{"id":13699,"date":"2012-02-23T12:55:14","date_gmt":"2012-02-23T12:55:14","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=13699"},"modified":"2021-12-17T11:37:54","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:54","slug":"entrevista-a-arnaldo-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/entrevista-a-arnaldo-trindade\/","title":{"rendered":"Entrevista a Arnaldo Trindade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2012\/02\/Arnaldo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-13700\" title=\"Arnaldo\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2012\/02\/Arnaldo.jpg\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"268\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arnaldo Trindade.\u201cO Zeca era um \u2018charmeur\u2019 com um humor extraodin\u00e1rio\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em 1968, contra tudo e todos, o criador da editora Orfeu arriscou editar \u201cum g\u00e9nio sensacional\u201d. Jos\u00e9 Afonso morreu h\u00e1 25 anos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na efervesc\u00eancia da Invicta, um jovem Arnaldo Trindade, grande coleccionador de discos, associou \u00e0 importa\u00e7\u00e3o da marca de electrodom\u00e9sticos Philco a edi\u00e7\u00e3o discogr\u00e1fica pr\u00f3pria, depois de o pai ter criado uma editora que lan\u00e7ava discos da Polydor. Da etiqueta Orfeu sairiam muito mais que mitos, com a edi\u00e7\u00e3o fonogr\u00e1fica assente na vertente comercial e divulga\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Dos anos 40 para finais de 60, quando a editora da Rua da Santa Catarina arriscou engrossar o cat\u00e1logo da \u201cm\u00fasica de tema\u201d com um cantor \u201cnervoso\u201d, que \u00e0 falta da caixa de calmantes s\u00f3 gravou \u201cCantigas do Maio\u201d gra\u00e7as a um truque do judo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Como come\u00e7ou a sua rela\u00e7\u00e3o com o Jos\u00e9 Afonso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na altura ele tinha acabado de fazer o EP com os \u201cVampiros\u201d [1963], que foi o primeiro disco dele proibido. Passado uns tempos fez outra obra, o \u201cCantares de Andarilho\u201d, e nenhuma editora quis gravar, por receio de o proibirem. Chegaram \u00e0 minha firma atrav\u00e9s do Rui Pato, que tocava e produzia. O disco era uma maravilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>N\u00e3o teve receio de avan\u00e7ar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um jovem e achava que se deviam fazer as coisas. Tive uma educa\u00e7\u00e3o nos EUA, tinha a ideia do que era a liberdade, de toda a gente ter uma voz, mesmo que as ideias fossem contr\u00e1rias. N\u00e3o comungava totalmente com as ideias do Jos\u00e9 Afonso. Claro que tamb\u00e9m n\u00e3o era a favor da situa\u00e7\u00e3o vigente. Sempre fui um social democrata. Como o Jos\u00e9 Afonso, era adepto de um mundo melhor. Aceitei gravar o \u00e1lbum, contra tudo. Era t\u00e3o bom que n\u00e3o devia ficar encalhado. Ele foi logo passar uns dias ao Porto. Era uma pessoa extraordin\u00e1ria, de um grande charme. Contra tudo o que possam dizer hoje, o Jos\u00e9 Afonso era um \u201ccharmeur\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar de dizerem que n\u00e3o tinha um feitio sempre f\u00e1cil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha um feitio um bocadinho complicado, mas quando tinha um interlocutor como eu, tamb\u00e9m com um feitio complicado, era mais f\u00e1cil. Gost\u00e1vamos ambos de boas m\u00fasicas e ele vinha de uma classe social alta, era filho de ju\u00edzes. Tinha ber\u00e7o, educa\u00e7\u00e3o, muito bons termos e um humor extraordin\u00e1rio. Disse-lhe para fazermos um contrato a s\u00e9rio. Ele na altura n\u00e3o tinha meios de sobreviv\u00eancia. Tinha sido expulso da escola em que ensinava.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Estamos a falar de 1968, depois do \u00e1lbum \u201cBaladas e Can\u00e7\u00f5es\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exactamente. Esse, de 1964, n\u00e3o \u00e9 nosso. Era in\u00f3cuo, podia-se gravar porque eram s\u00f3 baladas. Depois com o \u201cAndarilho\u201d \u00e9 que come\u00e7ou a mexer com tudo. Criei um sistema engra\u00e7ado que j\u00e1 tinha com o Adriano Correia de Oliveira, que foi uma das pessoas que insistiu muito para fazer contrato com o Zeca.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>\u00c9 verdade que foi um contrato olhos nos olhos, sem pap\u00e9is?