{"id":40119,"date":"2012-05-01T15:49:00","date_gmt":"2012-05-01T15:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=40119"},"modified":"2022-11-04T15:54:23","modified_gmt":"2022-11-04T15:54:23","slug":"o-disco-fraterno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-disco-fraterno\/","title":{"rendered":"O disco fraterno"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"40119\" class=\"elementor elementor-40119\" data-elementor-settings=\"[]\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-section-wrap\">\n\t\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-521094bc elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"521094bc\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-59ad5095\" data-id=\"59ad5095\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5f984830 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5f984830\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<style>\/*! elementor - v3.5.6 - 28-02-2022 *\/\n.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-stacked .elementor-drop-cap{background-color:#818a91;color:#fff}.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-framed .elementor-drop-cap{color:#818a91;border:3px solid;background-color:transparent}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap{margin-top:8px}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap-letter{width:1em;height:1em}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap{float:left;text-align:center;line-height:1;font-size:50px}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap-letter{display:inline-block}<\/style>\t\t\t\t<p><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" class=\"wp-image-40120\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/LP-Toupeira-blogue-1024x683.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/LP-Toupeira-blogue-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/LP-Toupeira-blogue-300x200.jpg 300w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/LP-Toupeira-blogue-768x512.jpg 768w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/LP-Toupeira-blogue-1140x760.jpg 1140w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/LP-Toupeira-blogue.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>At\u00e9 1971 e Jos\u00e9 Afonso entregar-se nas m\u00e3os de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco \u2013 regressando de Fran\u00e7a com uma obra-prima na mala -, esta que se segue n\u00e3o era exactamente uma quest\u00e3o. O percurso de Jos\u00e9 Afonso era um somat\u00f3rio de experi\u00eancias no sentido da consolida\u00e7\u00e3o de uma linguagem pr\u00f3pria, primeiro soltando as amarras que temporariamente o haviam prendido a Coimbra, depois avan\u00e7ando com timidez para uma can\u00e7\u00e3o de magnetismo suficiente para atrair a m\u00fasica africana e as m\u00fasicas populares portuguesas. Mas depois de Cantigas do Maio, de uma constru\u00e7\u00e3o musical ambiciosa e sofisticada, e de um feito prodigioso para a hist\u00f3ria da m\u00fasica deste pa\u00eds, o caminho bifurca-se: passa a haver um Zeca Afonso do palco e um Jos\u00e9 Afonso do est\u00fadio.<br \/>Nas suas actua\u00e7\u00f5es, Zeca far-se-ia sempre acompanhar por um viola e pouco mais, reduzindo a sua m\u00fasica ao osso, a uma fun\u00e7\u00e3o eminentemente pol\u00edtica e a uma extens\u00e3o da fraternidade \u2013 as can\u00e7\u00f5es como prolongamento de uma partilha maior de valores, lutase e cren\u00e7as. Da\u00ed que, em 1972, quando avan\u00e7a para a grava\u00e7\u00e3o de Eu Vou Ser Como a Toupeira, o m\u00fasico pare\u00e7a querer recuperar igualmente essa ideia de espelho fiel: olha-se o est\u00fadio e v\u00ea-se o palco. Ao contr\u00e1rio do que