{"id":39551,"date":"2017-02-23T14:45:46","date_gmt":"2017-02-23T14:45:46","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=39551"},"modified":"2022-07-14T14:46:53","modified_gmt":"2022-07-14T14:46:53","slug":"ja-nos-deixou-ha-30-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/ja-nos-deixou-ha-30-anos\/","title":{"rendered":"J\u00e1 nos deixou h\u00e1 30 anos&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Zeca-S.-Tome-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39552\" srcset=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Zeca-S.-Tome-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Zeca-S.-Tome-300x200.jpg 300w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Zeca-S.-Tome-768x512.jpg 768w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Zeca-S.-Tome-1140x760.jpg 1140w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Zeca-S.-Tome.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto tirada com o meu amigo, Zeca Afonso, em 1960, em S. Tom\u00e9, numa recep\u00e7\u00e3o aos estudantes de Coimbra do Orfe\u00e3o, promovida por gente de Laf\u00f5es, nomeadamente umas senhoras parentes da Sr.\u00aa D.\u00aa Margarida Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nos deixou h\u00e1 trinta anos, Zeca Afonso, um bom exemplo de um Santo Moderno<\/p>\n\n\n\n<p>O meu querido amigo Zeca Afonso, sobre quem j\u00e1 escrevi diversos artigos na imprensa e em revistas, nomeadamente na excelente revista cultural da cidade do Porto, \u201cO Tripeiro\u201d, em 20 de Julho de 2000, aquando da inaugura\u00e7\u00e3o de uma rua com o seu nome, j\u00e1 faleceu h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, entrando a sua pessoa no rol dos imortais, acarinhada pelas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria portuguesa. Claro que determinado sector, sempre escravizado pelas suas cegas prefer\u00eancias pol\u00edticas, continua a insistir apenas na sua vertente de cantor interventivo, \u00fanica faceta que nele vislumbraram no<br>decorrer das d\u00e9cadas em que andou a palmilhar por este mundo, esquecendo o Zeca, andarilho da liberdade, cantando o desespero da vida portuguesa em rimas excepcionais. E limitam-se a olhar para as suas baladas e letras como simples armas de arremesso pol\u00edtico que criou uma aut\u00eantica insurrei\u00e7\u00e3o espiritual. Tal ser\u00e1 uma tremenda injusti\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua faceta de poeta e da sua personalidade m\u00edstica que pairava, como uma car\u00edcia da aragem, na sociedade onde vivia, preocupado apenas com as mis\u00e9rias e as dores alheias, bem como com o pr\u00f3ximo, representado<br>por qualquer um, conhecido ou n\u00e3o, que precisasse de aux\u00edlio. E se n\u00e3o tinha meio de ajudar, sublimava o seu sofrimento e frustra\u00e7\u00e3o numa balada cantada com paix\u00e3o, sem qualquer intuito narcisista ou comercial, \u00c8 bom que tal fique claro!!!. Todos sabemos que, para a sua imagem, foi um bem ser arvorado em l\u00edder revolucion\u00e1rio de determinado tipo de esquerda, pois o seu nome e a sua m\u00fasica n\u00e3o sofreram qualquer oposi\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria,<br>sendo-lhe permitido, sem contra tempos, entrar no Olimpo como um Apolo da poesia e da m\u00fasica que marcou indelevelmente uma gera\u00e7\u00e3o, tornando-o numa fascinante personalidade da magia cultural portuguesa. Na verdade, esse apoio de determinado sector pol\u00edtico redundou numa vantagem para a sua imagem, repito, n\u00e3o acontecendo o que se verificou com outras figuras do Fado de Coimbra cujo perfil n\u00e3o obedecia \u00e0s respectivas centrais sect\u00e1rias de pensamento, raz\u00e3o porque que tudo fizeram para que fossem afastadas das nossas recorda\u00e7\u00f5es e da mem\u00f3ria da<br>colectividade. E, deste modo, o nome do Zeca Afonso p\u00f4de gravitar para sempre na \u00f3rbita da poesia com grande audi\u00e7\u00e3o, com o foro de um dos mais sublimes cantores do nosso S\u00e9culo. Se fosse vivo, n\u00e3o se poderiam espantar se o seu nome aparecesse como candidato portugu\u00eas ao Pr\u00e9mio Nobel.