{"id":13757,"date":"2012-02-25T13:22:40","date_gmt":"2012-02-25T13:22:40","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=13757"},"modified":"2021-12-17T11:37:54","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:54","slug":"25-anos-com-zeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/25-anos-com-zeca\/","title":{"rendered":"25 anos com Zeca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nestes dias em que tanto se fala de Jos\u00e9 Afonso e do seu g\u00e9nio, gosto sobretudo de recordar que, para al\u00e9m da m\u00fasica, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral \u2013 o que s\u00f3 se alcan\u00e7a quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradi\u00e7\u00f5es comuns a todos os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 hoje uma tend\u00eancia, por parte de alguns dos seus\/meus amigos (e porventura ainda mais dos que nunca o conheceram, \u00e0 parte umas quantas adultas e descompassadas bestas que ainda n\u00e3o desistiram de demoniz\u00e1-lo como perigoso agitador comunista), uma tend\u00eancia, dizia, para um certo culto da mem\u00f3ria de Zeca Afonso que tende a transform\u00e1-lo numa \u00abunanimidade nacional\u00bb ou, pior ainda, numa esp\u00e9cie de \u00absanto de madeira\u00bb, como diria Nicanor Parra. E isso \u00e9 mau e injusto \u2013 uma inverdade, como agora se diz em linguagem jornal\u00edstico-parlamentar \u2013 porque o Zeca nunca quis ser un\u00e2nime. Ele escolheu conscientemente o lado da vida onde queria estar, mesmo sabendo que isso implicava um pre\u00e7o a pagar. E pagou-o, com juros elevad\u00edssimos, como bem sabemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Zeca era um homem preocupado como poucos com os problemas dos seus iguais. O que n\u00e3o o impedia de ter um sentido de humor frequentemente sibilino, de que ali\u00e1s h\u00e1 testemunho em v\u00e1rias das suas can\u00e7\u00f5es ou em pormenores que fazia incluir nos discos \u2013 fossem as estramb\u00f3licas introdu\u00e7\u00f5es improvisadas de temas como Senhor Arcanjo ou Rio Largo de Profundis, ou detalhes impercept\u00edveis a olhares menos atentos \u2013 e deixem s\u00f3 que lembre, de passagem e porque a prop\u00f3sito, a ficha t\u00e9cnica da edi\u00e7\u00e3o original do \u00e1lbum Coro dos Tribunais (Orfeu, 1974) onde, a par dos v\u00e1rios instrumentos, incluiu uma subtil refer\u00eancia aos \u00abgases e flatul\u00eancias\u00bb executados, digamos assim, no est\u00fadio por ele pr\u00f3prio, pelo Adriano, o Fausto e o Carlos Moniz \u2013 o que ainda hoje \u00e9 recorda\u00e7\u00e3o gaudiosa, como bem se entende\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Jos\u00e9 Afonso que conheci era um homem que conjugava uma grande aptid\u00e3o para o di\u00e1logo com uma inamov\u00edvel capacidade de indigna\u00e7\u00e3o. E era, claro, um indiv\u00edduo complexo, por vezes dif\u00edcil, intransigente consigo mesmo e com os outros, mas tamb\u00e9m capaz da complac\u00eancia, com muito mais d\u00favidas do que certezas. E \u00e9 essa dimens\u00e3o que faz dele um ser de excep\u00e7\u00e3o, para l\u00e1 do genial poeta e compositor e cantor que foi \u2013 e continua a ser. Ou, se quisermos, como escreveu Baptista-Bastos sobre Che Guevara: \u00abhavia nele qualquer coisa de divino porque era simplesmente um homem\u00bb.<br \/>\nRecordemo-lo assim, ent\u00e3o, porque \u00e9 assim que se mant\u00e9m vivo tudo aquilo que nos legou.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viriatoteles.net\/pt\/25-anos-com-zeca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Viriato Teles<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestes dias em que tanto se fala de Jos\u00e9 Afonso e do seu g\u00e9nio, gosto sobretudo de recordar que, para al\u00e9m da m\u00fasica, o Zeca era acima de tudo um homem. 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