{"id":33556,"date":"2020-10-17T17:37:00","date_gmt":"2020-10-17T17:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=33556"},"modified":"2022-02-17T17:38:02","modified_gmt":"2022-02-17T17:38:02","slug":"menina-dos-olhos-tristes-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/menina-dos-olhos-tristes-2\/","title":{"rendered":"Menina dos olhos tristes"},"content":{"rendered":"\n<p>Can\u00e7\u00e3o musical de tipo estr\u00f3fico, ilustrativa do Movimento da Balada, em compasso 6\/8 e tom de Mi Menor, de melodia muito sentimental, ilustrativa do choro dos mortos regressados das frentes de combate em Angola, Guin\u00e9 e Mo\u00e7ambique durante a Guerra Colonial (1961-1974). A 6\u00aa estrofe (\u201cO soldadinho j\u00e1 volta\u201d) enforma mesmo de alguma morbidez na vocaliza\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso. O coro adquire uma colora\u00e7\u00e3o fun\u00e9rea. De acordo com as declara\u00e7\u00f5es prestadas por Rui Pato (17\/01\/2006), esta composi\u00e7\u00e3o foi concebida por Jos\u00e9 Afonso tendo por motivo nuclear a contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerra Colonial iniciada em 1961. Da\u00ed o enorme sucesso colhido nas hostes anti-regime, seja na grava\u00e7\u00e3o Adriano de 1964, seja no registo Jos\u00e9 Afonso de 1969.<br>Adriano Correia de Oliveira ouviu a 1\u00aa vers\u00e3o desta can\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio Jos\u00e9 Afonso e pediu-lhe autoriza\u00e7\u00e3o para a gravar, tendo seguido nessa grava\u00e7\u00e3o de 1964 orienta\u00e7\u00f5es facultadas pelo pr\u00f3prio autor.<br>Ao cont\u00e1rio do que fomos inicialmente levados a pensar, a grava\u00e7\u00e3o Adriano, de 1964, n\u00e3o pode ser considerada uma variante feita por Adriano sobre uma qualquer matriz original. A vers\u00e3o Adriano de 1964 \u00e9 , para todos os efeitos, a 1\u00aa vers\u00e3o desta can\u00e7\u00e3o, tal qual a concebia o pr\u00f3prio Jos\u00e9 Afonso. Quando Jos\u00e9 Afonso regressou de Mo\u00e7ambique (Agosto de 1967) realizou uma revis\u00e3o da vers\u00e3o primitiva, vers\u00e3o essa profusamente interpretada nos incont\u00e1veis espect\u00e1culos que realizou com Rui Pato at\u00e9 \u00e0 respectiva fixa\u00e7\u00e3o fonogr\u00e1fica de 1969.<br>Jos\u00e9 Afonso gravou esta can\u00e7\u00e3o pela primeira vez em 1969, com um not\u00e1vel arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola nylon: EP \u201cMenina dos Olhos Tristes\u201d, Porto, Orfeu, STAT-803, ano de 1969. Remasteriza\u00e7\u00e3o no CD \u201cJos\u00e9 Afonso. De Capa e Batina\u201d, Lisboa, Movieplay JA 8000, ano de 1996, Faixa n\u00ba 9. O livreto transcreve o poema, mas n\u00e3o exactamente como Jos\u00e9 Afonso o canta. Jos\u00e9 Afonso segue uma dic\u00e7\u00e3o escorreita, apenas adulterando no 2\u00ba verso da 3\u00aa quadra \u201cOlhe\u201d para \u201c\u00d3lh\u00f3\u201d.<br>Esta can\u00e7\u00e3o surge primeiramente fonografada por Adriano Correia de Oliveira, acompanhado na viola nylon por Rui Pato, em 1964. Em compara\u00e7\u00e3o com a vers\u00e3o definitiva de 1969, Adriano adopta uma sequ\u00eancia diferente nas estrofes, interpretando um trauteio diferente do adoptado por Jos\u00e9 Afonso em 1969. A 3\u00aa copla aparece como se fosse a 2\u00aa. Adriano gravou diversas obras ainda em gesta\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria (de Jos\u00e9 Afonso e de Machado Soares), cujas vers\u00f5es ultimadas divergem das incurs\u00f5es de Adriano. Exemplificam estas situa\u00e7\u00f5es pe\u00e7as como \u201cCan\u00e7\u00e3o Vai e Vem\u201d (cf. diferen\u00e7as com \u201cBalada da Esperan\u00e7a\u201d), \u201cSenhora Partem T\u00e3o tristes\u201d (cf. registo de Fernando Gomes Alves), ou at\u00e9 mesmo adultera\u00e7\u00f5es de obras de autor como a \u201cCan\u00e7\u00e3o dos Malmequeres\u201d (de Ant\u00f3nio Menano), vertida em \u201cBalada do Estudante\u201d. Como \u00e9 sabido, Jos\u00e9 Afonso radicou-se em Mo\u00e7ambique nos finais de Setembro de 1964, e talvez por isso mesmo n\u00e3o chegou a gravar a can\u00e7\u00e3o de sua autoria, abrindo assim a porta \u00e0 vers\u00e3o Adriano.