<br><br>O Zeca Afonso, no anarquismo da sua vida quotidiana, tinha estranhas ideias sobre o sistema pol\u00edtico ideal, confundindo muita e variada gente, com o seu pensamento, principalmente os bem pensantes que sempre aproveitavam para o criticar pela sua vida e pelo seus h\u00e1bitos. Tinha casado e tinha filhos que precisava de sustentar e por causa de quem levava uma vida de enorme car\u00eancia material. E, al\u00e9m de nada ter, o pouco que possu\u00eda,<br>dava aos que considerava ainda mais necessitados do que a sua pessoa, com um esp\u00edrito de solidariedade absurdo, despindo a camisa e o \u00fanico agasalho que tinha, para aquecer o primeiro pedinte que topasse na rua, a tiritar de frio. Ainda por cima, era caluniado por esse esp\u00edrito de S. Vicente de Paula, que o Zeca admirava e invejava por n\u00e3o ter coragem para levar uma id\u00eantica vida de milit\u00e2ncia m\u00edstica. Alguns que dele diziam mal, utilizavam-no para os seus fins pol\u00edticos, sacando-lhe os poucos cobres que consigo trazia, invocando uma falsa necessidade e nunca se importando em saber se o Zeca tinha ou n\u00e3o almo\u00e7ado ou quais os seus problemas econ\u00f3micos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>N\u00e3o havia espect\u00e1culo de angaria\u00e7\u00e3o de meios para fins pol\u00edticos para que n\u00e3o fosse arrebanhado, n\u00e3o vendo no fim qualquer compensa\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel, o que me revoltava de sobremaneira. Antes do 25 de Abril foi explorado por uma conhecida editora chegando, em desespero de causa, a recorrer a um seu amigo advogado para que, judicialmente, pusesse cobro \u00e0 ign\u00f3bil explora\u00e7\u00e3o de que estava a ser v\u00edtima. Por\u00e9m, nesse aspecto, a revolu\u00e7\u00e3o abriu-lhe a porta a uma significativa melhoria econ\u00f3mica, atendendo ao \u00eaxito das suas baladas. Igualmente, um novo relacionamento<br>amoroso veio trazer-lhe a compreens\u00e3o necess\u00e1ria de um lar equilibrado, sendo aceite como era, pela sua mulher, o que serviu de lenitivo \u00e0 sua vida de sacrif\u00edcio, provocada pela doen\u00e7a que o come\u00e7ou a atormentar. Conv\u00e9m recordar que apesar da sua maneira estranha de reagir \u00e0 vida que o rodeava e \u00e0s suas ideias ut\u00f3picas, tocadas pelo sobrenatural, o Zeca era de uma lealdade extrema com os seus amigos. Recordo bem uma discuss\u00e3o havida muito antes do 25 A, sobre a poss\u00edvel independ\u00eancia de Angola, numa rep\u00fablica de Coimbra, formada por naturais dos territ\u00f3rios africanos, onde a discuss\u00e3o come\u00e7ou a descambar para caminhos menos sensatos, e que o Zeca, apesar de n\u00e3o concordar bem com a opini\u00e3o do amigo que o acompanhava, colocou-se imediatamente ao seu lado, para o que desse e viesse. Al\u00e9m do mais, o Zeca tinha uma vis\u00e3o m\u00edstica da sociedade. Aspirava viver de modo muito especial, procurando permanentemente o sobrenatural, para se conseguir manter como era, isto \u00e9, com a sua<br>personalidade intoc\u00e1vel. Embora muitos pensem o contr\u00e1rio, procurava Deus intensamente. Recordo ter me confessado ter passado a noite de