acontecera em Paris com Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, aqui n\u00e3o h\u00e1 m\u00fasicos de sess\u00e3o, h\u00e1 antes uma convocat\u00f3ria distribu\u00edda entre amigos e companheiros de estrada portugueses e galegos. Jos\u00e9 Jorge Letria, que muitos palcos partilhara j\u00e1 com Zeca, foi um dos que seguiu para Madrid. As suas palavras caem dentro dessa defini\u00e7\u00e3o: &#8220;Creio que ele procurava um compromisso entre o total improviso do palco e a rigidez planificada do est\u00fadio de H\u00e9rouville. Para ele o clima era este \u2013 trabalho de grupo. Ele era um obcecado com o colectivo porque queria sempre diluir o seu protagonismo natural e leg\u00edtimo. Ele era mais um. Era um companheiro, um camarada, um militante de base&#8221;.<br \/>A decis\u00e3o \u00e9, de facto, levada quase at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Em Eu Vou Ser Como a Toupeira a ficha t\u00e9cnica n\u00e3o nos diz quem tocou o qu\u00ea. O &#8220;trabalho de grupo&#8221; varre para debaixo do tapete os protagonismos, as maiores contribui\u00e7\u00f5es e esconde tamb\u00e9m quem, na verdade, mal deixou a sua marca no disco. H\u00e1 uma recusa de hierarquiza\u00e7\u00e3o. A obra colectiva \u00e9, no entender de Jos\u00e9 Jorge Letria, &#8220;uma express\u00e3o pol\u00edtica do pensamento pol\u00edtico&#8221; de Jos\u00e9 Afonso. Ele que subia a um palco e anunciava &#8220;Eu n\u00e3o sou um cantor, sou um animador&#8221;, ele que subia a um palco e declarava &#8220;Eu n\u00e3o fa\u00e7o espect\u00e1culos, fa\u00e7o sess\u00f5es populares&#8221;, ele que olhava para as salas onde era convidado a actuar como &#8220;tribunas de com\u00edcio&#8221; e para os concertos como &#8220;actos essencialmente pol\u00edticos e n\u00e3o tanto art\u00edsticos&#8221;. Letria e Fanhais andavam com ele &#8220;numa roda-viva, sobretudo nas zonas oper\u00e1rias, desde os estaleiros de Viana at\u00e9 \u00e0 Marinha Grande e ao Alentejo e Margem Sul&#8221;. Nessa altura, no per\u00edodo chamado &#8220;p\u00f3s-Zip&#8221; \u2013 p\u00f3s-69 -, actuavam juntos tr\u00eas e quatro vezes por semana.<br \/>Depois desses concertos, n\u00e3o raras vezes, Zeca acabava a pernoitar em casa de Letria, para os lados da Avenida de Roma, Lisboa. Foi nesse contacto mais \u00edntimo e longe dos ouvidos indiscretos que o seu companheiro de tantos palcos tomou contacto com o m\u00e9todo de composi\u00e7\u00e3o: &#8220;Ele normalmente ia a trautear, a assobiar as can\u00e7\u00f5es e ent\u00e3o precisava urgentemente de um gravador que tivesse ali ao p\u00e9 para assobiar, trautear, registar uma estrofe ou duas&#8221;. &#8220;Depois&#8221;, acrescenta Carlos Alberto Moniz, &#8220;enchia a cassete, virava o lado, aquilo acabava e virava outra vez \u2013 chegava a levar quatro banhos de m\u00fasica e, claro, ia apagando as primeiras ideias&#8221;. As can\u00e7\u00f5es eram depois constru\u00eddas em torno<br \/>dessa refer\u00eancia mel\u00f3dica base.<br \/>O ambiente de pouca planifica\u00e7\u00e3o atravessa a semana de grava\u00e7\u00e3o nos Est\u00fadios Cellada.<br \/>As m\u00fasicas, segundo recordava Jos\u00e9 Niza, eram alinhavadas de v\u00e9spera, no hotel, e levadas para est\u00fadio sem uma forma final muito r\u00edgida. Os ensaios, lembra, Moniz, nunca foram algo que Zeca apreciasse especialmente. Tanto que o grupo chega a encontrar-se antecipadamente com o galego Benedicto Garcia em Set\u00fabal, mas apenas &#8220;dois ou tr\u00eas dias antes&#8221; da partida para Madrid. Moniz conta at\u00e9 que, nessa mesma altura, e antes de um concerto importante na F\u00eate de l\u2019Humanit\u00e9, em Paris, no mesmo palco por onde passariam Mikis