{"id":13848,"date":"2012-02-28T22:40:06","date_gmt":"2012-02-28T22:40:06","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=13848"},"modified":"2021-12-17T11:37:53","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:53","slug":"jose-afonso-a-busca-da-utopia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-a-busca-da-utopia\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso: A busca da utopia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00abMandei-lhes um telegrama. Podes p\u00f4r isso l\u00e1 no jornal?\u00bb<br \/>\nOlhei Jos\u00e9 Afonso ainda surpreso pelas suas palavras ciciadas quando o visitei em finais de Junho de 1986. A doen\u00e7a avan\u00e7ava a olhos vistos e fitei-o de novo sem perceber totalmente o alcance da sua pergunta.<br \/>\nInstantes depois tudo se esclarecia: o cantor desejava publicitar que enviara ao Presidente da Guin\u00e9-Bissau Nino Vieira um telegrama de apoio para que n\u00e3o fossem fuzilados os seis condenados \u00e0 morte envolvidos no caso Paulo Correia. Ao tomar esta atitude, Jos\u00e9 Afonso invocou raz\u00f5es de humanidade e as tradi\u00e7\u00f5es human\u00edsticas do PAIGC fundado por Amilcar Cabral.<br \/>\nMesmo aqui, na aparente disson\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao Partido no poder em Bissau, Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o questionava o processo pol\u00edtico guineense nem o apoio que mantinha em rela\u00e7\u00e3o a todos os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o africanos das ex-col\u00f3nias portuguesas.<br \/>\nDe resto, a realidade colonial que conheceu de perto, sobretudo em Mo\u00e7ambique, foi marcante na sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e at\u00e9 na sua m\u00fasica.<br \/>\nSempre de costas para o poder, apenas se lhe reconhecem dois per\u00edodos, ou situa\u00e7\u00f5es, em que lhe concedeu o seu apoio: no per\u00edodo de 25 de Abril a 25 de Novembro, colaborando activamente com as iniciativas da 5\u00aa Divis\u00e3o e do MFA em rela\u00e7\u00e3o aos regimes de Angola, Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9-Bissau, Cabo Verde e S. Tom\u00e9. Esta postura perante os v\u00e1rios e sucessivos poderes, aqui e al\u00e9m fronteiras, \u00e9 um dos aspectos mais salientes da sua obra.<br \/>\nCuriosamente, apenas uma vez Jos\u00e9 Afonso concede comparecer a um jantar de Estado, no Pal\u00e1cio da Ajuda: aquando da visita de Samora Machel a Portugal, com quem na ocasi\u00e3o estabelece uma breve conversa.<br \/>\nEra um homem em desobedi\u00eancia civil permanente assumindo-a no sarcasmo e na ironia com que encarava o pomposo da realidade, da vida, da morte ou do Estado.<br \/>\nE todo este olhar perante o mundo se desdobra em sucessivas can\u00e7\u00f5es desde a \u00e9poca coimbr\u00e3 ao per\u00edodo p\u00f3s-25 de Abril, abrindo perspectivas inovadoras na m\u00fasica popular portuguesa e acabando por constituir um ponto de refer\u00eancia pol\u00edtica e \u00e9tica para v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es.<br \/>\nExigente em tudo o que fazia, excessivo no juizo cr\u00edtico e na vigil\u00e2ncia que impunha a si pr\u00f3prio, Jos\u00e9 Afonso sempre se escusou a admitir ser um mito. Em todo o caso, para al\u00e9m da sua vontade, ele \u00e9 hoje, mais do que nunca, um mito do imagin\u00e1rio referencial, quer dos seus admiradores quer de quantos dele divergiam.