{"id":16478,"date":"2013-03-22T22:01:09","date_gmt":"2013-03-22T22:01:09","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=16478"},"modified":"2021-12-17T11:37:11","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:11","slug":"oscar-lopes-sobre-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/oscar-lopes-sobre-jose-afonso\/","title":{"rendered":"\u00d3scar Lopes sobre Jos\u00e9 Afonso"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2013\/03\/21.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-16479\" alt=\"2\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2013\/03\/21.jpg\" width=\"477\" height=\"320\" \/><\/a><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Afonso poeta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A can\u00e7\u00e3o l\u00edrica e sat\u00edrica de raizes populares, pela qual h\u00e1 quase oito s\u00e9culos principiou o registo da poesia portuguesa, veio encontrar um surpreendente renovo no \u00faltimo dec\u00e9nio, ou pouco mais, de resist\u00eancia ao fascismo e a uma guerra injusta, e depois neste quase dec\u00e9nio mais recente em que tem decorrido um processo sinuoso e ainda indecidido de luta por uma democracia real \u00e0 medida das actuais possibilidades t\u00e9cnicas e humanas. Jos\u00e9 Afonso \u00e9 um daqueles novos segr\u00e9is que mais criativamente reatam uma t\u00e3o velha tradi\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\nReconhecemo-lo, imediatamente, nos ritos paralel\u00edsticos, numa enorme liberdade de fantasia enternecida, solid\u00e1ria ou sarc\u00e1stica, proporcionada pelo perfeito entrosamento entre a letras e a m\u00fasica; e em motivos folcl\u00f3ricos rurais ou mar\u00edtimos. Mas o que h\u00e1 de mais fascinante na face po\u00e9tica deste segrel nosso contempor\u00e2neo \u00e9 a gama extraordinariamente rica do seu temperamento. Al\u00e9m do certeiro tino com que sabe escolher poesias alheias muito vocacionadas para o canto, Jos\u00e9 Afonso, como poeta, consegue admir\u00e1veis coisas como estas: recuperar a maior candura infantil ou rural (Balada do Sino), dar a r\u00e9dea mais solta e criadora \u00e0 l\u00edrica pessoal (Chamaram-me Cigano); atingir a invectiva mais flagrante e estimatizadora (Os Eunucos); exprimir o mais persuasivo e generoso companheirismo (Traz outro amigo tamb\u00e9m); colher os mais belos efeitos em incurs\u00f5es \u00e0 beira do sem-sentido (colect\u00e2nea Venham mais cinco); assumir formas de ataque frontal e quase sem met\u00e1fora \u00e0 trai\u00e7\u00e3o antidemocr\u00e1tica farisaicamente legalista (Com as minhas tamanquinhas); aliar a simpatia humana mais pura \u00e0 den\u00fancia da explora\u00e7\u00e3o salarial nas \u00abpra\u00e7as de gente\u00bb, do colonialismo e da viol\u00eancia (L\u00e1 no Xepangara, Cantar Alentejano, Por tr\u00e1s daquela janela).<br \/>\nN\u00e3o foi por simples acaso que o santo-e-senha musical com que se abriram as esperan\u00e7as de Abril veio a ser a Gr\u00e2ndola, Vila Morena. \u00c9 que, na sua serena e directa simplicidade, esta can\u00e7\u00e3o constitui a melhor contraprova da criatividade que noutros poemas-can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso se assinala por inflex\u00f5es imprevis\u00edveis de humor, de intriga ou sequ\u00eancia fr\u00e1sica, de imagem, ou pelo imaginativo jogo de correla\u00e7\u00e3o letra\/ curva mel\u00f3dica\/ harmonia musical. Nesta can\u00e7\u00e3o, hoje emblem\u00e1tica e historicamente imortal, comparecem as grandes aspira\u00e7\u00f5es pelas quais t\u00e3o corajosamente lutaram (os que lutaram) nos anos de sessenta, e por que se continua a lutar nos de oitenta: uma fraternidade real sem mistifica\u00e7\u00f5es televisivas e outras, o direito \u00e0 igualdade de ensejo para todos os portugueses ou portuguesas, a fidelidade ao princ\u00edpio de que \u00abo povo \u00e9 quem mais ordena\u00bb. E nem sequer ali falta a marca da \u00e1rea natal onde, apesar de tanta velhacaria e viol\u00eancia, resiste ainda uma reforma agr\u00e1ria j\u00e1 h\u00e1 seis s\u00e9culos desejada pela peonagem rural patri\u00f3tica de Nun&#8217; \u00c1lvares: uma azinheira erguida a s\u00edmbolo dos anelos t\u00e3o antigos e imorredoiros de liberdade real, numa vila morena como a terra que um dia acabar\u00e1 de ser resgatada para sempre.<\/p>\n<p>\u00d3scar Lopes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso poeta A can\u00e7\u00e3o l\u00edrica e sat\u00edrica de raizes populares, pela qual h\u00e1 quase oito s\u00e9culos principiou o registo da poesia portuguesa, veio encontrar um surpreendente renovo no \u00faltimo dec\u00e9nio, ou pouco mais, de resist\u00eancia ao fascismo e a uma guerra injusta, e depois neste quase dec\u00e9nio mais recente em que tem decorrido um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":16479,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[316],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16478"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16478\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}