{"id":33545,"date":"2018-11-17T17:06:00","date_gmt":"2018-11-17T17:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=33545"},"modified":"2022-02-17T17:07:08","modified_gmt":"2022-02-17T17:07:08","slug":"em-terras-de-tras-os-montes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/em-terras-de-tras-os-montes\/","title":{"rendered":"Em terras de Tr\u00e1s-os-Montes"},"content":{"rendered":"\n<p>As campanhas de Tr\u00e1s-os-Montes decorreram em Maio\/Junho de 75. Ou\u00e7o Lu\u00eds Rocha que apenas conhecia pelas imagens do filme \u2026Cerromaior\u2026 \u00c0 medida que se desenrola a nossa conversa passam-me pela mem\u00f3ria as emo\u00e7\u00f5es provocadas pelo seu cinema: a for\u00e7a das imagens e dos gestos. A secura da opress\u00e3o no Alentejo. A revolta. Os olhares. Lu\u00eds Rocha em discurso directo: Partimos no meu carro, eu, o Fanhais e o Zeca efic\u00e1mos em Bragan\u00e7a integrados nas campanhas de dinamiza\u00e7\u00e3o cultural. Era a opera\u00e7\u00e3o Maio-Nordeste, creio. Assisti \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o do MFA no maior feudo do reaccionarismo. Foi uma \u00e9poca \u00fanica na hist\u00f3ria daquele ano. Recordo particularmente as minas da Ribeira, sobre as quais vim mais tarde a fazer um filme, situadas entre Coelhoso e Parada. Tratava-se de umas minas, uma coisa sinistra, o mais miser\u00e1vel que algum dia vi, onde se vivia e trabalhava em condi\u00e7\u00f5es infra-humanas. Os patr\u00f5es tinham deixado \u201ccair\u201d as minas e os mineiros estavam ali sem saber o que fazer. Os mineiros reivindicavam o trivial: exames m\u00e9dicos que n\u00e3o eram feitos h\u00e1 anos e reforma. Registavam-se casos de silicose em barda. Cheg\u00e1mos ao fim da tarde, e foi o primeiro s\u00edtio em Portugal onde verifiquei que o Zeca Afonso n\u00e3o foi reconhecido. Era o MFA que estava presente\u2026 entretivemo-nos a conversar sobre as minas e quando nos vinhamos embora, j\u00e1 noite, um mineiro jovem contou-nos a interven\u00e7\u00e3o da PIDE ali. Esse jovem disp\u00f4s-se a levar- -nos a uma aldeia onde nos contaram a hist\u00f3ria da persegui\u00e7\u00e3o a um mineiro feita directamente pela PIDE e pelo capataz a pedido do patr\u00e3o. Eu e o Fanhais \u201cobrig\u00e1mos\u201d o Zeca a fazer uma can\u00e7\u00e3o sobre o acontecimento. Como de costume ele protestou dizendo que \u201cn\u00e3o era capaz de afazer para o dia seguinte\u201d. \u2013 Fech\u00e1mo-lo no quarto e na manh\u00e3 seguinte tinha feito \u201cEm Terras de Tr\u00e1s-os-Montes\u201d, can\u00e7\u00e3o que integrou o seu \u00e1lbum \u201cCom as Minhas Tamanquinhas \u2013 Lu\u00eds Rocha prossegue a narra\u00e7\u00e3o da estada junto dos mineiros: No dia seguinte volt\u00e1mos a reunir com essas pessoas, que acabaram por identificar o Zeca quando ele cantou a Gr\u00e2ndola, o Fanhais tamb\u00e9m cantou, mas a reac\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel foi quando o Zeca cantou perante eles a can\u00e7\u00e3o que tinha acabado de fazer sobre a hist\u00f3ria das minas da Ribeira e sobre a actua\u00e7\u00e3o pidesca contra um dos mineiros.<br>\u00abEm terras de Tr\u00e1s-os-Montes\/ Entre Coelhoso e Parada! Uma hist\u00f3ria verdadeira! Foi ali mesmo contada! Algemado por dois pides\/ Na manh\u00e3 de vinte e tr\u00eas\/ L\u00e1 vai Manuel Augusto\/ Sem mesmo saber porqu\u00ea\/ Com ele vai Marcolino\/ Bufo dos dominadores\/ Ide \u00e0s minas da Ribeira! Vereis quem s\u00e3o os Senhores\/ etc\u2026 Ao ouvirem estas quadras. revela Lu\u00eds Rocha, desencadeia-se uma tentativa de tomada de poder pelos mineiros. De facto, tentaram autogerir as minas, mas o processo pol\u00edtico posterior gorou esses prop\u00f3sitos. Outro epis\u00f3dio a que assistimos, suponho que no concelho de Vinhais, foi uma ocupa\u00e7\u00e3o de terras por 30 a 40 mulheres que estavam sem trabalho porque o patr\u00e3o tinha desaparecido. Durante os dez dias em que particip\u00e1mos na campanha o Zeca viveu-os com intensa felicidade. Tenho na mem\u00f3ria essa ideia de intensa felicidade, de tal modo que quando regress\u00e1mos de Moncorvo a Set\u00fabal ele come\u00e7ou a ficar inquieto \u00e0 medida que nos aproxim\u00e1vamos da sua casa. Tivemos que parar o carro v\u00e1rias vezes porque ele precisava de sair para caminhar um pouco e n\u00e3o disfar\u00e7ava o seu nervosismo.<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong><em>in<\/em>&nbsp;\u201cLivra-te do medo \u2013 Est\u00f3rias e andan\u00e7as do Zeca Afonso\u201d de Jos\u00e9 Salvador, 1984, A Regra do Jogo Edi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As campanhas de Tr\u00e1s-os-Montes decorreram em Maio\/Junho de 75. Ou\u00e7o Lu\u00eds Rocha que apenas conhecia pelas imagens do filme \u2026Cerromaior\u2026 \u00c0 medida que se desenrola a nossa conversa passam-me pela mem\u00f3ria as emo\u00e7\u00f5es provocadas pelo seu cinema: a for\u00e7a das imagens e dos gestos. A secura da opress\u00e3o no Alentejo. A revolta. Os olhares. 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