<br \/>\n\u00abEu um mito?\u00bb \u2013 interroga-se um dia. \u00abS\u00f3 sinto que sou mito quando me falam disso. O facto \u00e9 que em muitos ambientes fui bem estimado e em outros hostilizado de modo grosseiro\u00bb.<br \/>\nEnvolvido na timidez dos seus gestos e na sobriedade das suas atitudes, o autor de \u00abMenino do Bairro Negro\u00bb tem uma inf\u00e2ncia repartida por Aveiro, onde nasceu em 1929, Angola, Mo\u00e7ambique, onde o pai desempenhou sucessivamente fun\u00e7\u00f5es de Procurador da Rep\u00fablica e de Juiz.<br \/>\nA experi\u00eancia africana infantil permanece-lhe na mem\u00f3ria assim como a imagem do pai, de quem fica afastado largos anos, quando este parte para Timor durante a II Guerra e para Mo\u00e7ambique mais tarde.<br \/>\nTodo o espa\u00e7o de liberdade e subvers\u00e3o transmitido pela realidade f\u00edsica africana transparece na sua obra e nas suas obsess\u00f5es, assim como muitas das suas refer\u00eancias surrealizantes expressas nas suas can\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDo pai herda o rigor \u00e9tico e a pesquisa da informa\u00e7\u00e3o cultural que passa pelos cl\u00e1ssicos portugueses (ao fim da tarde, ele reunia os filhos \u2013 Jo\u00e3o e Zeca e Mariazinha \u2013 e lia-lhes poemas de Cam\u00f5es\u2026) e por escritores como Proust e Romain Rolland. Mas para al\u00e9m disso, Jos\u00e9 Nepomuceno transmite ao filho Jos\u00e9 Afonso o grande prazer de conversar. \u00abMeu pai queria que eu fosse doutor e n\u00e3o cantador. No final da sua vida j\u00e1 aceitava, quando soube que eram can\u00e7\u00f5es contra o regime. Mas o pai de Jos\u00e9 Afonso morreria sem nunca o ter ouvido cantar.<br \/>\nNo quotidiano, do autor da \u00abCan\u00e7\u00e3o do Medo\u00bb entravam in\u00fameras hist\u00f3rias, recorda\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias que contava aos amigos durante largas conversas.<br \/>\nConversador, contador de hist\u00f3rias, Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o esqueceu os tempos passados em Belmonte, onde um tio lhe vestiu a farda da Mocidade Portuguesa sem lhe esconder as suas tend\u00eancias salazaristas e pr\u00f3-hitlerianas.<br \/>\nQuando Jos\u00e9 Afonso come\u00e7a a cantar, em Coimbra, por volta do 6.\u00ba ano do liceu, est\u00e1 pr\u00f3ximo o seu casamento com Am\u00e1lia, de quem vem a ter os seus dois primeiros filhos. O casal encontra dificuldades de ordem diversa e pela primeira vez o cantor experimenta na carne as agruras da vida. Matrim\u00f3nio desfeito, dificuldades econ\u00f3micas, remete os filhos para Mo\u00e7ambique, onde s\u00e3o recebidos em casa dos pais. Sua irm\u00e3 Mariazinha, a quem o liga um afecto particular, desempenha um papel particular nesta conjuntura.<br \/>\nEm Coimbra, Jos\u00e9 Afonso passa pelas Rep\u00fablicas, onde conhece a solidariedade e a bo\u00e9mia acad\u00e9mica. Tem os primeiros contactos com clubes recreativos e joga futebol (\u00abEntreguei-me totalmente \u00e0 m\u00edstica da chamada Briosa\u00bb), acompanhando a Acad\u00e9mica um pouco por toda a parte.