Theodorakis ou Leonard Cohen, tinham passado uma semana na Fuzeta para ensaiar. Mas os ensaios acabavam sempre empurrados para fora dos dias. &#8220;O Zeca punha o seu kimono e \u00edamos todos correr para a areia primeiro, antes de ensaiar. Como<br \/>pessoa talentosa que era, inventava tudo para n\u00e3o ensaiar. Corr\u00edamos na areia, ele ensaiava os passos de judo e depois \u00e0 noite, antes do ensaio, era capaz de vir dizer \u2018hoje d\u00e1 ali um filme bestial\u2019. Eu a pensar que era um Truffaut ou um Renoir e era um filme de kung fu. Mas \u00edamos todos ver o kung fu e, no final, ele dizia \u2018Bestial, agora que a gente descomprimiu o ensaio vai correr bem\u2019 e ensai\u00e1vamos \u00e0s tantas&#8221;.<br \/>A maioria dos m\u00fasicos vai chegando de comboio \u00e0 capital espanhola e ao grande apartamento que Arnaldo Trindade lhes alugara na Torre de Madrid -arranha-c\u00e9us numa das principais art\u00e9rias da cidade -, enquanto Zeca parte com Carlos Alberto Moniz e a sua mulher Maria do Amparo num dois cavalos vermelho. Para Letria, &#8220;ele percebe com o Jos\u00e9 M\u00e1rio que h\u00e1 um horizonte orquestral que tem de aproveitar e que vai enriquecer a sua m\u00fasica. A partir desse momento acaba o clima de happening que caracteriza as grava\u00e7\u00f5es dele. Mas, apesar de tudo, o Eu Vou Ser Como a Toupeira ainda \u00e9 marcado por esse clima, uma situa\u00e7\u00e3o em que chegamos ao est\u00fadio e nada est\u00e1 pr\u00e9-programado&#8221;. At\u00e9 por isso, Letria chega a p\u00f4r-lhe a quest\u00e3o de n\u00e3o ser &#8220;propriamente o instrumentista que Zeca<br \/>precisava de ter&#8221;, algu\u00e9m como fora B\u00f3ris at\u00e9 a\u00ed e seria Y\u00f3rio Gon\u00e7alves da\u00ed em diante, na posi\u00e7\u00e3o de guitarrista-\u00e2ncora.<br \/>S\u00f3 que o esp\u00edrito que atravessava os v\u00e1rios quartos do apartamento conservava ainda &#8220;um ambiente de euforia colectiva que tinha muito de rep\u00fablica coimbr\u00e3, daquela Coimbra acad\u00e9mica, bo\u00e9mia, conspirativa&#8221;. \u00c0 noite fazia-se o brainstorming em torno das can\u00e7\u00f5es, procedia-se a uma distribui\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e pap\u00e9is \u2013 &#8220;amanh\u00e3 avan\u00e7amos com esta, tu tocas esta guitarra, tu tocas aquela, tu fazes a percuss\u00e3o&#8221; \u2013 e iam-se juntando ideias voadas de todos os lados, dando sustento e corpo \u00e0 ideia de cria\u00e7\u00e3o colectiva. A presen\u00e7a dos m\u00fasicos galegos nesse grupo adquiriria uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica \u2013 o papel de Benedicto (do grupo Voces Ceibes), Pepe \u00c9bano ou Ma\u00eete \u00e9, ao contr\u00e1rio do de Carlos Villa, de uma diminuta relev\u00e2ncia musical, fortificando e oficializando sobretudo a rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com aquela regi\u00e3o. Ainda hoje, de resto, Jos\u00e9 Afonso \u00e9 celebrado na Galiza como um dos seus.<br \/>Mas de onde vinham estes dois pilares \u2013 Jos\u00e9 Jorge Letria e Carlos Alberto Moniz \u2013 com quem nunca tinha gravado antes? &#8220;Ao Z\u00e9 Letria que tamb\u00e9m sofre de azia&#8221; \u2013 assim se l\u00ea na dedicat\u00f3ria que lhe faz de um poema escrito em Maio de 1973 na pris\u00e3o de Caxias \u2013 conhecera-o em 1968, rec\u00e9m-regressado de Mo\u00e7ambique, num conv\u00edvio universit\u00e1rio da Faculdade de Direito de Lisboa. Como tamb\u00e9m ele era um fazedor de can\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas, rapidamente integrou o pequeno grupo dos cantores de interven\u00e7\u00e3o. Moniz, chegado dos A\u00e7ores para estudar Agronomia, apresentava-se sempre na primeira fila das noites organizadas pela associa\u00e7\u00e3o de estudantes no anfiteatro da sua faculdade, de guitarra descansada no colo, \u00e0 espera que algu\u00e9m desse por ele e o chamasse para o palco. Esse algu\u00e9m foi Adriano Correia de Oliveira. &#8220;N\u00e3o \u00e9s tu o puto dos A\u00e7ores?