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LP/33rpm

Com as minhas tamanquinhas, 1976

ALINHAMENTO

01. Os fantoches de Kissinger
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Teresa Torga
LETRA/MÚSICA José Afonso

03. Os índios da Meia-Praia
LETRA/MÚSICA José Afonso

04. O homem da gaita
LETRA/MÚSICA José Afonso

05. O dia da unidade
LETRA/MÚSICA José Afonso

06. Com as minhas tamanquinhas
LETRA/MÚSICA José Afonso

07. Chula da Póvoa
LETRA José Afonso/Última quadra de Miraldina, da Cooperativa de Sta. Sofia
MÚSICA José Afonso

08. Como se faz um canalha
LETRA/MÚSICA José Afonso

09. Em terras de Trás-os-Montes
LETRA/MÚSICA José Afonso

10. Alípio de Freitas
LETRA/MÚSICA José Afonso

Prémio Internacional de Folclore «Deutscher Schallplatenpreis» atribuído
pela Deutsche Phono-Akademie

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu STAT 036)
gravação

Estúdios Arnaldo Trindade
som
Manuel Cunha, Moreno Pinto
mistura
Paco Molina
produção
José Niza
músicos

Vitorino, Cecília Barreira, Fausto, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Quim Barreiros, Luís Duarte, Michel Delaporte, Ramón Galarza
instrumentação
Violas, baixo, percussões diversas, flauta e acordeão.
capa
João de Azevedo
fotografia
Nick Boothman

edições estrangeiras
Alemanha e Espanha

SINGLE EDITADO A PARTIR DO LP

Os índios da Meia-Praia, 1977

ALINHAMENTO

01. Os índios da Meia-Praia
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Com as minhas tamanquinhas
LETRA/MÚSICA José Afonso