<br \/>\nE canta, em serenatas, \u00abem festarolas de aldeia, outras vezes em casa\u2026 Era um sujeito qualquer que queria convidar uns tantos estudantes de Coimbra, enchia-nos a barriga de vinho, e a malta cantava\u2026\u00bb. Nos finais dos anos 40, quando Carmona passa de comboio por Coimbra em campanha contra Norton de Matos, Zeca, de emo\u00e7\u00e3o, cchora que \u00abnem um vitelo\u00bb ao ver o antigo chefe de Estado. \u00c9 o tempo das boleias, da capa e batina (\u00abPorque um tipo de capa e batina era rei nas estradas\u00bb) que lhe permite os primeiros contactos com os meios miser\u00e1veis do Porto, no Bairro do Barredo, que motivar\u00e1 a can\u00e7\u00e3o \u00abMenino do Bairro Negro\u00bb.<br \/>\nSem uma postura ainda politizada, Jos\u00e9 Afonso \u00e9 sens\u00edvel aos dramas sociais que as suas viagens lhe desvendam.<br \/>\nS\u00f3 em 58\/59 com o surgimento de Humberto Delgado e a crise acad\u00e9mica de 1962 \u2013 j\u00e1 Jos\u00e9 Afonsoi dava aulas e conhecera Z\u00e9lia \u2013 se processa uma viragem na sua evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-cultural. O alvoro\u00e7o pol\u00edtico provocado tanto pelo general Humberto Delgado como pelo movimento estudantil de 62 reflectem-se na pr\u00f3pria obra de Jos\u00e9 Afonso. \u00c9 de 1958 a publica\u00e7\u00e3o do seu primneiro disco \u2013 \u00abBaladas de Coimbra\u00bb, com \u00abMenino d\u2019Oiro\u00bb, \u00abNo largo do Breu\u00bb, \u00abTenho barcos, tenho remos\u00bb e \u00abSenhor Poeta\u00bb, can\u00e7\u00f5es que se desviam da tradi\u00e7\u00e3o coimbr\u00e3 pura, tanto nas tem\u00e1ticas como na interpreta\u00e7\u00e3o. Zeca \u00e9 apenas acompanhado \u00e0 viola por Rui Pato. Como tantas vezes suceder\u00e1 ao longo da sua vida, apenas suportado por cordas de viola. N\u00e3o havia as guitarras de Coimbra que Adriano Correia de Oliveira, por exemplo, nunca abandonaria.<br \/>\nOs discos posteriores aprofundam esta experi\u00eancia. Continua Rui Pato, a acompanh\u00e1-lo sozinho, e os poemas s\u00e3o mais empenhados do ponto de vista social: \u00abMenino do Bairro Negro\u00bb e depois \u00abVampiros\u00bb, uma balada emblem\u00e1tica das suas posi\u00e7\u00f5es antifascistas.<br \/>\nEvidentemente que nesta \u00e9poca Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o abandonou o lirismo de Coimbra \u2013 que de resto o acompanha um pouco por toda a vida, assim como o fado de Coimbra, como se verifica em 1980 quando publica o seu album \u00abFados de Coimbra\u00bb, dedicados \u00e0 mem\u00f3ria do seu pai e de Edmundo Bettencourt (um dos seus poetas preferidos). Mas a componente social continua a marcar preferencialmente a sua obra.<br \/>\nAs dificuldades econ\u00f3micas que atravessou em Coimbra obrigaram-no a abandonar os estudos e a daegrina\u00e7\u00e3o docente iniciada em Mangualde acaba por conduzi-lo at\u00e9 ao Algarve, onde convive com Luiza Neto Jorge, Ant\u00f3nio Ramos e Z\u00e9lia, com quem \u2013 \u00abum pouco ao jeito siciliano\u00bb \u2013 acaba por casar contra a vontade da fam\u00edlia da noiva.<br \/>\nA companhia da Z\u00e9lia \u00e9 determinante na evolu\u00e7\u00e3o do poeta. Abrindo-lhe espa\u00e7o para os seus devaneios criativos, escutando-lhe os rumores e os humores, envolvendo-o numa serena e profunda ternura, Z\u00e9lia seguiu-lhe o percurso e apoiou-o onde a sua ac\u00e7\u00e3o foi indispens\u00e1vel. Seria ela a sugerir-lhe o regresso a Mo\u00e7ambique para assim poder acompanhar os filhos do primeiro casamento. E em 1964 Jos\u00e9 Afonso est\u00e1 de novo no ent\u00e3o Louren\u00e7o Marques onde uma vez mais sente o peso da explora\u00e7\u00e3o colonial.