&#8221;. Moniz soltou um t\u00edmido &#8220;Sou&#8221;. &#8220;Ent\u00e3o amanh\u00e3 temos grava\u00e7\u00e3o&#8221;. Na grava\u00e7\u00e3o, de temas tradicionais a\u00e7orianos, conheceu Zeca que com o mesmo desprendimento o informa: &#8220;vais tocar comigo tamb\u00e9m&#8221;. O terceiro pilar, Jos\u00e9 Niza, era um velho conhecido que acompanhava desde as digress\u00f5es da Tuna Acad\u00e9mica de Coimbra em 1958.<br \/>A partir da\u00ed, chegados ao est\u00fadio, era sobretudo o instinto musical de Zeca que guiava o grupo, que seguia atr\u00e1s de si. Na descri\u00e7\u00e3o de Letria &#8220;havia ali uma grande imprevisibilidade e um grande improviso, mas que correspondia a uma coisa em que todos acredit\u00e1vamos muito que era uma intui\u00e7\u00e3o apurad\u00edssima que ele tinha. \u00c0s vezes parecia uma coisa pouco sustentada e at\u00e9 rid\u00edcula, mas aquilo correspondia sempre a uma coisa estruturada, profunda, sentida, porque ele era realmente um g\u00e9nio musical. Nas palavras n\u00e3o mexia; agora, n\u00e3o cantava duas vezes a mesma coisa da mesma maneira&#8221;. O resto, na verdade, estava em permanente muta\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque os per\u00edodos de est\u00fadio eram de grande ansiedade e nervosismo para Jos\u00e9 Afonso \u2013 que podia perder-se (nos seus passeios pela cidade ou em idas ao cinema), ter uma crise a que chamava &#8220;uma pedra no diafragma&#8221; ou outro acontecimento inesperado. Gravar, acredita Letria, era para Zeca &#8220;um mart\u00edrio&#8221;. E s\u00f3 o fazia, acredita ainda, para justificar o adiantamento de Arnaldo Trindade.<br \/>Na verdade, acredita ainda mais um pouco, n\u00e3o sentia necessidade de registar as can\u00e7\u00f5es.<br \/>Apesar disso, era exigent\u00edssimo, destoando em grande escala do comportamento tipo que estamos habituados a associar aos m\u00fasicos mais can\u00f3nicos: &#8220;est\u00e3o sentados, a ouvir, n\u00e3o querem barulhos, sentados \u00e0 frente da mesa de mistura e absolutamente concentrados&#8221;.<br \/>&#8220;O Zeca n\u00e3o&#8221;, ressalva. &#8220;Era um peripat\u00e9tico, andava permanentemente em circula\u00e7\u00e3o, de m\u00e3os nos bolsos, e tanto andava na r\u00e9gie como no est\u00fadio. Mas com uma aten\u00e7\u00e3o permanente e total. E portanto vinham-lhe umas centelhas, umas ilumina\u00e7\u00f5es, umas sugest\u00f5es e isto mudava tudo&#8221;. Um desses momentos iluminados aconteceria quando, \u00e0 procura de um som de percuss\u00e3o que n\u00e3o conseguiam encontrar, Zeca ouviu \u00e0s tantas Niza num momento de pausa na r\u00e9gie a mastigar um bocadillo de presunto e percebeu que era esse o som que procurava, gravando-se ent\u00e3o Jos\u00e9 Niza a comer com microfone cuidadosamente apontado \u00e0 sua boca. Essas centelhas, no entanto, exigiam frequentemente aos instrumentistas uma descodifica\u00e7\u00e3o em que importava uma sintonia mais po\u00e9tica do que propriamente musical. Segundo Moniz, &#8220;o Zeca conseguia transmitirnos o que queria, como os publicit\u00e1rios quando querem um jingle, dizendo coisas como \u2018queria assim um som castanho, com um ataque entre o ferro e o bronze\u2019. E a gente conseguia&#8221;.