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Cesto

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ALINHAMENTO

01. Rio largo de profundis
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Era um redondo vocábulo
LETRA/MÚSICA José Afonso

03. Nefretite não tinha papeira
LETRA/MÚSICA José Afonso

04. Adeus ó Serra da Lapa
LETRA/MÚSICA José Afonso

05. Venham mais cinco
LETRA/MÚSICA José Afonso

06. A formiga no carreiro
LETRA/MÚSICA José Afonso

07. Que amor não me engana
LETRA/MÚSICA José Afonso

08. Paz poeta e pombas
LETRA/MÚSICA José Afonso

09. Se voaras mais ao perto
LETRA/MÚSICA José Afonso

10. Gastão era perfeito
LETRA/MÚSICA José Afonso


Prémio Casa da Imprensa
para Melhor Interpretação

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu STAT 017)
gravação

Estúdio Aquarium, Paris (de 10 a 20 de Outubro de 1973)
engenheiro de som
Gilles Sallé
produção
José Niza
arranjos e direcção musical
José Mário Branco
músicos
José Afonso: Voz, coros e palmas
Michel Crone: Violino
Yório Gonçalves: Viola
Alan Noel: Trompa
André Carradot: Trompa
Michel Bergès: Trompa
Mário Jorge Bonito: Palmas
Jorge Luz: Palmas
Janine de Waleyne: Voz
Jean Claude Dubois: Harpa
Jean Claude Naude: Trompete
Ricardo Galeazzi: Quena
Lockwood: Flauta
Benedetti: Violoncelo
Michel Buzon: Trompete
Michel Grenu: Saxofone tenor
Marcel Perdigon: Trombone
Michel Delaporte: tampura, cuíca, roca, pratos, tarola, bombo, tambor, pandeiro, reco-reco, a-go-go, chocalho, maracas, tumbadura e campainha.
José Mário Branco: Piano, órgão Hammond, piano Pipper, fole do João, efeitos de sopro, percussões, palmas, pandeireta, voz do alto, coros e coros a quatro vozes.
capa
José Santa-Bárbara

