{"id":15147,"date":"2012-06-11T10:54:50","date_gmt":"2012-06-11T09:54:50","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=15147"},"modified":"2022-01-15T15:36:19","modified_gmt":"2022-01-15T15:36:19","slug":"pinho-vargas-sobre-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/pinho-vargas-sobre-jose-afonso\/","title":{"rendered":"Pinho Vargas sobre Jos\u00e9 Afonso"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Afonso e a pluralidade dos saberes musicais: discursos e lugares comuns euroc\u00eantricos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSaber m\u00fasica\u201d \u00e9 uma frase corrente nos discursos quotidianos mas envolve muito maior complexidade do que parece \u00e0 primeira vista. Em primeiro lugar porque m\u00fasica, no singular, \u00e9 uma coisa que n\u00e3o existe: h\u00e1 m\u00faltiplas pr\u00e1ticas musicais, muitas m\u00fasicas diferentes, com diferentes modos de aprendizagem e modos de inser\u00e7\u00e3o social. Sempre houve, mas a primazia da cultura ocidental na constru\u00e7\u00e3o do nosso imagin\u00e1rio falsamente universalista impediu-nos de considerar a pluralidade das express\u00f5es e das pr\u00e1ticas musicais do resto do mundo at\u00e9 h\u00e1 um s\u00e9culo. As \u201cHist\u00f3rias da M\u00fasica\u201d publicadas at\u00e9 1950 e mesmo depois, ostentavam esta designa\u00e7\u00e3o e a leitura desse livros mostrava-nos que aquele termo designava apenas a hist\u00f3ria de m\u00fasica ocidental da tradi\u00e7\u00e3o erudita europeia. Aqui radica a primeira forma do eurocentrismo enraizado nos discursos sobre m\u00fasica nos pa\u00edses ocidentais. Destas hist\u00f3rias ficavam de fora todas as outras m\u00fasicas pertencentes \u00e0s outras civiliza\u00e7\u00f5es do mundo, pertencentes a outras culturas musicais, diferentes da m\u00fasica europeia, que se caracteriza antes de mais nada pelo uso da escrita desde o ano 1000, da nota\u00e7\u00e3o musical que aqui teve um desenvolvimento extraordin\u00e1rio mas particular. Justamente sublinhando a import\u00e2ncia decisiva nessa tradi\u00e7\u00e3o musical da nota\u00e7\u00e3o, Richard Taruskin usa, na sua Oxford History of Western Music de 2003, o termo \u201cliterate\u201d para distinguir o seu tra\u00e7o fundamental.<br \/>\nMas n\u00e3o foi apenas o n\u00e3o-ocidental que foi apagado destas narrativas. Na pr\u00f3pria Europa e em simult\u00e2neo com a hist\u00f3ria da m\u00fasica escrita, ligada quase sempre \u00e0s elites culturais e sociais, sempre existiu uma outra m\u00fasica de tradi\u00e7\u00e3o oral, tanto rural, de ra\u00edzes ancestrais, como, a partir de certa altura urbana. Estas tradi\u00e7\u00f5es orais da Europa e do resto do mundo tiveram uma evolu\u00e7\u00e3o lenta, sendo transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o pela via da aprendizagem pela via da transmiss\u00e3o oral e da mem\u00f3ria.<br \/>\nEstas m\u00fasicas \u201csem hist\u00f3ria\u201d, por inexist\u00eancia de suporte de sobreviv\u00eancia material, n\u00e3o foi considerada nas narrativas sen\u00e3o sob a designa\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00fasica popular\u201d, uma esp\u00e9cie de Outro inferior, no interior das pr\u00f3prias sociedades europeias. \u00c9 apenas no s\u00e9culo XIX e XX que surge um estudo e recolha sistem\u00e1tica destas tradi\u00e7\u00f5es orais dos diversos pa\u00edses, quase sempre rurais, associado aos chamados nacionalismos musicais, formas peculiares de encontrar motivos e tem\u00e1tica diversa daquela entretanto tornada can\u00f3nica, dominada em larga medida pela m\u00fasica alem\u00e3, como, ali\u00e1s, ainda hoje se verifica.<br \/>\nEstes factos s\u00e3o conhecidos mas continuam relativamente negligenciados, mesmo nas escolas de m\u00fasica, de tal forma estas se restringiram durante pelo menos 200 anos ao estudo da \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica\u201d, designa\u00e7\u00e3o errada, mas cujo erro passou para a linguagem corrente da mesma forma que uma s\u00e9rie de equ\u00edvocos associados ao dom\u00ednio euroc\u00eantrico do mundo, at\u00e9 \u00e0 segunda metade do s\u00e9culo XX. Essa domina\u00e7\u00e3o verificou-se n\u00e3o apenas no dom\u00ednio pol\u00edtico e militar de vastas regi\u00f5es como no pr\u00f3prio plano epistemol\u00f3gico. O saber ocidental via-se como o \u00fanico \u201cavan\u00e7ado\u201d e v\u00ea-se ainda a si pr\u00f3prio como superior face a outros saberes. A disciplina universit\u00e1ria musicologia, criada na Alemanha no s\u00e9culo XIX, destinava-se ao estudo da m\u00fasica europeia mas, j\u00e1 mais tarde, foi