<br \/>Da\u00ed que as can\u00e7\u00f5es tenham chegado ao est\u00fadio de Cellada n\u00e3o com uma forma final, fechada, mas antes em aberto, erguendo-se a partir dos esbo\u00e7os preparados mas abertas para as ideias em resposta \u00e0quilo que ia ficando cravado no esqueleto de cada tema. Um dos exemplos perfeitos deste m\u00e9todo ter\u00e1 sido &#8220;No Comboio Descendente&#8221;, m\u00fasica sobre poema de Fernando Pessoa, congregador de uma s\u00e9rie de palpites, sugest\u00f5es e ideias que tornaram o seu registo especialmente sinuoso. Letria lembra igualmente &#8220;\u00d3 Ti Alves&#8221;, com um forte cunho de Carlos Alberto Moniz, e que se socorre de parte de um preg\u00e3o como tentativa de Zeca &#8220;aproximar-se o mais poss\u00edvel do clima de algumas can\u00e7\u00f5es numa perspectiva neo-realista dos sons que ouvira em \u00c1frica na inf\u00e2ncia ou mesmo mais tarde&#8221;.<br \/>Esse cunho, ressalva Moniz, faz de Eu Vou Ser Como a Toupeira um disco algo irregular, a que \u2013 para o bem e para o mal \u2013 falta &#8220;uma unidade nos arranjos&#8221;. Num tema \u00e9 o cunho de Moniz que sobressai, noutro \u00e9 o de Benedicto, noutro ainda \u00e9 o de Niza, etc. Um dos temas que, curiosamente, n\u00e3o levantou dificuldades de maior foi aquele que serve de arranque ao \u00e1lbum: &#8220;A Morte Saiu \u00e0 Rua&#8221;. Na verdade, o problema com a can\u00e7\u00e3o fora anterior \u00e0 partida para Madrid. Tentando ludibriar a censura, e depois de lhe perceber as manhas, Jos\u00e9 Niza pede a Zeca Afonso que o municie de poemas propositadamente mais carregados politicamente que n\u00e3o est\u00e3o sequer previstos seguir para grava\u00e7\u00e3o. Servem apenas de manobra de distrac\u00e7\u00e3o preparada para saciar a sede de cortes dos censores, preservando intacto o grupo de can\u00e7\u00f5es originalmente pensado para as grava\u00e7\u00f5es. No caso de Eu Vou Ser Como a Toupeira acontece que &#8220;A Morte Saiu \u00e0 Rua&#8221;, tema-charneira do disco, \u00e9 censurado num primeiro momento. Niza convida ent\u00e3o o ex-coimbr\u00e3o Pedro Feytor Pinto, ligado \u00e0 censura, para um almo\u00e7o no restaurante A Varanda do Chanceler. O acordo de cavalheiros entre ambos solta o tema e permite que todos aqueles que faziam parte do plano de grava\u00e7\u00e3o passem inc\u00f3lumes, sem riscos feitos a l\u00e1pis azul.<br \/>E passou tamb\u00e9m, naturalmente, o tema que baptizou o \u00e1lbum. Em entrevista ao pr\u00f3prio Jos\u00e9 Jorge Letria, ent\u00e3o jornalista no Rep\u00fablica, Zeca reconhecia ter de se fazer modelo das toupeiras. Havia que &#8220;abrir galerias subterr\u00e2neas, ir rasgando caminho&#8221;. A can\u00e7\u00e3o, por muito bonita que fosse, n\u00e3o podia ser mero adorno.&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Gon\u00e7alo Frota, Maio de 2012*<\/strong><\/p>\n<p>* Texto escrito a prop\u00f3sito da reedi\u00e7\u00e3o da obra de Jos\u00e9 Afonso pela editora Art Orfeu.<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 1971 e Jos\u00e9 Afonso entregar-se nas m\u00e3os de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco \u2013 regressando de Fran\u00e7a com uma obra-prima na mala -, esta que se segue n\u00e3o era exactamente uma quest\u00e3o. O percurso de Jos\u00e9 Afonso era um somat\u00f3rio de experi\u00eancias no sentido da consolida\u00e7\u00e3o de uma linguagem pr\u00f3pria, primeiro soltando as amarras que temporariamente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":40120,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[115,426],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40119"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40119"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40130,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40119\/revisions\/40130"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}