<br>Coteje-se a letra interpretada por Adriano com a transcri\u00e7\u00e3o presente em M\u00e1rio Correia, \u201cAdriano Correia de Oliveira. Vida e Obra\u201d, Coimbra, Centelha, 1987, p\u00e1g. 103. Primeiro registo vinil presente no EP \u201cMenina dos Olhos Tristes\u201d, Porto, Orfeu, EP-ATEP 6275, ano de 1964, com arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola de cordas de nylon. Fez-se outra edi\u00e7\u00e3o no LP \u201cAdriano Correia de Oliveira\u201d, LP-SB, ano de 1964; remasteriza\u00e7\u00e3o no duplo Lp vinil \u201cMem\u00f3ria de Adriano Correia de Oliveira\u201d, Porto, Orfeu\/Riso e Ritmo Discos, ano de 1982, Disco 1, Face B, faixa 5. Na referida reedi\u00e7\u00e3o constam as autorias correctas mas omitem-se o ano da grava\u00e7\u00e3o e o instrumentista. Remasteriza\u00e7\u00e3o compact disc na antologia \u201cAdriano. Obra Completa\u201d, Lisboa, Movieplay\/Orfeu 35.003, ano de 1994 (CD \u201cA Noite dos Poetas\u201d, Orfeu 35.010, 1994, faixa 1), cuja coordena\u00e7\u00e3o esteva a cargo de Jos\u00e9 Niza. Neste caso omite-se a data da primeira grava\u00e7\u00e3o, mas identifica-se Rui Pato como instrumentista e arranjista. S\u00e3o ainda conhecidas as seguintes remasteriza\u00e7\u00f5es:<br>-CD \u201cCl\u00e1ssicos da Renascen\u00e7a. Adriano Correia de Oliveira\u201d, Lisboa, Movieplay, MOV 31. 028, ano de 2000, faixa n\u00ba 13;<br>-CD \u201cAdriano. Vinte Anos de Can\u00e7\u00f5es (1960-1980)\u201d, Lisboa, Movieplay, MOV 30. 441, ano de 2001, faixa n\u00ba 6.<br>Quanto ao autor da letra, Reinaldo Ferreira, ou melhor, Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, nasceu em Barcelona a 20 de Mar\u00e7o de 1922. Veio a falecer de cancro pulmonar em Louren\u00e7o Marques, Mo\u00e7ambique, em 30 de Junho de 1959. Era filho do famoso jornalista e romancista policial \u201cRep\u00f3rter X\u201d. Radicou-se em Louren\u00e7o Marques (Maputo) em 1941, cidade onde terminou os estudos liceais. Trabalhou como funcion\u00e1rio p\u00fablico e animador de programas radiof\u00f3nicos na R\u00e1dio Clube de Mo\u00e7ambique. Adoeceu em 1958 e ap\u00f3s tentativa infrut\u00edfera de tratamente na \u00c1frica do Sul, faleceu em 1959. Era de sua autoria o delicioso e muito conservador texto \u201cUma casa portuguesa\u201d, gravado em disco por Am\u00e1lia Rodrigues.<br>Autor de poemas bel\u00edssimos, a obra de Ferreira, \u201cPoemas\u201d, foi editada em 1960 na cidade de Louren\u00e7o Marques, em 1962 na Portug\u00e1lia (com pref\u00e1cio de Jos\u00e9 R\u00e9gio) e em 1998 na Vega. Ignoramos em que data Ferreira comp\u00f4s a sua linda e triste \u201cMenina\u201d, sendo de aceitar que tivesse por horizonte a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mas nunca a Guerra Colonial que n\u00e3o chegou a conhecer. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabemos quando, nem em que circunst\u00e2ncias Jos\u00e9 Afonso acedeu ao poema. Pode ter conhecido uma vers\u00e3o em manuscrito ou de p\u00e1gina de jornal nas suas idas a Mo\u00e7ambique em 1949 (Orfeon), 1956 (TAUC), 1958 (TAUC a Angola) e 1960 (Orfeon a Angola). O mais certo \u00e9 que tenha adquirido a edi\u00e7\u00e3o lisboeta de 1962, ligada ao nome de Jos\u00e9 R\u00e9gio. A Guerra Colonial tinha rebentado no ano anterior em Luanda (04\/02\/1961) e estava na mem\u00f3ria a Opera\u00e7\u00e3o Dulcineia (assalto ao Santa Maria, 21\/01\/1961).<br>Esta can\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o mereceu qualquer trabalho de regrava\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 1974 junto das vozes juvenis e respectivas forma\u00e7\u00f5es activas em Coimbra.Para saber mais sobre o poeta Reinaldo Ferreira consulte http:\/\/alfarrabio.di.uminho.pt.reinaldo\/.<br>Jos\u00e9 Anjos de Carvalho e Ant\u00f3nio M. Nunes | Agradecimentos: Dr. Rui Pato.<br><strong>Texto retirado do blog: http:\/\/guitarradecoimbra.blogspot.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Can\u00e7\u00e3o musical de tipo estr\u00f3fico, ilustrativa do Movimento da Balada, em compasso 6\/8 e tom de Mi Menor, de melodia muito sentimental, ilustrativa do choro dos mortos regressados das frentes de combate em Angola, Guin\u00e9 e Mo\u00e7ambique durante a Guerra Colonial (1961-1974). 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