necess\u00e1rio criar outra disciplina, a etnomusicologia, para estudar a m\u00fasica dos diversos Outros. O europeu via-se a si pr\u00f3prio como n\u00e3o tendo etnia. Esta era apenas a dos outros. Este quadro epistemol\u00f3gico marca ainda hoje as disputas pela primazia dos saberes e o di\u00e1logo entre eles \u00e9 uma das tarefas fulcrais da fase atual, a partir da assun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de que nem s\u00f3 o saber t\u00e9cnico-cient\u00edfico, nem a vis\u00e3o da alta cultura ocidentais s\u00e3o v\u00e1lidos. Mas esta hegemonia resiste e persiste sob numerosas formas. Da\u00ed que surja nos discursos correntes a express\u00e3o \u201csaber m\u00fasica\u201d como algo exclusivamente referido a uma outra coisa: \u201csaber ler m\u00fasica escrita\u201d. Saber m\u00fasica \u00e9 muito mais do que apenas isso. Caso contr\u00e1rio ter\u00edamos de considerar que a maior parte das pr\u00e1ticas musicais realmente existentes no mundo seriam realizadas por pessoas que \u201cn\u00e3o sabem uma nota de m\u00fasica\u201d. O s\u00e9culo XX alterou todas as ontologias da m\u00fasica ao obrigar a considerar tudo aquilo que antes tinha sido exclu\u00eddo das narrativas euroc\u00eantricas, fundamentalmente escritas a partir do s\u00e9culo XIX na Europa. A inven\u00e7\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o deu a estas m\u00fasicas existentes para al\u00e9m do seu suporte escrito outro tipo de suporte tecnol\u00f3gico \u2013 a grava\u00e7\u00e3o \u2013 que demonstrou n\u00e3o apenas a sua exist\u00eancia mas assegurou a sua perenidade, anteriormente dependente quase em exclusivo do suporte da \u201cnota\u00e7\u00e3o musical\u201d.<br \/>\nA partir dessa transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica assistiu-se durante todo o s\u00e9culo passado a uma multiplica\u00e7\u00e3o de express\u00f5es musicais, a um aparecimento de numerosos g\u00e9neros novos que agregaram de formas inusitadas algumas destas tradi\u00e7\u00f5es e as prolongaram at\u00e9 hoje de tal modo que se torna apropriado falar de uma tribaliza\u00e7\u00e3o plural de muitas express\u00f5es musicais a par com a domina\u00e7\u00e3o global dos produtos da ind\u00fastria cultural anglo-americana pop-rock. A crise da chamada m\u00fasica cl\u00e1ssica, que tem preocupado v\u00e1rios autores sobretudo nos pa\u00edses de l\u00edngua inglesa, n\u00e3o pode ser dissociada destas transforma\u00e7\u00f5es. A ideia base destas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 o progressivo deslocamento da tradi\u00e7\u00e3o erudita para \u201cas margens ilustres da atividade cultural\u201d. A sua anterior hegemonia, baseada na exist\u00eancia da partitura como \u00fanico suporte de sobreviv\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 amea\u00e7ada pela exist\u00eancia do disco e da sua crescente import\u00e2ncia no lugar da m\u00fasica nas nossas sociedades, inclusivamente na pr\u00f3pria \u00e1rea da \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica\u201d na qual a exist\u00eancia de grava\u00e7\u00f5es passou a ser o ve\u00edculo primeiro de afirma\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o dos artistas tanto os que se dedicam ao repert\u00f3rio hist\u00f3rico, a grande maioria, como os que se dedicam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas obras.<br \/>\n\u00c9 por isso que afirmar que Jos\u00e9 Afonso \u201cn\u00e3o sabia uma nota de m\u00fasica\u201d traduz, de forma clara, uma incompreens\u00e3o das m\u00faltiplas formas dos saberes musicais, muito vastos e variados, incomensur\u00e1veis, e uma aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica dos discursos e dos lugares comuns euroc\u00eantricos que ainda existem fortemente enraizados. Jos\u00e9 Afonso sabia aquilo que precisava de saber e quando queria colaboradores j\u00e1 com uma forma\u00e7\u00e3o comp\u00f3sita entre as tradi\u00e7\u00f5es orais e escritas, coexistentes, arranjou-os. O seu instrumento principal era a voz inesquec\u00edvel e a extraordin\u00e1ria inven\u00e7\u00e3o musical e po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Pinho Vargas<br \/>\nArtigo publicado no Le Monde Diplomatique, edi\u00e7\u00e3o portuguesa, n\u00ba 68, Junho 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso e a pluralidade dos saberes musicais: discursos e lugares comuns euroc\u00eantricos \u201cSaber m\u00fasica\u201d \u00e9 uma frase corrente nos discursos quotidianos mas envolve muito maior complexidade do que parece \u00e0 primeira vista. 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