{"id":33562,"date":"2018-02-17T17:40:00","date_gmt":"2018-02-17T17:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=33562"},"modified":"2022-02-17T17:41:52","modified_gmt":"2022-02-17T17:41:52","slug":"no-lago-do-breu-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/no-lago-do-breu-2\/","title":{"rendered":"No lago do breu"},"content":{"rendered":"\n<p>Can\u00e7\u00e3o com uma esp\u00e9cie de refr\u00e3o at\u00edpico que resulta da repeti\u00e7\u00e3o do terceto final de cada estrofe, em compasso 6\/8 e tom de Mi menor, gravada por Jos\u00e9 Afonso, acompanhado \u00e0 viola nylon por Rui Pato: EP Baladas de Coimbra, Porto, Raps\u00f3dia, EPF 5.182, Outubro de 1962, Lado 2, Faixa n\u00ba 3. A grava\u00e7\u00e3o decorreu em Coimbra, no antigo Convento de S\u00e3o Jorge, local onde os t\u00e9cnicos da editora montaram os dispositivos de capta\u00e7\u00e3o sonora. A melodia \u00e9 melanc\u00f3lica, remetendo para um estado de esp\u00edrito depressivo vivido pelo autor na data da feitura da obra, conforme nos corroborou Rui Pato.<br>De acordo com declara\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Jos\u00e9 Afonso, tratar-se-\u00e1 de uma can\u00e7\u00e3o inspirada no repert\u00f3rio do cantor e compositor franc\u00eas Georges Brassens (1921-1981), cujo t\u00edtulo e letra interpelam a moral social vigente e a pr\u00e1tica de frequ\u00eancia das casas de prostitui\u00e7\u00e3o do Terreiro da Erva em Coimbra. cf. \u201cOs cantares de Jos\u00e9 Afonso\u201d, Lisboa, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1968; idem, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Lisboa, Associa\u00e7\u00e3o de Estudantes do Instituto Superior T\u00e9cnico, 1969, p\u00e1gs. 46-47: \u201cBalada de inspira\u00e7\u00e3o Brassens, define simultaneamente um estado de esp\u00edrito e uma autobiografia, uma crise de consci\u00eancia (destrui\u00e7\u00e3o do sentimento de remorso) e um meio social (os prost\u00edbulos do \u201cTerreiro da Erva\u201d ou os seus suced\u00e2neos mais ou menos bem iluminados\u201d (sic). At\u00e9 \u00e0 entrada da d\u00e9cada de 1960 era nestas casas que estudantes e jovens mancebos em dia de inspec\u00e7\u00e3o militar faziam a sua inicia\u00e7\u00e3o sexual. O local da feitura da composi\u00e7\u00e3o foi Faro, cidade onde Jos\u00e9 Afonso ent\u00e3o residia e trabalhava como professor.<br>A letra integral \u00e9 de \u00e1rdua transcri\u00e7\u00e3o, pois nas estrofes o autor oscila entre a sextilha (1\u00aa, 2\u00aa, 4\u00aa, 5\u00aa, 7\u00aa) e os 11 versos (3\u00aa, repetida na 6\u00aa e na 8\u00aa). Rui Pato mitiga a influ\u00eancia de Brassens, a qual se teria feito sentir mais tarde (nesta fase havia mais de Jacques Brel e de L\u00e9o Ferr\u00e9 e ainda n\u00e3o as \u201cbrassenzadas\u201d do tipo \u201cEu tive o Diabo na m\u00e3o\u201d), recordando ter-se deslocado propositadamente a Faro para ensaiar com Jos\u00e9 Afonso (informes de 12\/01\/2006). Rui Pato passou um m\u00eas de f\u00e9rias no Ver\u00e3o\/1962 com Jos\u00e9 Afonso em Faro. Foi nas deambula\u00e7\u00f5es em improvisada jangada \u00e0 Ilha do Farol que Jos\u00e9 Afonso alicer\u00e7ou os rudimentos desta can\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Afonso come\u00e7ou pela letra e s\u00f3 depois improvisou os rudimentos da melodia. Rui Pato recorda-se bem dos trauteios nascentes junto ao areal da Ilha do Farol, com Jos\u00e9 Afonso tomado de amores pela futura companheira Z\u00e9lia Maria Agostinho.<br><em>A<\/em>s estrofes assim\u00e9tricas, alternando entre 6 e 11 versos, a longa debita\u00e7\u00e3o da letra, o \u201crefr\u00e3o\u201d at\u00edpico, a obsidiante presen\u00e7a da viola nylon, tudo foi pensado para erigir o tema em obra de protesto contra o que era convencional cantar-se e gravar-se em Coimbra. Tendo forma, No Lago do Breu rejeita abertamente a f\u00f3rmula estr\u00f3fica dos temas mais convencionalmente cl\u00e1ssicos da CC. Nada de repeti\u00e7\u00f5es can\u00f3nicas, nada mudan\u00e7as de frase antecipadamente reconhec\u00edveis, nada de langorosos ais. O autor escuda-se no efeito surpresa e com ele se torna um int\u00e9rprete surpreendente. O trabalho de acompanhamento \u00e9 relativamente simples, pois Jos\u00e9 Afonso queria fazer alguns acordes na sua viola, embora soubesse antecipadamente que n\u00e3o conseguia seguir os dedos de Rui Pato. Fez-se a grava\u00e7\u00e3o com a viola de Rui Pato \u201cmeio desafinada\u201d por forma a que Jos\u00e9 Afonso pudesse cantar e fazer no bra\u00e7o da sua viola os singelos acordes que sabia executar.