<br \/>\nDe Louren\u00e7o Marques salta para a Beira. A\u00ed assiste revoltado \u00e0s festividades dos colonos portugueses que apoiam a independ\u00eancia unilateral da Rod\u00e9sia de Jan Smith. Apesar da presen\u00e7a do irm\u00e3o Jo\u00e3o Afonso e dos amigos do cineclube local que chegam a encenar Brecht com m\u00fasicas suas, Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o resiste e volta a Lisboa em 1967 na disposi\u00e7\u00e3o, como revelou a Adelino Gomes, \u00e0 chegada, de ser apenas e exclusivamente professor.<br \/>\nInstalado em Set\u00fabal, os seus des\u00edgnios n\u00e3o ser\u00e3o satisfeitosw e a expuls\u00e3o do ensino oficial por motivos pol\u00edticos impele-o para as cantigas. O destino era-lhe um tanto tra\u00e7ado pelas persegui\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Pol\u00edtica. E abre-se um novo ciclo, marcado pelo aparecimento em 1968 do album \u00abCantares do Andarilho\u00bb.<br \/>\nAt\u00e9 ao 25 de Abril, assistimos a um dos per\u00edodos mais fecundos e brilhantes da sua actividade art\u00edstica que se confundia (ou fundia) com uma intensa actividade de agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clandestina, sobretudo os n\u00facleos da LUAR e do PCP da Margem Sul.<br \/>\nPreso diversas vezes pela PIDE (\u00abcomo sabes eu estou preso mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou um homem mau. Viste como foi. N\u00e3o sejas rabugenta e ajuda o Pedro\u00bb, escreve ele de Caxias \u00e0 sua filha Joana em 1973), desenvolve uma dupla ac\u00e7\u00e3o de agita\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica que o leva a colectividades, clubes recreativos, associa\u00e7\u00f5es culturais e sindicatos colaborando activamente no movimento constitutivo da Intersindical.<br \/>\n\u00c9 neste per\u00edodo contactado da margem sul para aderir ao PCP mas recusa, invocando a sua condi\u00e7\u00e3o de classe. \u00abRespondi que n\u00e3o poderia ser elemento do PCP por v\u00e1rias raz\u00f5es, uma das quais era a minha origem de classe pequeno-burguesa. A \u00fanica coisa que sabia de certeza eram as minhas limita\u00e7\u00f5es e n\u00e3o me arriscava a fraquejar. Se um dia fosse preso e denunciasse camaradas isso constituiria para mim uma experi\u00eancia da qual nunca me sairia bem. Nunca perdoaria a mim pr\u00f3prio um momento de fraqueza desses. No fundo, gostava tamb\u00e9m de me movimentar numa certa margem de inven\u00e7\u00e3o. E pressentia que existiam outras for\u00e7as embora o PCP fosse hegem\u00f3nico naquela zona\u00bb.<br \/>\nA escusa de Jos\u00e9 Afonso consagrava, afinal, a sua rebeldia permanente, o seu imagin\u00e1rio sem r\u00e9deas e possivelmente incompat\u00edvel com qualquer disciplina partid\u00e1ria. E sugeria algo que sempre o perseguiu e de que sempre procurou libertar-se: o medo, embora a sua vida e pr\u00e1tica social ilustrem a coragem da sua postura. Mas o facto de n\u00e3o aderir ao PC n\u00e3o impediu que as for\u00e7as mao\u00edstas de v\u00e1rios quadrantes o classificassem depreciativamente, de, antes do 25 de Abril, \u00abAm\u00e1lia do PC\u00bb.<br \/>\nMas tamb\u00e9m n\u00e3o o impediu de colaborar, antes e depois do 25 de Abril, com o seu PCP. O seu n\u00e3o alinhamento organizativo concedia-lhe uma grande margem de manobra suportado pelo seu talento art\u00edstico. Canta na Festa do Avante, em 1980, e durante a sua enfermidade \u00c1lvaro Cunhal, embora sem o visitar, coloca \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o os seus pr\u00e9stimos caso houvesse not\u00edcia de cura para sua doen\u00e7a na URSS, como em tempos se admitira.