{"id":33576,"date":"2017-02-17T17:48:00","date_gmt":"2017-02-17T17:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=33576"},"modified":"2022-02-17T17:48:28","modified_gmt":"2022-02-17T17:48:28","slug":"so-ouve-o-brado-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/so-ouve-o-brado-da-terra\/","title":{"rendered":"S\u00f3 ouve o brado da terra"},"content":{"rendered":"\n<p>O \u00e1lbum \u201cCoro dos tribunais\u201d saiu pouco tempo depois do 25 de Abril, mas cont\u00e9m quase s\u00f3 can\u00e7\u00f5es anteriores a essa data. Pode-se considerar um tanto ultrapassado pelos acontecimentos, pois anuncia-se em \u201cS\u00f3 ouve o brado da terra\u201d a imin\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o. A ditadura e a opress\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o (agr\u00e1ria) portuguesa s\u00e3o transmitidas pelas met\u00e1foras do \u201cclarim da morte\u201d, da \u201cnoite assassina\u201d, de \u201cquem domina sem nos vencer\u201d. A explora\u00e7\u00e3o \u00e9-nos transmitida na terceira estrofe (\u201cAndam os lobos \u00e0 solta\u201d) e na \u00faltima estrofe. A estes elementos negativos op\u00f5em-se a revolta nascente (\u201cAgora \u00e9 que pinta o bago\/ Agora \u00e9 que isto vai aquecer\u201d), os que a apoiam e que nunca perderam o contacto com a terra (\u201cQuem dentro dela! Veio a nascer\u201d, o pastor, o \u201cHomem de costas vergadas\u201d) e a solidariedade do cantor com o sofrimento do povo.<br>Jos\u00e9 Afonso traduz nesta can\u00e7\u00e3o o seu alinhamento com a popula\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria. Isto nada tem a ver com a linguagem idealizante da propaganda oficial, com a qual se pretendia transmitir uma imagem dum mundo agr\u00e1rio harmonioso. Sendo da gera\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 de S\u00e9rgio Godinho e Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, ainda podia optar pela cultura rural (em vez da urbana) como portadora da sua interven\u00e7\u00e3o e de um conte\u00fado revolucion\u00e1rio. O cantor escolheu ir para \u201cuma can\u00e7\u00e3o que seguisse na esteira da can\u00e7\u00e3o tradicional rural\u201d, inspirando-se e desenvolvendo temas e elementos da cultura rural. Como ele pr\u00f3prio assinalou: \u201cIsso \u00e9, afinal, a face de um povo, e n\u00e3o h\u00e1 que ser rejeitada.\u201d Jos\u00e9 Afonso teve a oportunidade de conhecer a vida tradicional do campo, viajando com o coro do Orfeon enquanto estudante, como professor em v\u00e1rias localidades e, o que \u00e9 muito importante, cantando em todo o pa\u00eds. Este conhecimento traduz-se p.ex. em \u201cA mulher da erva\u201d.<br>A industrializa\u00e7\u00e3o portuguesa fez-se tardiamente, e \u00e9 s\u00f3 na segunda metade deste s\u00e9culo que as suas consequ\u00eancias se fizeram sentir, sobretudo a partir dos anos 60. J\u00e1 em 1981, Jos\u00e9 Afonso reconhece o progressivo e irrevers\u00edvel desaparecimento do mundo portugu\u00eas que ele evoca em tantas can\u00e7\u00f5es: \u201cCusta-me ver no meu pa\u00eds este massacre contra-cultural de que estamos a ser v\u00edtimas (\u2026) Tenho uma certa nostalgia de uma certa imagem de Portugal que me foi dada por Raul Brand\u00e3o, Camilo Castelo Branco, pelo pr\u00f3prio E\u00e7a de Queiroz (\u2026), pela poesia popular portuguesa, (\u2026), pelas adegas que hoje est\u00e3o a ser substitu\u00eddas pelos snack-bares, pelos cinemas de bairro que est\u00e3o a ser substitu\u00eddos pelos est\u00fadios (\u2026). Com as suas can\u00e7\u00f5es, ele queria conservar a cultura sem ser conservador.<br><br><strong><em>in<\/em>&nbsp;\u201cA can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o portuguesa \u2013 Contribui\u00e7\u00e3o para um estudo e tradu\u00e7\u00e3o de textos\u201d de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antu\u00e9rpia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00e1lbum \u201cCoro dos tribunais\u201d saiu pouco tempo depois do 25 de Abril, mas cont\u00e9m quase s\u00f3 can\u00e7\u00f5es anteriores a essa data. Pode-se considerar um tanto ultrapassado pelos acontecimentos, pois anuncia-se em \u201cS\u00f3 ouve o brado da terra\u201d a imin\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o. 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