{"id":41834,"date":"2006-02-27T18:04:00","date_gmt":"2006-02-27T18:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=41834"},"modified":"2022-11-27T18:22:45","modified_gmt":"2022-11-27T18:22:45","slug":"o-zeca-afonso-e-o-nosso-bach","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-zeca-afonso-e-o-nosso-bach\/","title":{"rendered":"O Zeca Afonso \u00e9 o nosso Bach"},"content":{"rendered":"\n<p>Admiradores do cantor querem ver a obra<br>&#8220;fora do comum&#8221;<br>que ele deixou estudada em profundidade<\/p>\n\n\n\n<p>Omnipresente, o esp\u00edrito de Jos\u00e9 Afonso pairou, desde a tarde de sexta-feira at\u00e9 \u00e0 madrugada de ontem, por todos os recantos do Centro Cultural Vila Flor, de Guimar\u00e3es &#8211; at\u00e9 no parque de estacionamento se ouviam os discos do Zeca. No exterior, uma Chaimite e alguns soldados tornavam mais \u00f3bvia a rela\u00e7\u00e3o umbilical com Abril. Debates, exposi\u00e7\u00f5es, livros, filmes, document\u00e1rios e, claro, muita m\u00fasica em dois concertos &#8211; com reminisc\u00eancias do canto livre e dezenas de amigos em palco &#8211; atra\u00edram mais de um milhar de pessoas (entre eles, tr\u00eas padres ou antigos sacerdotes) \u00e0 homenagem que marcou os 19 anos da morte do cantautor. A can\u00e7\u00e3o, essa, continua viva. Ali\u00e1s, ouviu-se dizer que foi dos maiores criadores universais, melhor do que os Beatles e s\u00f3 equipar\u00e1vel a Bach. Por isso, rompeu um clamor: &#8220;Estude-se o Zeca!&#8221;.<br>&#8220;Bach sintetizou tudo o que havia antes dele e reinventou o futuro. Depois dele, ningu\u00e9m inventou mais nada. O Zeca Afonso \u00e9 o nosso Bach&#8221;, sublinhou no debate o professor universit\u00e1rio Al\u00edpio de Freitas, ex-padre e guerrilheiro, companheiro de Che Guevara e precursor do Movimento dos Sem-Terra, a quem o cantor dedicou um tema quando ele era torturado nas pris\u00f5es da ditadura brasileira. &#8220;Estudem-no profundamente, porque ele foi adiante de qualquer um&#8221;, exortou Al\u00edpio, num emocionado testemunho &#8211; em especial quando se referiu \u00e0 can\u00e7\u00e3o que o ajudou a sair do c\u00e1rcere e se tornou num s\u00edmbolo da luta contra a opress\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<br>O paralelismo entre Jos\u00e9 Afonso e os cl\u00e1ssicos foi tamb\u00e9m estabelecido pelo cr\u00edtico musical Oct\u00e1vio Fonseca &#8211; autor de livros sobre Carlos Paredes e Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco. &#8220;O Zeca utilizava compassos combinados, muito pouco usuais at\u00e9 na m\u00fasica erudita&#8221;, acentuou, no decurso de uma explica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica sobre a obra do cantor, ilustrada com temas em que a &#8220;linguagem metaf\u00f3rica \u00e9 mais incompreendida&#8221;. &#8220;Poeta brilhante e melodista fora do comum com uma imagina\u00e7\u00e3o desabrida&#8221;, sintetizou o cr\u00edtico musical, para quem a nova m\u00fasica popular portuguesa ter\u00e1 resultado da &#8220;transforma\u00e7\u00e3o&#8221; que Jos\u00e9 Afonso operou na can\u00e7\u00e3o de Coimbra.<\/p>\n\n\n\n<p>As &#8220;missas ateias e in\u00f3cuas&#8221;<br>O padre M\u00e1rio de Oliveira (da Lixa) preferiu tra\u00e7ar outro paralelismo: entre Jos\u00e9 Afonso e Jesus Cristo &#8211; ambos &#8220;politicamente perigosos&#8221;. E aludiu \u00e0 for\u00e7a que a f\u00e9 crist\u00e3 e a revolu\u00e7\u00e3o podem ter quando unidas, sem deixar de referir que o Zeca &#8220;se est\u00e1 burrifando&#8221; para as homenagens, preferindo ver &#8220;outros a lutar pelas suas causas&#8221;. Se assim n\u00e3o for, sublinhou M\u00e1rio de Oliveira ao seu estilo demolidor, este tipo de iniciativas &#8220;n\u00e3o passam de missas ateias e in\u00f3cuas e de feiras de vaidades&#8221;.<br>Na mesma linha, o jornalista Rui Pereira pediu &#8220;menos entroniza\u00e7\u00e3o e mais estudo&#8221; para a obra de Jos\u00e9 Afonso, enquanto outro jornalista, Viriato Teles, relembrou o sentido de humor do autor da senha do 25 de Abril, e pediu que haja sempre &#8220;festa&#8221; nas homenagens que lhe fa\u00e7am.<br>E foi isso mesmo que aconteceu durante os concertos de sexta e s\u00e1bado \u00e0 noite. A solo ou em grupo, misturados ou n\u00e3o, dezenas de amigos cantaram as m\u00fasicas do Zeca &#8211; os contempor\u00e2neos, como Manuel Freire, Pedro Barroso e o padre Francisco Fanhais, evocando tamb\u00e9m alguns epis\u00f3dios desconhecidos. Os outros &#8211; como Am\u00e9lia Muge, Canto Nono, Astedixie, Luanda Cozetti (filha de Al\u00edpio de Freitas) ou os galegos Ux\u00eda e Ardent\u00eda &#8211; mostrando a influ\u00eancia do Zeca na sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2006\/02\/27\/jornal\/o-zeca-afonso--e-o-nosso-bach-65701\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alexandre Pra\u00e7a, in Jornal P\u00fablico, 27.2.2006<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Admiradores do cantor querem ver a obra&#8220;fora do comum&#8221;que ele deixou estudada em profundidade Omnipresente, o esp\u00edrito de Jos\u00e9 Afonso pairou, desde a tarde de sexta-feira at\u00e9 \u00e0 madrugada de ontem, por todos os recantos do Centro Cultural Vila Flor, de Guimar\u00e3es &#8211; at\u00e9 no parque de estacionamento se ouviam os discos do Zeca. 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