<br \/>\nA CGTP vai um pouco mais longe e mant\u00e9m-lhe um apoio inequ\u00edvoco incluindo o de car\u00e1cter material, como de resto v\u00e1rias outras entidades n\u00e3o oficiais, amigos e admiradores an\u00f3nimos.<br \/>\nSucessivamente publicar\u00e1 \u00abContos Velhos, Rumos Novos\u00bb, \u00abTraz Outro Amigo Tamb\u00e9m\u00bb e \u00abCantigas do Maio\u00bb, com que inicia uma colabora\u00e7\u00e3o activa com Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco que se prolongou at\u00e9 hoje.<br \/>\nEste album marcar\u00e1 particularmente a sua carreira, pois nela se incluem \u00abCantar Alentejnao\u00bb, can\u00e7\u00e3o mais conhecida por Catarina, e \u00abGr\u00e2ndola Vila Morena\u00bb. \u00c9 sobretudo a partir deste trabalho que o chamado \u00abnacional-can\u00e7onetismo\u00bb, j\u00e1 na era marcelista, sente a necessidade de encontrar respostas musicais do regime face ao contar Jos\u00e9 Afonso.<br \/>\nMas nascem novos cantores: Jos\u00e9 M\u00e1rio Btranco, Sergio Godinho, Luis Cilia, Fanhais, Manuel Freire e mais tarde Vitorino, Fausto, J\u00falio Pereira e Janita Salom\u00e9, um grupo heterog\u00e9neo que comunga o mesmo referencial e o mesmo prop\u00f3sito: Jos\u00e9 Afonso e o alargamento dos espa\u00e7os da m\u00fasica popular portuguesa.<br \/>\nNum outro plano, Adriano Correia de Oliveira, embora fiel \u00e0s formas tradicionais de Coimbra, opta por dar voz \u00e0 poesia de Manuel Alegre, que Zeca Afonso curiosamente nunca cantou.<br \/>\nMas Jos\u00e9 Afonso e os outros cultores da chamada MPP criaram tamb\u00e9m um grau de exig\u00eancia maior por parte do p\u00fablico, que se reflectiu tanto no panorama da m\u00fasica ligeira como no pr\u00f3prio fado. Am\u00e1lia pasa a cantar Cam\u00f5es, Alexandre O\u2019Neill, Homem de Mello, David Mour\u00e3o-Ferreira, e na chamada can\u00e7\u00e3o ligeira surgem int\u00e9rpretes de maior qualidade como Paulo de Carvalho ou Fernando Tordo.<br \/>\nNingu\u00e9m ficou indiferente \u00e0 ac\u00e7\u00e3o musical de Jos\u00e9 Afonso, que at\u00e9 ao 25 de Abril ainda publicaria \u00abEu vou ser como a toupeira\u00bb e \u00abVenham mais cinco\u00bb.<br \/>\nO 25 de Abril, desencadeado por \u00abGR\u00e2ndola Vila Morena\u00bb, surpreende-o e \u00abobriga-o\u00bb a participar activamente em todas as ac\u00e7\u00f5es de massas. Ocupa\u00e7\u00f5es de casas e terras no Alentejo, manifesta\u00e7\u00f5es, com\u00edcios, ac\u00e7\u00f5es de dinamiza\u00e7\u00e3o no nordeste, a tudo Jos\u00e9 Afonso se entrega de forma esgotante. Canta por toda a parte e s\u00f3 em 1975 volta a publicar um album \u2013 \u00abCoro dos Tribunais\u00bb \u2013 com can\u00e7\u00f5es que fizera em Mo\u00e7ambique para a pe\u00e7a de Brecht e outros originais, como \u00abL\u00e1 no Xepangara\u00bb, que o revela ligado ao ritmo e tend\u00eancias de \u00c1frica. Aqui, desempenha especial colabora\u00e7\u00e3o Fausto, tamb\u00e9m ele directo conhecedor dessas experi\u00eancias musicais africanas.