Natal, deitado numa duna de Mira, enxergando as estrelas e suplicando a Deus lhe transmitisse a Paz Divina. Ele estava nos ant\u00edpodas em rela\u00e7\u00e3o a qualquer posicionamento pol\u00edtico. Era um combatente extremista contra a fome que grassava no mundo, contra a viol\u00eancia de qualquer tipo, n\u00e3o suportando o sofrimento do seu irm\u00e3o, o ego\u00edsmo da sociedade de consumo, o racismo, e as descrimina\u00e7\u00f5es de qualquer g\u00e9nero. Ap\u00f3s a<br>descoloniza\u00e7\u00e3o desastrada, em que Cabinda foi transformada numa col\u00f3nia de Angola, pelos interesses internacionais, e o seu povo submetido \u00e0 for\u00e7a pelas armas cubanas, apesar de se sentir muito abalado pela doen\u00e7a, confessou que s\u00f3 restava ir para Cabinda de armas na m\u00e3o, combater pela liberdade do seu Povo. E foi acrescentando que se eu fosse para a guerrilha, lutar contra os novos opressores do Povo de Cabinda, igualmente iria\u2026! Era o esp\u00edrito do antigo cavaleiro andante a explodir na defesa dos mais fracos. Meu bom amigo Zeca Afonso, um manancial de virtudes,<br>apesar de todos os defeitos que os seus detractores lhe possam assacar. No fundo, suspirava por uma sociedade mon\u00e1stica, onde todos seriam iguais e se ajudariam na alegria e na desgra\u00e7a. \u00c8 paradigm\u00e1tico, o que escreveu numa carta ao Jos\u00e9 Maria Lacerda e Megre, nosso comum amigo.\u201dGostaria de optar com uma remessa de gajos amigos por qualquer coisa vital, uma rep\u00fablica de confrades ou irm\u00e3os cola\u00e7os.\u201d. talvez nas terras de Mo\u00e7ambique, pois gostaria de morrer nas plagas africanas com um veleiro a passar ao largo, ouvindo o mestre gritar \u201cAcima, acima gajeiro, acima ao mastro real, v\u00ea se v\u00eas terras de Espanha, areias de Portugal\u201d. No fundo, no seu misticismo, sonhava com um para\u00edso na terra, onde encontrasse a paz, com os bons costumes tradicionais de cada regi\u00e3o, rodeado de amigos independentes e livres de esp\u00edrito, completamente entregues ao servi\u00e7o do pr\u00f3ximo. Na verdade, e tornando a repetir o que j\u00e1 tive oportunidade de escrever., foi uma das figuras mais marcantes do nosso tempo, um poeta e um trovador de uma rara sensibilidade, um homem bom e principalmente um aut\u00eantico franciscano \u201c\u00e0 futrica\u201d, que passou por esta vida para auxiliar o pr\u00f3ximo, distribuir amizade pura e sincera aos seus iguais, cantar a beleza, lutar contra as injusti\u00e7as e tentar melhorar, \u00e0 sua maneira, a comunidade onde nasceu. Em cada canto tem um nome de rua e, principalmente, amigos verdadeiros e milhares de admiradores que recordam a sua personalidade singular, com grande saudade!<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/gazetadabeira.pt\/antonio-moniz-de-palme-ed-714\/\" target=\"_blank\">Ant\u00f3nio Moniz de Palme | Gazeta da Beira<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 nos deixou h\u00e1 trinta anos, Zeca Afonso, um bom exemplo de um Santo Moderno O meu querido amigo Zeca Afonso, sobre quem j\u00e1 escrevi diversos artigos na imprensa e em revistas, nomeadamente na excelente revista cultural da cidade do Porto, \u201cO Tripeiro\u201d, em 20 de Julho de 2000, aquando da inaugura\u00e7\u00e3o de uma rua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":39552,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39551"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39551"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":39554,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39551\/revisions\/39554"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}