{"id":12391,"date":"2011-09-23T19:05:04","date_gmt":"2011-09-23T19:05:04","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/?p=12391"},"modified":"2021-12-17T11:37:56","modified_gmt":"2021-12-17T11:37:56","slug":"jose-afonso-e-jose-niza-2-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-e-jose-niza-2-historias\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso e Jos\u00e9 Niza: 2 hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-12392\" title=\"Zeca-Coimbra4\" src=\"https:\/\/aja.pt\/wp-content\/uploads\/media-archive\/2011\/09\/Zeca-Coimbra4.jpg\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"355\" \/><br \/>\n<span style=\"font-size: x-small;\">Jos\u00e9 Afonso canta acompanhado por Levy Baptista, David Leandro, Jos\u00e9 Niza e Sousa Rafael (Cine-Teatro Restaura\u00e7\u00e3o, Luanda, 1958)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DE COMO OS SAPATOS DO ZECA AFONSO DOBRARAM O CABO BOJADOR<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o sol era nascido acima do horizonte atl\u00e2ntico que se avistava do paquete \u201cP\u00e1tria\u201d, de regresso a Lisboa com a Tuna Acad\u00e9mica. O pelot\u00e3o da noite regressava \u00e0s \u00abcasernas\u00bb da 2\u00aa classe para retemperar energias para o dia seguinte.<br \/>\n\u00c9ramos uns tr\u00eas ou quatro, incluindo o Zeca e eu, de viola, caminhando no deck, da r\u00e9 para a proa.<br \/>\nA noite tinha sido m\u00e1gica. Cabelos ao vento, qual deusa grega, Nat\u00e1lia Correia recitou poemas que a brisa levou e o Zeca cantou umas coisas que j\u00e1 n\u00e3o eram fado, e que ainda n\u00e3o eram balada.<br \/>\nNa rotina dos cuidados de higiene e limpeza do navio, um marinheiro mangueirava o deck com fortes jactos de \u00e1gua marinha.<br \/>\nCaminh\u00e1vamos. De repente, o Zeca parou e disse: \u00abTenho os p\u00e9s molhados\u00bb. E flectiu a perna para inspeccionar o que se passava com a sola dos seus sapatos. Assistimos ent\u00e3o a uma revela\u00e7\u00e3o: as solas de ambos continham crateras do tamanho de medalhas comemorativas de n\u00e3o sei o qu\u00ea; e onde devia haver sola, cabedal ou couro, s\u00f3 havia buracos, e mais, onde devia haver meia, tamb\u00e9m n\u00e3o havia.<br \/>\n\u00c0 luz nascente daquele novo dia, a \u00fanica e primeira coisa que se vislumbrava, enquadrada pela moldura do buraco, era a pele da planta do p\u00e9 do cantor, que ele, agredido na sua sensibilidade cut\u00e2nea, dizia \u00abmolhada\u00bb.<br \/>\nE ent\u00e3o, o Zeca, lentamente, descal\u00e7ou o primeiro sapato. Depois, o segundo. E, num gesto e movimento que me lembrou aquela devolu\u00e7\u00e3o que os \u00abmatadores\u00bb fazem para o p\u00fablico, das ofertas que lhes atiram para a arena na volta triunfal das lides, o Zeca lan\u00e7ou os sapatos ao mar.<br \/>\nAinda se mantiveram \u00e0 tona por segundos. Depois, foram rapidamente engolidos pela espuma e deglutidos pela suc\u00e7\u00e3o do mar.<br \/>\n\u00abE agora, Jos\u00e9?\u00bb &#8211; teria pensado eu.<br \/>\n\u00ab\u00d3 Zeca, como aqui no barco n\u00e3o h\u00e1 sapatarias, como \u00e9 que vai ser amanh\u00e3?\u00bb<br \/>\nO Zeca, descal\u00e7o e de pe\u00fagas rotas e molhadas, caiu finalmente em si:<br \/>\n\u00ab\u00c9 p\u00e1, pois \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 sapatarias&#8230; \u00bb<br \/>\nNo dia seguinte, quando o avistei, a primeira coisa que fiz, com curiosidade, foi olhar para baixo, para o ch\u00e3o, para ver como era o pedestal da est\u00e1tua. Um espanto: sapatos reluzentes, engraxados, talvez de marca.<br \/>\n\u00ab\u00d3 Zeca, onde \u00e9 que, como \u00e9 que&#8230;\u00bb, perguntei eu.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o me lembro da resposta dele, nem penso que interesse para o caso porque, \u00e0s vezes, as respostas j\u00e1 v\u00eam contidas nas perguntas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abCORO DOS TRIBUNAIS\u00bb, CHOURI\u00c7O E VINHO TINTO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, j\u00e1 depois do 25 de Abril, o Zeca Afonso foi a Londres gravar mais um dos seus discos, o \u00abCoro dos Tribunais\u00bb. Competiu-me a mim a produ\u00e7\u00e3o e ao Fausto a concep\u00e7\u00e3o dos arranjos e a direc\u00e7\u00e3o musical.<br \/>\nO Zeca, sobretudo quando gravava no estrangeiro, gostava sempre de convidar outros m\u00fasicos e outros cantores. Sentia-se melhor assim, mais acompanhado, e gostava tamb\u00e9m de ouvir as suas opini\u00f5es e as suas sugest\u00f5es.<br \/>\nDessa vez, al\u00e9m do \u00abn\u00facleo duro\u00bb do disco (Fausto, Carlos Alberto Moniz, Michel Delaporte, Y\u00f3rio) estavam tamb\u00e9m o Adriano e o Vitorino, mas nenhum teve envolvimento permanente na grava\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE, assim, enquanto n\u00f3s est\u00e1va\u00admos em full-time na grava\u00e7\u00e3o, e o Vitorino e o Adriano andavam turisticamente por Londres, \u00e0 descoberta de coisas.<br \/>\nUm belo dia, a meio da tarde, entram os dois, esfuziantes de contentamento, est\u00fadio adentro.<br \/>\nInterrompida a grava\u00e7\u00e3o e perante a estupefac\u00e7\u00e3o dos engenheiros de som ingleses, o Vitorino anuncia a grande not\u00edcia: ali mesmo, a dois passos do est\u00fadio, tinham descoberto um \u00ablugar\u00bb onde se vendia chouri\u00e7o, presunto, vinho tinto e p\u00e3o caseiro!<br \/>\nMais n\u00e3o bastou para que instrumentos musicais e outros apetrechos sonoros e ac\u00fasticos<br \/>\nfossem postos em repouso, perante o ar incr\u00e9dulo dos ingleses.<br \/>\nE o Zeca disse: \u00abBem, vamos l\u00e1 ent\u00e3o ao chouri\u00e7o e a molhar a goela\u00bb! E se assim o mandou, melhor o fez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso canta acompanhado por Levy Baptista, David Leandro, Jos\u00e9 Niza e Sousa Rafael (Cine-Teatro Restaura\u00e7\u00e3o, Luanda, 1958) &nbsp; DE COMO OS SAPATOS DO ZECA AFONSO DOBRARAM O CABO BOJADOR J\u00e1 o sol era nascido acima do horizonte atl\u00e2ntico que se avistava do paquete \u201cP\u00e1tria\u201d, de regresso a Lisboa com a Tuna Acad\u00e9mica. 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