edições estrangeiras
Moçambique, Espanha

LP/33rpm

Venham mais cinco, 1973

"Zeca e Zélia Afonso, mais Mário Jorge Bonito e Jorge Luz, estavam na régie e ouviram todo o disco, de fio a pavio, dando o seu aval final às gravações que os tinham ocupado durante os dias anteriores.
“Está tudo bom?”, perguntou José Mário Branco. Assim que o “sim” pretendido chegou, o corpo cedeu, desabou sobre a mesa e ali ficou, imóvel. “Só não fui de ambulância para casa porque eles perceberam logo o que se tinha dado”, recorda hoje o músico escolhido por Zeca para dirigir os trabalhos de estúdio do seu sexto álbum na Orfeu, Venham Mais Cinco.
“O que se tinha dado” é simples de explicar. Nos caminhos por vezes algo insondáveis da correspondência pré-25 de Abril, do material enviado por José Afonso a José Mário Branco para preparar o seu novo álbum, apenas as letras encontraram o caminho para a casa parisiense onde este morava na altura. As maquetas, os fundamentos melódicos e as ideias a partir das quais José Mário deveria começar a desenhar com antecedência os contornos concretos do disco nunca lhe bateram à porta. Até ao dia em que foi o próprio Zeca que, no lugar de umas gravações de trabalho, se apresentou perante José Mário para lhe apresentar as canções em carne viva. Faltava menos de uma semana para o calendário ditar o início do registo de Venham Mais Cinco. Com um disco de intervalo – Eu Vou Ser Como a Toupeira, de criação colectiva em Madrid –, Zeca volta a colocar as suas canções nas mãos de José Mário Branco. Depois do resultado absolutamente genial (palavra que devia ser de uso raro, mas aqui justificada) de Cantigas do Maio, a opção de um disco em total clima de fraternidade volta a dar lugar ao trabalho mais metódico e rigoroso de José Mário. “Para já porque o Cantigas tinha corrido bem”, diz o “produtor” justificando a sua nova parceria.
“E porque tinha corrido medianamente o disco que ele fez entre estes dois, em Madrid”. Gravando novamente em Paris, desta vez a viagem faz-se não para Hérouvillle – “tinha acabado de fechar por quezílias entre sócios”, explica José Mário –, onde se gravara Cantigas, mas para um novo estúdio que Gilles Sallé tinha entretanto fundado com o seu assistente Christian Gence, num centro comercial situado na zona sul de Paris. “Era como se fosse uma loja num centro comercial mas eles isolaram aquilo, pintaram os vidros e chamaram-lhe estúdio Aquarium”, recorda ainda. Com Zeca, de Portugal, segue o guitarrista brasileiro Yório da Costa Gonçalves. Músico de grande primor técnico, cheio de música a escorrer-lhe das mãos, assim que chega a Portugal Yório encontra-se com dois primos que haviam emigrado antes e conheciam já o país. Com eles, Yório forma um grupo chamado Acaua, que vai tocando por aqui e por ali, e através deles – e do amigo comum, o médico José Ribamar das Neves – chega igualmente a José Afonso. “O Ribamar das Neves falou a meu respeito com o Zeca, que na altura estava procurando um violão para concertos e gravações”.
“Depois disso”, vai Yório buscar à prateleira das memórias, “ele marcou um encontro na casa de um amigo comum dos dois que também era médico e que de vez em quando fazia caricaturas para um matutino lisboeta”. Foi nesta casa anónima que Yório e Zeca finalmente bateram com os olhos um no outro e foi nesse encontro que o guitarrista ouviu pela primeira vez uma canção nova, intitulada “Venham Mais Cinco”. “Tocámos juntos e lembro-me de achar a canção muito bonita pois havia aquele ritmo e aquelas harmonias bem africanos. Ficámos de nos encontrar em breve, mas infelizmente recebi a notícia de que o Zeca havia sido preso e estava em Caxias”.
Foram 21 os dias na prisão de Caxias. Os movimentos de Zeca Afonso andavam sempre debaixo de um olhar especialmente atento e controlador por parte da Direcção-Geral de Segurança (DGS) e tinham sido já várias as vezes que fora chamado ao posto de Setúbal da polícia política. Aos olhos do regime e do seu policiamento, Zeca era, naturalmente, um cidadão incómodo, capaz de acicatar ânimos, e abertamente contestatário da ditadura instalada. A 20 de Abril de 1973, quando a DGS lhe bate à porta da casa de Setúbal, passa a habitação a pente-fino. O episódio seria assim recordado pelo próprio: “A última vez que fui preso tinha ido esperar o meu pai ao aeroporto. Vim para casa, dormi mal e no dia seguinte bateram à porta. O meu filho Zé Manel foi abrir. O inspector apresentou-lhe o crachat da polícia e ele voltou-se displicentemente para a sala a dizer "Oh pai, é a prestimosa!. O tipo entrou e fizeram a vasculhação”. Descobrem então propaganda política portuguesa e galega.
Desde logo colocado no isolamento, Zeca é interrogado várias vezes. Ao fim de seis dias, recebe papel e caneta. Não podendo evadir-se de outra forma, desenha as palavras com um propósito escapista, embarcando frequentemente em textos (cerca de 20) de teor surrealista, entre os quais “Era Um Redondo Vocábulo”. “Podia ser uma canção de combate”, coloca José Jorge Letria em perspectiva, “a dizer "romper as grades e voar!. E não, faz um texto absolutamente surrealista, de um homem que pode estar à beira da loucura e está na pura efabulação surreal. Todo ele é um texto cifrado, de um homem que está em profundo sofrimento”. Não tendo uma guitarra para lhe aprouver, Zeca constrói toda a música, toda a estrutura melódica e armazena-a na cabeça. Anos mais tarde (1980), em entrevista a José Carlos Vasconcelos publicada no jornal Se7e, o músico bifurca as suas canções: “O primeiro tipo reflecte a linguagem directa, que se ouve nas ruas. São canções tanto quanto possível didácticas (não paternalistas) e portanto de assimilação imediata, pretendendo-se encerrar numa quadra um conjunto de vivências que pertencem a muita gente”. Representam, numa certa medida, o compromisso de Zeca, na sua função de amplificador da voz do povo – muitas vezes turva, indistinta e um rumor de vozes pouco discernível se deixada à sua sorte, mas clara, explicada, inquisitiva se devidamente canalizada e processada por um canal limpo e iluminado como era o seu canto. Uma segunda ordem de canções, que o próprio exemplificava com “Nefretite Não Tinha Papeira” ou “Tenho Um Primo Convexo”, “não terão função nenhuma numa assembleia popular, mas que eu gosto igualmente de fazer”.
