{"id":12683,"date":"2011-11-14T18:27:35","date_gmt":"2011-11-14T18:27:35","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=12683"},"modified":"2021-12-17T11:37:55","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:55","slug":"festival-do-rio-1972-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/festival-do-rio-1972-12\/","title":{"rendered":"Festival do Rio, 1972 (1\/2)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Corriam os cinzentos dias de Setembro de 1972, ao que diziam, tempos de primavera marcelista, quando o pa\u00eds soube que, num concurso envolvendo os leitores do &#8220;Di\u00e1rio de Lisboa&#8221;, Jos\u00e9 Afonso tinha sido escolhido para representar Portugal no VII Festival Internacional do Rio de Janeiro.<br \/>\nO Festival do Rio de Janeiro perdera as suas ra\u00edzes e caracter\u00edsticas populares, os tempos p\u00f3s-Woodstock levaram a que fosse permitida a entrada a conjuntos musicais com aparelhagem electr\u00f3nica.<br \/>\nPara tr\u00e1s ficaram os tempos da m\u00fasica popular brasileira, tempos que permitiram, como por exemplo, em 1968, em plena ditadura brasileira, que Geraldo Vandr\u00e9 cantasse &#8220;Para N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei de Flores&#8221; em que, caminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o aprendendo e ensinando uma nova li\u00e7\u00e3o, vem, vamos embora que esperar n\u00e3o \u00e9 saber quem sabe faz a hora n\u00e3o espera acontecer, era chegado o tempo de lutar pela Democracia e a Liberdade.<br \/>\nPor outro lado, o Festival fora tomado pelas editoras discogr\u00e1ficas que impuseram a sua lei, e o transformaram numa enorme salgalhada.<br \/>\nJos\u00e9 Afonso, que sempre se recusou a ser vedeta, n\u00e3o tinha nada a ver com a escolha dos leitores do jornal, mas caiu mal, entre as virgens ofendidas de alguma esquerda, que aquele, de quem Nat\u00e1lia Correia dissera que \u00e9 pela tua garganta que soltamos, as eri\u00e7adas aves proibidas, que no muro do medo desenhamos, n\u00e3o tivesse dito n\u00e3o \u00e0 sua a sua participa\u00e7\u00e3o no festival.<br \/>\nJos\u00e9 Afonso, j\u00e1 no Rio de Janeiro, confrontado com o paleio das virgens, e com aquela deliciosa ingenuidade, aquela natural sinceridade que sempre o acompanhou, disse que, sim senhor, aquilo era uma aldrabice mas que se estava a borrifar para o festival e apenas aproveitou a boleia para ir conhecer mundos e gentes que h\u00e1 muito queria conhecer e foi isso o que andou por l\u00e1 a fazer: feijoadas, caipirinhas, tardes em casa de Jackson do Pandeiro, conversas com Clementina de Jesus, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Gilberto Gil, ida ao teatro para ver &#8220;O Interrogat\u00f3rio&#8221;, pe\u00e7a de Peter Weiss, ida ao cinema para &#8220;A \u00daltima Sess\u00e3o&#8221;, filme de Peter Bogdanovich.<br \/>\nN\u00e3o fui ao FIC pelos pr\u00e9mios ou para consciencializar pessoas mas para sair, um pouco, deste c\u00edrculo vicioso, para respirar outros ares.<br \/>\nN\u00e3o acredito em festivais e muito menos neste. O festival n\u00e3o \u00e9 realmente popular, se o fosse os bilhetes n\u00e3o seriam t\u00e3o caros. A minha presen\u00e7a aqui deve-se a uma vota\u00e7\u00e3o popular que muito me honra e \u00e0 qual eu tinha de dar uma satisfa\u00e7\u00e3o. De resto, tudo o que menos me interessou foi festival tudo o que ele \u00e9 e o que pretende.<br \/>\n\u00c0s tais virgens ofendidas deixou recado: nunca surgem nas horas decisivas. \u00c9 triste!<br \/>\nAs ditas, se agoniadas estavam, pior ficaram e lembra bem o que lhe chamaram. Um dia talvez se disponha a colocar as loas, os elogios, tutti quanti, que as tais virgens, depois do 25 de Abril, disseram e escreveram sobre Jos\u00e9 Afonso.<br \/>\nPor ele, que n\u00e3o \u00e9 formado nem deformado, limitou-se a compreender, a andar para frente, indo ao encontro de uma receita que o av\u00f4, republicano hist\u00f3rico, costumava dizer: os amigos quando n\u00e3o t\u00eam virtudes h\u00e1 que invent\u00e1-las.<br \/>\nO &#8220;Di\u00e1rio de Lisboa&#8221; era um jornal feito e lido por gente de esquerda, ou melhor por gente anti-regime. N\u00e3o espanta a escolha que, obviamente, n\u00e3o podia cair em Ant\u00f3nio Calv\u00e1rio, ou Artur Garcia, ou Simone, ou Paula Ribas.<br \/>\nCalhou-lhe em sorte abrir o Festival e apanhou um p\u00fablico selvagem (quinze mil ou muito mais) a entrar fora de horas, cerveja na m\u00e3o, a mandar papos e all\u00f4s, para o lado e, para l\u00e9m disso, h\u00e1 que juntar a p\u00e9ssima ac\u00fastica do Maracanh\u00e2zinho.<br \/>\nInquieto e nervoso, Jos\u00e9 Afonso cantou a lind\u00edssima &#8220;A Morte Saiu \u00e0 Rua&#8221;, evoca\u00e7\u00e3o do assass\u00ednio, pela PIDE, do pintor Jos\u00e9 Dias Coelho, na Rua da Creche, e que hoje tem o seu nome, no dia a 19 de Dezembro de 1961, can\u00e7\u00e3o que h\u00e1-de fazer parte do \u00e1lbum &#8220;Eu Vou Ser Como a Toupeira&#8221; que sair\u00e1 em Novembro de 1972.<br \/>\nCom toda a naturalidade foi eliminado.<br \/>\nPara completar, mais ou menos, o informe, diga-se que o Festival, por escolha do j\u00fari da organiza\u00e7\u00e3o, e angariado pelas editoras, foi ganho por David Clayton-Thomas, ex-vocalista dos Blood, Sweat ant Tears, que interpretou &#8220;Nobody Calls Me Prophet&#8221;, que o j\u00fari popular escolheu a can\u00e7\u00e3o &#8220;Aeternum&#8221;, do grupo italiano Formula Tre, que Demis Roussos p\u00f4s a plateia em del\u00edrio, que Baden Powell e Jorge Ben, brasileiros e de qualidade, passaram ao lado do j\u00fari e da gentalha, que can\u00e7\u00f5es de Paul Mauriat e Georges Moustaki, foram eliminadas e que Astor Piazzola, que foi ao festival por imposi\u00e7\u00e3o da sua editora, apresentou a can\u00e7\u00e3o &#8220;Ciudades&#8221;, cantada pela sua mulher Amelita Baltar, que se fez acompanhar pelo seu Bandoneon e um conjunto que inclu\u00eda um violino, foi, durante a actua\u00e7\u00e3o, simplesmente vaiado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/guedelhudos.blogspot.com\/2011\/11\/festival-do-rio-1972-01.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lu\u00eds Pinheiro de Almeida<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corriam os cinzentos dias de Setembro de 1972, ao que diziam, tempos de primavera marcelista, quando o pa\u00eds soube que, num concurso envolvendo os leitores do &#8220;Di\u00e1rio de Lisboa&#8221;, Jos\u00e9 Afonso tinha sido escolhido para representar Portugal no VII Festival Internacional do Rio de Janeiro. 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