{"id":14698,"date":"2012-05-18T23:49:33","date_gmt":"2012-05-18T22:49:33","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=14698"},"modified":"2022-02-18T02:44:10","modified_gmt":"2022-02-18T02:44:10","slug":"jose-afonso-em-lourenco-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-em-lourenco-marques\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso em Louren\u00e7o Marques"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_14699\" aria-describedby=\"caption-attachment-14699\" style=\"width: 477px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2012\/05\/Jos\u00e9-Afonso-no-Liceu-Ant\u00f3nio-Enes.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-14699 size-full\" title=\"Jos\u00e9 Afonso no Liceu Ant\u00f3nio Enes\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2012\/05\/Jos\u00e9-Afonso-no-Liceu-Ant\u00f3nio-Enes.jpg\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"340\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14699\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Afonso, ao centro de \u00f3culos e gravata, em Louren\u00e7o Marques, no Liceu Ant\u00f3nio Enes. Foto de Filipe Vieira<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos meados dos anos sessenta (1965), aluno do ent\u00e3o 4\u00ba ano do liceu, em Louren\u00e7o Marques, vi na pauta que esse ano teria como professor de geografia e hist\u00f3ria um tal de Jos\u00e9 ( nota: a pauta omitiu o nome Afonso) Cerqueira dos Santos, ilustre desconhecido. O professor, soube depois, tinha sido pro\u00edbido de ensinar no ent\u00e3o continente e desterrado em Mo\u00e7ambique, sob condi\u00e7\u00e3o, da PIDE, de n\u00e3o se meter em pol\u00edtica. Sentado na primeira fila da aula, reparei no primeiro dia de aulas que o professor trazia um par de pe\u00fagas de cores diferentes. Penteava-se com os dedos. O ar era displicente, o sorriso c\u00famplice e doce. Tais ingredientes, por serem nesse tempo contra a corrente, fascinaram-me. Apresentou-se timidamente e omitiu a actividade no mundo das cantigas. Era um professor excepcional. Incitava-nos \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e a questionar tudo, desde os manuais a ele mesmo. Retive para sempre uma frase:\u201d N\u00e3o estou aqui para impingir, mas para insistir e resistir, convosco de prefer\u00eancia\u201d.<br \/>\nUm dia, na discoteca Baily, em Louren\u00e7o Marques, descobri entre os velhos discos em saldo, um single com o meu professor agarrado a uma velha viola. Zeca Afonso. Duas m\u00fasicas: \u201cMenino do Bairro Negro\u201d e \u201cNatal dos Simples\u201d: Comprei o disco. Na aula seguinte, quando os colegas tinha sa\u00eddo, confrontei o professor com o disco. Disparou, estupefacto: \u201cOnde \u00e9 que arranjaste isso?\u201d. Expliquei o que se tinha passado. O espanto do mestre era leg\u00edtimo \u2013 ele fora expulso de Portugal e proscrito nas r\u00e1dios justamente por causa daquele disco e das posi\u00e7\u00f5es que defendia em defesa dos humilhados, contra a hipocrisia intelectual dominante, todos os dogmatismos e o regime fascista.<br \/>\nHavia, no ent\u00e3o R\u00e1dio Clube de Mo\u00e7ambique, um programa em que semanalmente eram divulgados os cantores mais votados. Elvis Presley liderava. Organizei no liceu uma vota\u00e7\u00e3o para o disco do nosso professor. Teve ades\u00e3o maci\u00e7a. Na semana seguinte, Zeca Afonso liderava o \u201cHit Parade\u201d e assim esteve durante nove semanas. Tive que emprestar o disco ao radialista Jo\u00e3o de Sousa, mais tarde meu colega, que desconhecia o autor. A PIDE acordou. Mandaram confiscar o m\u00f3bil do crime, sentenciando a proibi\u00e7\u00e3o do cantor. Por essa altura, j\u00e1 eu andava em tert\u00falias clandestinas com o meu professor. Ele cantava. Eu dizia o \u201cMostrengo\u201d de Fernando Pessoa. Imaginam o resultado: no fim do ano, a PIDE decretou novo ex\u00edlio ao professor, que foi ensinar para o Liceu P\u00earo de Anaia, na cidade da Beira, a mais de 500 quil\u00f3metros. Depois, seria recambiado para Portugal e definitivamente banido do ensino.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/comunidade.sol.pt\/blogs\/guilhas\/archive\/2007\/03\/30\/ZECA-AFONSO.-mem_F300_rias-in_E900_ditas.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Guilherme Pereira<\/a><br \/>\nFoto e texto <a href=\"http:\/\/delagoabayword.wordpress.com\/2011\/12\/17\/zeca-afonso-em-lourenco-marques-1964-1967\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">retirado daqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos meados dos anos sessenta (1965), aluno do ent\u00e3o 4\u00ba ano do liceu, em Louren\u00e7o Marques, vi na pauta que esse ano teria como professor de geografia e hist\u00f3ria um tal de Jos\u00e9 ( nota: a pauta omitiu o nome Afonso) Cerqueira dos Santos, ilustre desconhecido. 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