“Depois de Caxias, voltei a vê-lo passado um mês”, lembra Yório. A relação entre os dois estava ainda muito no início, Yório ainda nem sequer acompanhara Zeca ao vivo, “até porque ele se acompanhava em várias canções”. Na companhia de Ribamar, o elo comum, Yório segue até Setúbal. “Foi lá que ele falou que queria que eu tocasse no disco que ele ia gravar, o que aceitei de imediato. Mas nem nessem dia nem nos tempos em que estivemos juntos para tocar e compor, ele nunca comentou nada a respeito de Caxias, e como sei que foi doloroso também eu não disse nada”.
Com Yório já instalado, a viver com Zeca em Setúbal, “de lá foram saindo as canções com quase todas as letras prontas, à excepção de uma ou duas que ele ia mudando”. “Venham Mais Cinco”, a primeira de todas que Zeca lhe mostrara para integrar esse disco, a canção nuclear, talvez o último exemplo maior da sua cartilha de canções de agitação popular, constituía também uma excepção, mas em contramão, em sentido contrário. Estava integralmente gizada – “já não havia espaço para arranjo de viola, pois até já havia o interlúdio no meio dos versos, que era ideia do Zeca, e foi a única música que já tinha harmonia própria”, recorda o guitarrista –, Yório tinha apenas de assumi-la. “Nas canções seguintes, a parte da viola corresponde sempre a arranjos meus e o Zeca deu-me liberdade para tocar, embora sempre trocando ideias para que se conseguisse um bom resultado”. José Mário conhece Yório naquele preciso momento em que lhe aparece à porta, com Zeca e José Niza, músico e representante da Orfeu, os tais quatro ou cinco dias antes da data marcada para a entrada em estúdio. “Foi terrível, terrível”, recorda José Mário Branco, então como antes interpretando a sua função não como fazedor de arranjos ou de orquestrações, mas sim de encenações sonoras.
Comparativamente a Cantigas do Maio, reflecte, “o Venham Mais Cinco foi mais problemático – o processo, não o ambiente e o relacionamento, que foram excelentes. Foi mais físico”. E físico, naturalmente, porque a “planificação foi prolongada para dentro das datas de gravação”. “Foi a directa mais longa da minha vida, mais longa até que os interrogatórios que tive na PIDE”, diz. “Fiz umas cinco directas por causa desse aspecto”.
Musicalmente, considera ainda José Mário Branco, “o teor das Cantigas é muito mais sugestivo de soluções heterodoxas”. Em Venham Mais Cinco, por outro lado, José Mário mantém a ideia de “encenações sonoras, mesmo que faça parte da encenação uma certa referência – que diria quase metafórica – à música de câmara erudita”, dada a presença de um pequeno ensemble de cordas. “Mas acho que isso também resulta bastante do guitarrista”, analisa. “Este guitarrista do Zeca nesta altura [Yório] é um tipo que não toca como o Carlos Correia, muito menos como o Rui Pato. É um brasileiro, com mais música na cabeça, com boa técnica, e portanto capaz de inventar coisas muito mais variadas, diferentes do costume”.
Forçado a imaginar as encenações durante a noite, a passá-las para o papel e a buscar no dia seguinte músicos capazes de lhes dar vida, José Mário é, às tantas, surpreendido por um pedido inesperado de Zeca. África, é bem sabido, começara já a fazer-se sentir cada vez mais na sua música, encontrando formas várias de se lhe infiltrar nos ritmos e nas melodias. José Mário contaria já que essas nuances nas composições de Zeca emergissem nalguns dos temas emalados para Paris, mas não contava com a necessidade imperiosa do músico para o tema “Venham Mais Cinco”: “O Zeca queria muito uma voz de preta”. Se os contactos que fora maturando no seu exílio parisiense lhe permitiam chamar bons músicos franceses em cima da hora, para dar resposta imediata àquilo que o disco ia exigindo no seu passo apressado para o final, perante esta situação a agenda de José Mário revelou-se insuficiente.
Começa então a telefonar a todos os amigos franceses, gentes da música e do teatro: “Pá, preciso de uma voz de preta, daquelas vozes muito doces, muito a rasgar, palhetada, muito africana, onde é que arranjo isso? Só oiço isso nos corais da África do Sul”. Depois de várias tentativas, alguém cujo nome já se perdeu nas bolandas do tempo, responde-lhe enigmaticamente: “Vou dar-te um número de telefone, mas não te assustes com o nome da pessoa e chama essa senhora para cantar”. Para as mãos de José Mário é assim passado um papelinho com um número, acompanhado de “um nome aristocrático”: Janine de Waleyne.
Waleyne é contactada e acede a passar pelo estúdio. Dá-se nesse momento o espanto colectivo quando entra “pelo estúdio adentro uma valquíria, uma mulher alta, loira, de olhos azuis”. Acontece que Janine de Waleyne era uma das fundadoras de Les Blue Stars de France, o primeiro grupo mundialmente conhecido de swing a capella. “Escrevemos as onomatopeias todas, quase uma transcrição fonética de como o Zeca queria aquilo pronunciado”, lembra José Mário. Depois de tudo explicado, a cantora pediu meia hora, retirou-se e enquanto os músicos iam avançando noutros afazeres, preparou-se sem falha. “Ela fez aquilo maravilhosamente, o Zeca ficou deliciado”. Venham Mais Cinco seria igualmente um disco carregado de humor, com alguns temas a raiar a caricatura. “Por exemplo”, conduz-nos José Mário Branco, “o "Paz, Poeta e Pombas! tem, feita por mim, a caricatura do locutor de rádio, que tinha sido o meu primeiro emprego em Portugal, mas há também a caricatura da salsa com trompetes, sax tenor e trombone e a caricatura do coro das formiguinhas”. O coro das formiguinhas, no tema “A Formiga no Carreiro”, não é mais do que as vozes dos músicos aceleradas, de velocidade duplicada.
Acelerando, mal o sabiam, estava também o tempo. E ao virar da esquina estavam ares de liberdade.
«Venham Mais Cinco» seria, pois, o último dos discos de Zeca gravado e publicado nos interstícios da ditadura. Em 1974, a periodicidade de um álbum novo por ano ficava pela primeira vez ameaçada e cumpria-se no limite. A novidade era outra e exigia total dedicação."
Gonçalo Frota
jornalista

VENHAM MAIS CINCO
A música foi feitas nas Astúrias quando andava com o Benedicto. O texto não me recordo se foi em Caxias, se não.

José Afonso