<br \/>\nAt\u00e9 ao 25 de Novembro \u00e9 um verdadeiro rodopio, prevalecendo uma colabora\u00e7\u00e3o estreita entre o cantor e a LUAR. O desencanto posterior \u2013 jamais calar\u00e1, por exemplo, o \u00abesc\u00e2ndalo dos sal\u00e1rios em atraso\u00bb, ou a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora da regi\u00e3o de Set\u00fabal, onde vive at\u00e9 morrer \u2013 os pr\u00f3prios acontecimentos que o levaram a escrever ao PAIGC, para Bissau, e posterior evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica encenada pelos v\u00e1rios Governos constitucionais abrem-lhe espa\u00e7o para se dedicar mais cuidadosamente \u00e0 sua obra.<br \/>\nOs albuns \u00abCom as minhas Tamanquinhas\u00bb, \u00abEnquanto H\u00e1 For\u00e7a\u00bb e \u00abFura-Fura\u00bb, s\u00e3o verdadeiras cr\u00f3nicas do per\u00edodo revolucion\u00e1rio e p\u00f3s-revolucion\u00e1rio. A hist\u00f3ria que se fez confunde-se com a sua vida e obra: sendo protagonista de tantos acontecimentos, \u00e9 tamb\u00e9m o seu jogral \/ narrador.<br \/>\nPoliticamente, manifesta o seu apoio claro a Otelo Saraiva de Carvalho em 1976 e em 1981, e estabelecdeu com ele uma amizade profunda. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1986, Jos\u00e9 Afonso apoia Maria de Lurdes Pintasilgo, que corresponde \u00e0s suas convic\u00e7\u00f5es, e confian\u00e7a nas organiza\u00e7\u00f5es populares de base, cujo papel social a ex-primeira-ministra se propunha enriquecer.<br \/>\nCom mos seus dois \u00faltimos albuns publicados em vida, \u00abComo se Fora seu Filho\u00bb e \u00abGalinhas do Mato\u00bb (este j\u00e1 com a colabora\u00e7\u00e3o vocal de outros cantores), Jos\u00e9 Afonso prossegue as suas vertentes est\u00e9ticas e pol\u00edticas. Por um lado, um grande enriquecimento musical a que n\u00e3o \u00e9 estranho no primeiro caso a colabora\u00e7\u00e3o de Fausto, J\u00falio Pereira e Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e, no segundo, a destes dois \u00faltimos. Por outro lado, Jos\u00e9 Afonso continua a sua actividade cronista e aponta a sua proposta ut\u00f3pica que sempre perseguiu em vida. A constru\u00e7\u00e3o da cidade sem barreiras de homens iguais e livres \u00e9 cantada em \u00abUtopia\u00bb inserta no primeiro daqueles albuns.<br \/>\nEm cada disco que sa\u00eda Jos\u00e9 Afonso encontrava motivo de cr\u00edtica. Nunca um disco o satisdfez completamente. Depois de publicados, como confessava, era incapaz de se ouvir e de ouvi-los. Esta exig\u00eancia sobre si pr\u00f3prio n\u00e3o o poder\u00e1 agora assumir quando ainda este ano for publicado um novo album da sua autoria, para o qual deixou originais e todas as indica\u00e7\u00f5es. Provavelmente na capa seria ironizada a figura do presidente da C\u00e2mara de Lisboa, Nuno Abecassis \u2013 cuja verea\u00e7\u00e3o, posinal, j\u00e1 concedeu o nome de uma da rua da capital a Jos\u00e9 Afonso.<br \/>\nMesmo depois de morto, Jos\u00e9 Afonso continua assim de costas viradas para o poder \u2013 que \u00e0 boa tradi\u00e7\u00e3o portuguesa se preocupa em fazer agora o que lhe recusou em vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Texto de Jos\u00e9 A. Salvador publicado a 28 de Fevereiro de 1987 no jornal \u00abExpresso\u00bb.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abMandei-lhes um telegrama. Podes p\u00f4r isso l\u00e1 no jornal?\u00bb Olhei Jos\u00e9 Afonso ainda surpreso pelas suas palavras ciciadas quando o visitei em finais de Junho de 1986. A doen\u00e7a avan\u00e7ava a olhos vistos e fitei-o de novo sem perceber totalmente o alcance da sua pergunta. 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