<br>A referida grava\u00e7\u00e3o veio a ser remasterizada no LP Baladas e Fados de Coimbra, EDISCO, EDL 18.020, ano de 1982, Face B, Faixa n\u00ba 3, fonograma omisso quanto ao ano da grava\u00e7\u00e3o, matriz original e instrumentista. Vers\u00e3o dispon\u00edvel em compact disc: CD OS VAMPIROS, Edisco, 1987, faixa n\u00ba 9, com o t\u00edtulo adulterado para \u201cNo Largo do Breu\u201d (sic) e inclus\u00e3o da letra no respectivo livreto. A letra, na edi\u00e7\u00e3o em off-set das AAEE, de 1969, de \u201cCantares DE JOS\u00c9 AFONSO\u201d e em \u201cJOS\u00c9 AFONSO. Textos e Can\u00e7\u00f5es\u201d, e na publica\u00e7\u00e3o Ass\u00edrio e Alvim, de 1983, n\u00e3o est\u00e1 conforme os discos supra. O t\u00edtulo nos discos \u00e9 No Lago do Breu e, n\u00e3o, \u201cLago do Breu\u201d como vem em Textos e Can\u00e7\u00f5es.<br>Este tema foi gravado tamb\u00e9m pelo cantor portugu\u00eas activo em Fran\u00e7a Germano Rocha, em 1964, acompanhado \u00e0 guitarra por Ernesto de Melo e Jorge Godinho e, \u00e0 viola, por Jos\u00e9 Niza Mendes e Durval Moreirinhas (EP BLY 76153 e LP XBLY 86112, ambos da editora Barclay). A letra adoptada por Germano Rocha n\u00e3o corresponde \u00e0 vers\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso, e o t\u00edtulo original aparece encurtado para \u201cLago do Breu\u201d.<br>No site http:\/\/alfarrabio.um.geira.pt\/zeca\/cancoes\/16.html, encontra-se uma transcri\u00e7\u00e3o incompleta da letra gravada por Jos\u00e9 Afonso, com t\u00edtulo encurtado para \u201cLago do Breu\u201d (cf. tamb\u00e9m o endere\u00e7o https:\/\/aja.pt\/discografia.htm, para as fontes fonogr\u00e1ficas do autor conhecidas at\u00e9 ao ano de 2005, cujo rol est\u00e1 incompleto) e omiss\u00e3o integral dos refr\u00f5es. A vers\u00e3o de das edi\u00e7\u00f5es de 1968 e 1969 encontra-se no \u201cArquivo de M\u00fasica de L\u00edngua Portuguesa\u201d, da Universidade do Minho (http:\/\/natura.di.uminho.pt).<br>Este esp\u00e9cime foi gravado na Capela do Pal\u00e1cio de S\u00e3o Marcos da Reitoria da UC por Serra Leit\u00e3o, no tom de Mi Menor, acompanhado pela forma\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 dos Santos Paulo\/Oct\u00e1vio S\u00e9rgio (gg) e Aur\u00e9lio Reis\/Humberto Matias\/Jos\u00e9 Tito Mackay (vv) no CD \u201c15 anos depois\u2026 Antigos Tunos da Universidade de Coimbra\u201d, Coimbra, ano de 2000, faixa n\u00ba 15. Neste registo, com introdu\u00e7\u00e3o e arranjo de Jos\u00e9 dos Santos Paulo, o t\u00edtulo sofreu adultera\u00e7\u00e3o para LARGO DO BREU (sic), sendo a identifica\u00e7\u00e3o dos instrumentistas totalmente omissa.<br>A solfa desta can\u00e7\u00e3o encontra-se impressa na brochura do antigo s\u00f3cio da TAUC Ant\u00f3nio Carrilho Rosado Marques, \u201cCantares de Jos\u00e9 Afonso. Acompanhamentos para viola\u201d, \u00c9vora, Edi\u00e7\u00e3o do Autor, 1998, p\u00e1gs. 18-19.<br><br>Jos\u00e9 Anjos de Carvalho e Ant\u00f3nio M. Nunes | Agradecimentos: Dr. Oct\u00e1vio S\u00e9rgio, Prof. Jos\u00e9 dos Santos Paulo, Dr. Rui Pato.<br><strong>htttp:\/\/guitarradecoimbra.blogspot.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Can\u00e7\u00e3o com uma esp\u00e9cie de refr\u00e3o at\u00edpico que resulta da repeti\u00e7\u00e3o do terceto final de cada estrofe, em compasso 6\/8 e tom de Mi menor, gravada por Jos\u00e9 Afonso, acompanhado \u00e0 viola nylon por Rui Pato: EP Baladas de Coimbra, Porto, Raps\u00f3dia, EPF 5.182, Outubro de 1962, Lado 2, Faixa n\u00ba 3. 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