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, mas depois foi escrito. Eu dava um x ao Zeca, que na altura j\u00e1 era bastante. O Jos\u00e9 Niza, que tamb\u00e9m entrou na nossa firma, muito amigo do Zeca e do Adriano, tinha a obriga\u00e7\u00e3o de me trazer cantores novos. Trouxeram o Fausto, o S\u00e9rgio Godinho, o Padre Fanhais. Dessa \u00e9poca, s\u00f3 n\u00e3o gravei o Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco. Fez um pedido muito elevado nas condi\u00e7\u00f5es, superior ao do Zeca, e considerei que n\u00e3o dava.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Quanto ganhava o Jos\u00e9 Afonso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o equivalente a poder comprar tr\u00eas autom\u00f3veis novos por ano. Quem fez esse c\u00e1lculo foi o Jos\u00e9 Niza, que estava a fazer a minha biografia quando morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Recorda-se de epis\u00f3dios durante a grava\u00e7\u00e3o do \u201cCantares de Andarilho\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o tinham gravado, mas profissionalmente fomos ao Monte da Virgem, no est\u00fadio da RTP. O Zeca era uma pessoa muito nervosa e levava sempre uma caixa de comprimidos para os nervos. S\u00f3 que tinha-se esquecido da caixa. Dizia que n\u00e3o ia gravar. O Adriano disse-lhe para ele tirar os sapatos e come\u00e7ou a dar-lhe uns toques de judoca nas palmas dos p\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Funcionou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficou bom e l\u00e1 gravou. O Zeca era uma pessoa muito engra\u00e7ada. Era obriga\u00e7\u00e3o dele, e de outros contratados, vir ao Porto uma vez por m\u00eas. Deviam gravar um disco por ano para poderem receber x, e depois, claro, eram pagos pelas grava\u00e7\u00f5es, direitos de autor, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Cumpria a visita mensal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Zeca nunca me falhou em nada. Era um profissional aut\u00eantico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Conviviam fora do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9ramos amigos. A primeira coisa que ele me ofereceu foi o \u201cCem anos de Solid\u00e3o\u201d, do Garc\u00eda Marquez. Depois vinha para a minha discoteca, ouvir e comprar discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>O que gostava de comprar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adorava canto gregoriano, Bach, Debussy, Stravinsky. H\u00e1 um m\u00eas, em Lisboa, conheci um professor de m\u00fasica da Universidade de \u00c9vora que o conheceu muito bem na Holanda. Mostrou como no Zeca, n\u00e3o sabendo nada de m\u00fasica, todas as can\u00e7\u00f5es s\u00e3o musicalmente correctas. Perguntou-me se eu sabia se ele gostava de canto gregoriano. Gostava e muito! H\u00e1 coisas dele que s\u00e3o canto gregoriano puro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Chegou a ser incomodado pela PIDE?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, conviv\u00edamos bem com o problema. As letras eram subentendidas e eles eram muito iludidos. Depois, o Jos\u00e9 Niza era muito amigo do indiv\u00edduo que estava \u00e0 frente do SNI [Pedro Feytor Pinto, do Secretariado Nacional de Informa\u00e7\u00e3o]. Prop\u00fanhamos-lhe as letras que podiam levantar d\u00favidas e eles faziam uma pr\u00e9-selec\u00e7\u00e3o, para evitarmos gastos e depois ir tudo para o galheiro. Nunca tivemos um disco proibido do Zeca.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Os discos vendiam-se bem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se vendia bem. Come\u00e7ou-se a vender sobretudo a partir da pedrada no charco, com o \u201cCantigas do Maio\u201d, por causa do \u201cGr\u00e2ndola\u201d. O Zeca era um cantor de elite. A qualidade dele \u00e9 extraordin\u00e1ria e \u00e9 dos melhores poetas portugueses. Estamos a falar de um tempo em que o que vendia era fado e folclore.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>A que juntou a \u201cm\u00fasica de tema\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tivemos a sorte da nossa firma n\u00e3o viver s\u00f3 da m\u00fasica. Era das mais importantes distribuidoras de electrodom\u00e9sticos do pa\u00eds, da Philco, e a sec\u00e7\u00e3o de discos fui eu que a criei, porque o meu pai e o meu tio, os propriet\u00e1rios, tinham mais que fazer. Gravei os maiores poetas portugueses ditos por eles mesmos. Comecei com o Miguel Torga, o Jos\u00e9 R\u00e9gio, a Agustina.