{"id":17704,"date":"2014-02-04T17:06:31","date_gmt":"2014-02-04T17:06:31","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=17704"},"modified":"2021-12-17T11:37:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:07","slug":"e-bonito-ter-amigos-que-nao-morrem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/e-bonito-ter-amigos-que-nao-morrem\/","title":{"rendered":"\u00c9 bonito ter Amigos que n\u00e3o morrem!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2014\/02\/11.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-17706\" alt=\"1\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2014\/02\/11.jpg\" width=\"477\" height=\"295\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci o Zeca, de quem me tornei amigo de peito, em finais dos anos 60, em Paris, onde vivi uns anitos, gra\u00e7as ao inconfund\u00edvel esp\u00edrito europe\u00edsta\/hitleriano, e nunca orgulhosamente s\u00f3, do rabugento e santificado ditador Salazar.<br \/>\nCom o Zeca partilhei algumas inesquec\u00edveis e enriquecedoras viagens na vida com enorme prazer, determina\u00e7\u00e3o e muita disponibilidade e entrega. O Zeca era assim. Nunca parava. O seu esp\u00edrito, a sua poesia, a sua m\u00fasica e o seu exemplo s\u00e3o intemporais, universais e n\u00e3o se podem catalogar. Zeca foi, \u00e9 e ser\u00e1 um exemplo em qualquer lugar e em qualquer tempo deste mundo e continua a fazer parte da vida. O seu esp\u00edrito, a sua poesia, a sua m\u00fasica e o seu exemplo s\u00e3o intemporais e universais. \u00c9 uma saud\u00e1vel caracter\u00edstica da eternidade dos grandes artistas.<br \/>\nZeca Afonso foi perseguido, expulso da carreira docente, maltratado e preso pela desprez\u00edvel, estuporada e hitleriana ditadura salazarenta, mas nuca desistiu, por que \u2026era um inquebrant\u00e1vel defensor da \u201cterra da fraternidade\u201d, do \u201ctraz outro amigo\u201d e da \u201ccidade sem muros nem ameias\u2026\u201d e n\u00e3o s\u00f3! Ap\u00f3s o 25 de Abril\/74, o Zeca j\u00e1 n\u00e3o se pertence e n\u00e3o tem m\u00e3os, nem p\u00e9s, a medir para percorrer o Portugal que despertou para a Liberdade, tantas eram as solicita\u00e7\u00f5es que lhe eram dirigidas. Era espantoso e belo!<br \/>\nO Zeca tinha a m\u00fasica no sangue, o desejo da felicidade da humanidade no cora\u00e7\u00e3o, o g\u00e9nio e a conquista da utopia na cabe\u00e7a e a genica no corpo. Era um desassossegado contagioso com alguma boa mal\u00edcia e humor sarc\u00e1stico \u00e0 mistura, e, como ele dizia: \u201c\u00d3 malta, isto j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o vai s\u00f3 com cantigas\u201d, e teve raz\u00e3o como se verificou no 25 de Abri de 74.<br \/>\nO Zeca era um homem bom e de coragem e de afectos, e, tamb\u00e9m, terno, solid\u00e1rio e falava sempre da esperan\u00e7a. A sua m\u00fasica, a sua postura e a sua viv\u00eancia activa eram a s\u00edntese do seu desassossego e tornavam-se numa arma que metia, e ainda mete, medo a muita gente vampiresca, salazarenta e saudosista, e davam, e ainda d\u00e1, coragem a muita mais.<br \/>\nA amizade, a lealdade, a determina\u00e7\u00e3o, a solidariedade e a terra da fraternidade eram Ele. Foi um grande homem de ac\u00e7\u00e3o c\u00edvica. Era um vulc\u00e3o em constante erup\u00e7\u00e3o que espalhava lavas de solidariedade, de candura e de boa revolta, de vontades, de prazer de viver e da utopia e criava \u00e0 sua volta como que uma ilha de afectos.<br \/>\nPois \u00e9, Zeca, pregaste-nos uma partida ao teres partido t\u00e3o cedo, com 58 anos, apesar de continuares carinhosamente entre n\u00f3s, por que, como dizia J.P. Sartre \u201cestar morto \u00e9 ficar entregue aos vivos\u201d. A vida n\u00e3o p\u00e1ra, nosso bom e querido Amigo, e \u00e0s vezes sabe bem sermos beliscados pele mem\u00f3ria e a Zecafonia faz bem! Margarite Yourcenar disse: \u201cA mem\u00f3ria da maior parte dos homens \u00e9 um cemit\u00e9rio abandonado, onde jazem, sem honras, mortos que eles deixaram de amar\u201d, o que n\u00e3o acontece com o Zeca, por que ele \u00e9 o passado sempre presente, vigoroso e actual. A mem\u00f3ria, \u00e0s vezes, torna-se viva e ajuda-nos a reinventar a vida e a preparar o futuro, por que, como algu\u00e9m disse, as vit\u00f3rias do esquecimento s\u00e3o sempre derrotas da liberdade.<br \/>\nLembrar-te e ouvir-te, Zeca, continua a tornar-nos \u201c filhos da madrugada\u201d. Que bonito!<br \/>\nPor isso, meu enorme amigo, \u00e9 imperiosos reviver as tuas andan\u00e7as com emo\u00e7\u00e3o e saudade para que a mem\u00f3ria se n\u00e3o apague, por que, como disse um amigo comum, s\u00f3 morreu o corpo do Zeca.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Casimiro Ribeiro<\/strong> (Guimar\u00e3es)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci o Zeca, de quem me tornei amigo de peito, em finais dos anos 60, em Paris, onde vivi uns anitos, gra\u00e7as ao inconfund\u00edvel esp\u00edrito europe\u00edsta\/hitleriano, e nunca orgulhosamente s\u00f3, do rabugento e santificado ditador Salazar. 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