{"id":35957,"date":"2022-02-21T23:48:55","date_gmt":"2022-02-21T23:48:55","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=35957"},"modified":"2022-02-21T23:56:18","modified_gmt":"2022-02-21T23:56:18","slug":"zeca-sempre-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-sempre-4\/","title":{"rendered":"Zeca sempre"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1987, Jos\u00e9 Afonso embalou a trouxa e zarpou. O cantor, poeta e compositor partiu minado por uma doen\u00e7a incur\u00e1vel. Morreu pobre e abandonado pelas institui\u00e7\u00f5es. V\u00edtima dos novos &#8220;vampiros&#8221; que destro\u00e7aram a cidade sem muros nem ameias. Mas a sua voz limpa e comprometida continua viva. E assim continuar\u00e1 para l\u00e1 de todos os chacais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tivesse eu ainda a minha velha m\u00e1quina de escrever e esta cr\u00f3nica seria ali escrita. Em homenagem ao artes\u00e3o da palavra e da vida, que fazia m\u00fasica &#8220;como quem faz um par de sapatos&#8221;. Fui, sou, um dos \u00edndios do Zeca. Corri meio mundo para o ver e ouvir. A ele e ao Adriano; ao Z\u00e9 M\u00e1rio (Branco) e ao Francisco Fanhais; ao Pedro Barroso e ao Samuel; ao Lu\u00eds C\u00edlia e ao Manuel Freire &#8211; a todos aqueles que cantavam e cantam a esperan\u00e7a e o sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Afonso, homem fraterno e justo, esteve sempre ao lado dos mais fr\u00e1geis de n\u00f3s. E, por isso, foi banido de cena e das r\u00e1dios quando o m\u00eas de Novembro aqui chegou. E se vingou! Foi a segunda tentativa de assass\u00ednio que o Zeca sofreu. Antes tinha sido expulso pela ditadura da antiga Escola Industrial e Comercial de Set\u00fabal, onde fora professor.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"627\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Mauricio-Abreu.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-35965\" srcset=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Mauricio-Abreu.jpg 960w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Mauricio-Abreu-300x196.jpg 300w, https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Mauricio-Abreu-768x502.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption><strong>Fotografia de Maur\u00edcio Abreu.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>E foi ali que a 24 de Fevereiro de 1987 uma multid\u00e3o homenageou o m\u00fasico, compositor, poeta e combatente, que morrera na madrugada anterior, aos 57 anos, no hospital da cidade. N\u00e3o em sil\u00eancio, mas de punho erguido, com cravos vermelhos, entoando &#8220;Gr\u00e1ndola, Vila Morena&#8221; e muitas das outras can\u00e7\u00f5es da sua autoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui um dos 30 mil que estiveram em Set\u00fabal. Com o meu amigo Joaquim Meirim (1935-2001), treinador de futebol, que sempre alinhou \u00e0 esquerda, e para quem o Zeca escreveu um poema, quando estava preso em Caxias, em 1972. Ei-lo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Meirim<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c0 sombra que est\u00e1<br>H\u00e1 quem incline a cabe\u00e7a<br>H\u00e1 quem na vertical<br>Diga que sim n\u00e3o est\u00e1 mal<br>Minha tia era<br>Dessa raz\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dizia humilde contrita<br>N\u00e3o subas<br>Ao parapeito de Judas<br>E o vendilh\u00e3o era recto<br>N\u00e3o pretendia ser mais<br>Que um funcion\u00e1rio correcto<br>Pois na instru\u00e7\u00e3o<br>O C\u00e9sar tinha raz\u00e3o<br>S\u00f3 n\u00e3o tinha a dele<br>Verdade diga-se<br>E sede<br>Da pura apocal\u00edptica<br>Depois quem lhe fez a cama<br>Foi um menino de mama.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No final dessa tarde cinzenta e nebulosa \u00e0 beira Sado, a multid\u00e3o gritou em un\u00edssono: &#8220;Zeca estar\u00e1 sempre vivo&#8221;. E um grupo de jovens, de cravos vermelhos nas m\u00e3os, ergueu uma enorme faixa branca onde se lia &#8220;Zeca, n\u00e3o morrer\u00e1s entre n\u00f3s&#8221;. Pois n\u00e3o, Zeca sempre.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/aviagemdosargonautas.net\/2022\/02\/20\/sinais-de-fogo-zeca-sempre-por-soares-novais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Soares Novais<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1987, Jos\u00e9 Afonso embalou a trouxa e zarpou. O cantor, poeta e compositor partiu minado por uma doen\u00e7a incur\u00e1vel. Morreu pobre e abandonado pelas institui\u00e7\u00f5es. V\u00edtima dos novos &#8220;vampiros&#8221; que destro\u00e7aram a cidade sem muros nem ameias. Mas a sua voz limpa e comprometida continua viva. 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