra uma homenagem a Zeca Afonso nos 20 anos da sua morte (23 de Fevereiro de 1987).E Hernandez hesitou porque &#8220;tinha receio que estivesse muito pouca gente, que estivessem s\u00f3 velhos, e que fosse uma romagem de saudade&#8221;. Mas esteve muita gente na livraria de Coimbra, no s\u00e1bado \u00e0 noite. Jovens, de facto, apenas alguns.<br>Os jovens n\u00e3o ouvem Zeca Afonso? &#8220;\u00c9 um cantautor muito conotado e \u00e9 isso que faz com que n\u00e3o passe nas r\u00e1dios. O Zeca \u00e9 objectivamente censurado, apesar de hoje vivermos em liberdade&#8221;, diz Jos\u00e9 Jorge Letria (56 anos), tamb\u00e9m amigo de Zeca Afonso. Mas o m\u00fasico acredita que os jovens &#8220;j\u00e1 se libertaram desse estigma&#8221;.<br>Para a gera\u00e7\u00e3o que dominou a tert\u00falia de s\u00e1bado, a gera\u00e7\u00e3o que viveu o 25 de Abril j\u00e1 adulta, Zeca Afonso \u00e9 uma das figuras art\u00edsticas mais importantes do s\u00e9culo XX em Portugal. &#8220;Est\u00e1 para a m\u00fasica portuguesa como Jobim est\u00e1 para a brasileira&#8221;, diz Rui Pato (61), m\u00fasico que tocou com Zeca Afonso.<br>Sentados \u00e0 mesa, a desfiar mem\u00f3rias, a maior parte das vezes humor\u00edsticas, estiveram outros m\u00fasicos que acompanharam Zeca, como Carlos Correia (tamb\u00e9m acima dos 60), figuras da resist\u00eancia que actuaram com ele, como Manuel Freire (65 anos) e Jos\u00e9 Jorge Letria, e antigos estudantes de Coimbra que tamb\u00e9m conheceram Zeca, como Jos\u00e9 Mesquita (mais de 70 anos) e Ab\u00edlio Hernandez.<br>Carruagem 3, lugar 7<br>Boa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o faltou. Falou-se do amor de Zeca Afonso ao judo e de como &#8220;estatelava&#8221; colegas no ch\u00e3o. &#8220;O Zeca era uma pessoa muito divertida. Tinha muitas obsess\u00f5es. Uma delas era o judo, j\u00e1 era um perigoso cintur\u00e3o amarelo. Quando fomos a Londres, o Zeca fazia os ensaios de judo no corredor do hotel vitoriano. As outras obsess\u00f5es eram a m\u00fasica e a luta contra a ditadura&#8221;, contou Carlos Correia.<br>Rui Pato confidenciou \u00e0 plateia como eram feitos os primeiros discos de Zeca Afonso: &#8220;Se eu vos disser, n\u00e3o acreditam. Vinha uma 4L com material do Porto. Lev\u00e1vamos uma carta dos senhorios para os caseiros analfabetos lerem, com autoriza\u00e7\u00e3o para gravar na quinta [a quinta do Mosteiro de S. Jorge de Milreu, actualmente propriedade da Universidade Vasco da Gama]. Est\u00e1vamos em 1962 e, quando nos engan\u00e1vamos, volt\u00e1vamos ao princ\u00edpio. Se passasse um carro, se se ouvisse uma galinha, voltava tudo ao in\u00edcio&#8221;. Durante muito tempo viajou &#8220;de borla&#8221; nos comboios de Portugal. Recebia postais de Zeca Afonso a combinar a hora, o dia e o s\u00edtio do ensaio. &#8220;Trate de preparar os dedos&#8221;, escrevia-lhe Zeca. Rui Pato levava sempre a viola, mesmo que n\u00e3o precisasse dela. &#8220;Punha-me na esta\u00e7\u00e3o e vinha um senhor ter comigo e perguntava-me: &#8220;\u00c9 o camarada Rui Pato? Carruagem 3, lugar 7.&#8221; E l\u00e1 ia eu.&#8221; No meio de tudo isto, Rui Pato nem se apercebeu que estava a viver &#8220;um momento hist\u00f3rico da m\u00fasica portuguesa&#8221;.<br>A plateia riu quase sempre. S\u00f3 quando se ouviu Menina dos olhos tristes se fez sil\u00eancio. Quando se come\u00e7aram a ouvir os acordes do \u00faltimo espect\u00e1culo de Zeca Afonso na Queima das Fitas de Coimbra, em 1968, a sala mergulhou em tristeza. A grava\u00e7\u00e3o foi disponibilizada por Jos\u00e9 Mesquita, que sublinhou a import\u00e2ncia de Zeca Afonso no fado de Coimbra.<br>&#8220;O Zeca era um grande poeta, indiscutivelmente&#8221;, defende Ab\u00edlio Hernandez. &#8220;Era bom que se estudasse a poesia do Zeca, porque a sua l\u00edrica tem sido menosprezada, como se fosse apenas um ve\u00edculo para transmitir um sentimento de resist\u00eancia, que est\u00e1 na sua m\u00fasica. Mas o Zeca foi as duas coisas: m\u00fasico e poeta.&#8221;<br>Contou Manuel Freire que, um dia, quando vinha do Canad\u00e1, encontrou o escritor M\u00e1rio Zambujal e o m\u00fasico Paulo de Carvalho no avi\u00e3o e perguntou-lhes por Zeca Afonso. Zambujal lamentou: &#8220;Acho que n\u00e3o se safa.&#8221; Manuel Freire tinha tido um acidente grave e, como a viagem fora atribulada e o avi\u00e3o desviado para Faro, mal p\u00f4de ligou \u00e0 fam\u00edlia para dizer que estava bem. Do outro lado, a filha mais velha respondeu apenas: &#8220;Pai, o Zeca morreu esta noite.&#8221; Passados 20 anos, os amigos do m\u00fasico acreditam que a &#8220;mem\u00f3ria do Zeca&#8221; se vai projectar sempre &#8220;no futuro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2007\/02\/26\/jornal\/pai-o-zeca-morreu-esta-noite-138084\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Maria Jo\u00e3o Lopes, in Jornal P\u00fablico, 26.2.2017<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os mais velhos, os que em 1974 eram adultos, o dia em que Zeca Afonso morreu \u00e9 um dia preciso. Lembram-se onde estavam e como souberam da not\u00edcia. Hoje, j\u00e1 se conseguem rir a Apesar de ter sido amigo de Zeca Afonso, de terem frequentado a mesma tert\u00falia em Coimbra, cidade que o m\u00fasico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[91,77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41864"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41864"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41864\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41865,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41864\/revisions\/41865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}