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Tinha no\u00e7\u00e3o do impacto que o \u201cGr\u00e2ndola\u201d teria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o. Gravei o \u201cCantigas do Maio\u201d porque achei que era o melhor disco feito em Portugal. Foi o nosso maior investimento. Custou-me mil contos, o que na altura era um bal\u00fardio, e fomos gravar aos Strawberry Studios, o maior est\u00fadio da Europa, onde na v\u00e9spera tinham estado os Stones. A produ\u00e7\u00e3o foi do Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e foram todos l\u00e1 cantar, o Adriano, o Fausto, o Vitorino. Um detalhe engra\u00e7ado foi como foi feito o som da marcha. Os p\u00e9s dos m\u00fasicos a deslizar no saibro do castelo, que deram aquele som important\u00edssimo. \u00c9 uma obra-prima da m\u00fasica portuguesa e foi o que vendeu mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Sobretudo depois do \u201cGr\u00e2ndola\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, fez-se um single e tudo, vendeu-se para todo o mundo, excepto para os pa\u00edses de leste. Como \u00e9 que podiam gostar de uma m\u00fasica onde se dizia que \u201co povo \u00e9 quem mais ordena\u201d?!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Como foi o trajecto na editora depois do 25 de Abril?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabou-se aquela linguagem subentendida, poeticamente muito mais bonita. O Zeca envolveu-se na parte pol\u00edtica. Mas aten\u00e7\u00e3o que o Zeca nunca foi nem quis ser do PCP.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Falavam sobre pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o discuti pol\u00edtica com ele, mas convers\u00e1vamos. Perguntava-lhe como \u00e9 que ele se dava comigo n\u00e3o sendo eu comunista. \u201cTamb\u00e9m n\u00e3o sou comunista\u201d, dizia-me ele. \u201cSou um revolucion\u00e1rio, e a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se pode fazer sem a burguesia liberal\u201d. Entediamo-nos muito bem. Ali\u00e1s, a \u00faltima coisa que ele me deixou foi um aut\u00f3grafo. \u201cAo Arnaldo Trindade, politicamente advers\u00e1rios, mas amigos\u201d. E at\u00e9 acrescentou \u201cO Porto \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Manteve-se consigo at\u00e9 aos \u00faltimos \u00e1lbuns?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do 25 de Abril as pessoas come\u00e7aram a comprar os discos n\u00e3o pelo que eles eram, mas sim a conot\u00e1-los politicamente. Muitos n\u00e3o gostavam do Zeca por ser de esquerda. Isso reflectiu-se nas vendas. O contrato dele era muit\u00edssimo caro, para ser comercialmente poss\u00edvel t\u00ednhamos que vender. Disse-lhe que ele estava a encaminhar-se para coisas mais violentas e que certa parte do mercado n\u00e3o gostava.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Costumava dar-lhe indica\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca interferi em nada na cria\u00e7\u00e3o, s\u00f3 recusei um disco que ele fez sobre a tomada da sede do PPD em Set\u00fabal, um single editado pela LUAR [Liga de Unidade e Ac\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria]. Deve ter sido por volta de 75. Aquilo era um panfleto e eu panfletos n\u00e3o gravo. Gravo poesia e ideias, agora mata e esfola n\u00e3o \u00e9 comigo, nem de um lado nem de outro. Fic\u00e1mos amigos na mesma. O \u201cFados de Coimbra\u201d [1981] foi o \u00faltimo que gravei, para poder recuperar investimentos que n\u00e3o estavam a dar frutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Foi pac\u00edfico o afastamento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim. Ele j\u00e1 andava perturbado com a doen\u00e7a. Quiseram fazer uma editora com todos os cantores mas n\u00e3o deu nada. N\u00e3o existem discos sem editores e um editor tem que ser independente, como um juiz imparcial. Descobrir o que \u00e9 bom, o que se vende e o que \u00e9 bom mesmo que n\u00e3o se venda. Grav\u00e1mos o Jos\u00e9 Calv\u00e1rio com a Orquestra Sinf\u00f3nica de Londres. Veja o bal\u00fardio. T\u00ednhamos o melhor que havia. S\u00f3 nos faltava a Am\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Quando esteve com o Jos\u00e9 Afonso pela \u00faltima vez?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me recordo. Ainda o via mas ele andava ocupado com a parte revolucion\u00e1ria. Penso que vivia numa luta \u00edntima entre o belo da poesia e o sentido social que tinha. Era um g\u00e9nio sensacional desinteressado de tudo. Ia cantar a todo o lado sem levar um tost\u00e3o e nem sei se n\u00e3o ter\u00e1 passado dificuldades quando deixou de gravar, com o turbilh\u00e3o do PREC. Perdeu-se a utopia do in\u00edcio, em que ele era grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por Maria Ramos Silva | <a href=\"http:\/\/www.ionline.pt\/boa-vida\/arnaldo-trindade-zeca-era-charmeur-humor-extraodinario\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal i<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arnaldo Trindade.\u201cO Zeca era um \u2018charmeur\u2019 com um humor extraodin\u00e1rio\u201d Em 1968, contra tudo e todos, o criador da editora Orfeu arriscou editar \u201cum g\u00e9nio sensacional\u201d. 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