{"id":33568,"date":"2019-04-17T17:43:00","date_gmt":"2019-04-17T17:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=33568"},"modified":"2022-02-17T17:44:05","modified_gmt":"2022-02-17T17:44:05","slug":"o-cavaleiro-e-o-anjo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-cavaleiro-e-o-anjo\/","title":{"rendered":"O cavaleiro e o anjo"},"content":{"rendered":"\n<p>Quanto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dos textos de Jos\u00e9 Afonso, baseio-me sobretudo na disserta\u00e7\u00e3o de E. Engelmayer, \u201cUtopie und Vergangenheit: das Liedwerk des portugiesischen S\u00e3ngers Jos\u00e9 Afonso\u201d.<br>A can\u00e7\u00e3o \u201cO cavaleiro e o anjo\u201d foi publicada no \u00e1lbum \u201cCantares do andarilho\u201d, em 1968, durante a ditadura. Descreve a vida de quem era perseguido pela PIDE (o \u201ceu\u201d). Por causa da censura, era imposs\u00edvel referir-se directamente aos problemas da \u00e9poca, pelo que Jos\u00e9 Afonso o fazia de modo indirecto:<br>A frase \u201cAo romper do dia\u201d refere-se \u00e0 hora preferida da PIDE, para prender pessoas: cedo da madrugada. Por isso, o som de passos a essa hora era bastante amea\u00e7ador.<br>Os membros da PIDE s\u00e3o indicados como \u201canjos\u201d, uma esp\u00e9cie de anjos da morte, o que tamb\u00e9m explica o uso de \u201cnegro\u201d. Evoca-se assim a associa\u00e7\u00e3o com a morte, refor\u00e7ada pela imagem da \u201cespada\u201d.<br>Quem andava fugido da PIDE passava, na maior parte das vezes, as noites em casas diferentes. Por isso, Jos\u00e9 Afonso fala em \u201chospedaria\u201d.<br>Outra refer\u00eancia \u00e0 vida do fugitivo encontra-se com a frase \u201cDorme ao relento\u201d. Nos textos de Jos\u00e9 Afonso, \u201cdormir ao relento\u201d forma uma esp\u00e9cie de \u201cleitmotiv\u201d, quando pretende retratar a sua vida ou a de outros.<br>\u00c0s vezes, \u00e9 dificil ver a quem se dirige o \u201ceu\u201d. Parece haver aqui tr\u00eas interlocutores, o \u201ceu\u201d, outro fugido e os homens da PIDE. A terceira estrofe pode-se considerar como uma auto\u00adpresenta\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d a quem entrou na hospedaria, talvez ao vento, talvez a outro perseguido ou os homens da PIDE. No entanto, \u00e9 mais prov\u00e1vel que seja outro perseguido, j\u00e1 que, na quarta estrofe, o \u201ceu\u201d lhe d\u00e1 o conselho de fugir da morte (a PIDE) e de combater com os membros da resist\u00eancia. Tamb\u00e9m podemos pensar noutra situa\u00e7\u00e3o, imaginando que \u00e9 outro fugitivo que se dirige ao \u201ceu\u201d anterior. No entanto, toma-se um pouco mais prov\u00e1vel serem os homens da PIDE com a quinta estrofe, quando o \u201ceu\u201d se parece dirigir ao anjo negro.<br>Ali\u00e1s, a tenta\u00e7\u00e3o do anjo negro tamb\u00e9m pode ser interpretada de diferentes maneiras. Pode ser que o perseguido se sinta cansado do seu modo de viver, e que esteja pr\u00f3ximo de entregar-se ao perseguidor. Assim, entraria num pacto com o anjo negro, renunciando \u00e0 resist\u00eancia contra o regime criminoso. No entanto, se interpretarmos o anjo negro como um verdadeiro anjo da morte, toma-se poss\u00edvel que o \u201ceu\u201d veja a morte como uma liberta\u00e7\u00e3o. Seja como for, ao :fim da estrofe, o \u201ceu\u201d consegue resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o quando decide que vai ficar.<br><br><strong><em>in<\/em>&nbsp;\u201cA can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o portuguesa \u2013 Contribui\u00e7\u00e3o para um estudo e tradu\u00e7\u00e3o de textos\u201d de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antu\u00e9rpia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dos textos de Jos\u00e9 Afonso, baseio-me sobretudo na disserta\u00e7\u00e3o de E. Engelmayer, \u201cUtopie und Vergangenheit: das Liedwerk des portugiesischen S\u00e3ngers Jos\u00e9 Afonso\u201d.A can\u00e7\u00e3o \u201cO cavaleiro e o anjo\u201d foi publicada no \u00e1lbum \u201cCantares do andarilho\u201d, em 1968, durante a ditadura. Descreve a vida de quem era perseguido pela PIDE (o \u201ceu\u201d). 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