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu KSAT 586)
Capa
Renie

Lá pelos idos de 1975 eu fazia parte da «Pró-Frente dos Artistas Populares e Intelectuais Revolucionários», uma das muitas organizações voluntaristas que, à época, apostavam em “levar a cultura ao povo”. Reuníamos na sede do grupo de teatro “Comuna” e juntávamos toda a malta das cantigas e das artes em geral em torno de um vago consenso de imediatismo e – já agora – protagonismo: o José Afonso, o Vitorino, o GAC (Grupo de Acção Cultural – «Vozes na Luta», o Sérgio Godinho, a Tété (a Mulher-Palhaço), o poeta e “diseur” José Fanha, o cineasta Rui Simões, etc. Eu dirigia o GIM («Grupo de Intervenção Musical»), um grupo musical constituído por professores e estudantes do externato Nun’Álvares (o qual, em consequência desses tempos vertiginosos, havia sido transformado em cooperativa de ensino). Nos tempos livres, e de modo a satisfazer uma qualquer má consciência de classe, andávamos a reboque dos Comandos, a cantar por lugarejos à volta de Lisboa. Uma dessas noites, em meados de Novembro, recebo um telefonema da organização, dizendo que o José Afonso necessitava um guitarrista para o acompanhar no dia seguinte, numa sessão promovida pela Comissão de Moradores do Bairro da Encarnação. Lá fui, depois das aulas, com a Lourdes Coelho para casa do cantor, em Setúbal. A Zélia vem à porta e o José Afonso logo aparece, pijama e chinelos, acordados às tantas da manhã, mas com suficiente bonomia para nos receberem como se fôssemos amigos de longa data. No decorrer dos meses seguintes eu aprenderia a considerar a coisa mais natural do mundo entrar por aquela porta adentro desde o mais obscuro e clandestino militante da esquerda revolucionária internacionalista até alguém galardoado com o Prémio Nobel da Paz. O José Afonso queria estrear alguns temas novos no dia seguinte, temas que iriam fazer parte do LP «Com as minhas tamanquinhas». Não havia partituras (que, de resto, não serviriam para nada porque, à época, eu só tocava de ouvido...). Não havia gravações. Havia, isso sim, uns hieróglifos num caderno escolar, algo que se assemelhava vagamente a uns esboços de diagramas de acordes. Um dos temas era «Os fantoches de Kissinger», outro era «O homem da gaita», e ainda havia o «Teresa Torga». Acontece que o José Afonso, o cantor e compositor, já era um velho conhecido meu. Natural de Coimbra, politicamente baptizado na crise académica de 1969, sempre considerei as canções de José Afonso como parte do meu património intelectual. Muitas tardes de domingo passei eu em casa da Fernanda Jardim, no antigo bairro Marechal Carmona, em sessões que contavam com a participação frequente do Rui Pato, interpretando desde música clássica até Chico Buarque. Curiosamente, constato eu agora, nunca se abordava o fado de Coimbra. Repetíamos até à exaustão, como se de um ritual se tratasse, as canções do Zeca, do Adriano, do Freire e dos hoje injustamente esquecidos Duarte & Ciríaco. E foi assim que, não me considerando propriamente um caloiro no que diz respeito à obra de José Afonso, eu aprendi a apreciar a contribuição que os músicos acompanhantes (especialmente os guitarristas) operaram nos arranjos que hoje conhecemos através dos discos. Algumas canções do José Afonso tornaram-se emblemáticas não só pela intrínseca qualidade poético-musical, mas também por causa do talento criativo do(s) acompanhante(s). Vejam (ou melhor, oiçam) o caso de «Os vampiros», onde o Rui Pato interpreta um diálogo entre o arpejar de dois simples acordes e um baixo que realiza a indispensável cadência, tornando a canção inconfundível. E a entrada de «Traz outro amigo também», com as suas alusões lá pelo meio da canção, que eu aprendi a atribuir ao Bóris? Outro caso é o «Venham mais cinco», que só soa bem se utilizarmos a progressão harmónica e o dedilhado imaginados pelo Yório Gonçalves. E já nem sequer falo dos arranjos das canções do disco «Coro dos tribunais», um perfeito tratado de harmonia e ritmo, onde pontifica a arte do Fausto. Estamos, então, conversados: José Afonso, o cantor e compositor, já há muito fazia parte de mim, quando bati à sua porta naquela madrugada de Novembro. José Afonso, o homem, vir-se-ia a revelar nos meses subsequentes. Passámos o resto da noite a experimentar acordes e ritmos para as novas canções. Sem conhecimento musical formal, dominando apenas três ou quatro acordes em guitarra (e, por isso, utilizando abundantemente o transpositor), possuindo um arsenal de ritmos elementares, o compositor recorria aos mais variados expedientes para fazer passar a sua ideia. Sem paciência (ou ciência?), para afinar sequer a guitarra... Mas as ideias estavam lá e, à falta de melhor, utilizava o corpo como instrumento de percussão. Alguma vez o viram a tocar o adufe? Não à maneira das mulheres de Penamacor, mas colado ao peito. Aí, sim. Vinha-lhe aquele jeito africano, capaz de transformar uma chula numa marrabenta. Respiração alterada. Os braços e as pernas desengonçados, um inesperadamente sensual menear de ancas, como se tal fosse vital para canalizar para o exterior uma imensa força desconhecida. E a curiosidade, o perscrutar o desconhecido, o gosto pela experimentação, o respeito pela diversidade de ideias, o gozo pelo contraste, pelo absurdo. Assim: eu digo mata-se e ele diz esfola-se. E desta maneira os temas foram sendo construídos. De pouco nos valeu, porque no dia seguinte lá estávamos os dois na Encarnação … a tocar tudo de maneira diferente. Nesses concertos por toda a Europa, ainda o processo revolucionário português andava nas bocas do mundo, o José Afonso assumia “o papel de artesão intelectual que utiliza as suas humildes ferramentas para, num lugar subalterno, contribuir para a emancipação das classes exploradas”. Nunca saberei se esta era a sua opinião sincera. Se ouvirmos uma gravação de um desses concertos, é bem provável que se constate que o programa era, afinal, constituído por uns 75% de informação política e uns meros 15% de canções muitas vezes improvisadas, com versos adequados a situações locais. E os restantes 10% ainda sobravam para diálogo com a audiência. Era, agora mais do que nunca, o dilema José Afonso, o criador vs. José Afonso, o político. O criador das estórias exemplares (ouça-se o «Cantar alentejano»), nas quais defende uma estética musical que o leva a distanciar-se do modelo Coimbrão, está agora mais preocupado com a mensagem (ouça-se o «Foi na cidade do Sado»). E, a propósito de mensagem, afinal como foi que o «Lá Vai Jeremias» se veio a tornar uma peça indispensável nos seus concertos? Voltemos àquela madrugada de Novembro. Com o avançar do trabalho de arranjos das novas canções, fui-me dando conta da generosidade e abertura de José Afonso em relação às ideias dos outros. A determinada altura estamos a ponderar o facto do programa para o dia seguinte ser talvez demasiado, como dizer, intelectual. A Lourdes sai-se com a proposta de se cantar o «Lá Vai Jeremias» (tanto mais não seja por este ser um dos sucessos do GIM, acrescento eu). A canção reúne, de facto, todas as condições para estabelecer uma boa relação cantor-audiência: melodia repetitiva e de fácil assimilação, ritmo dançável, e quadras improvisáveis. Mas o que ditou a sorte do «Lá Vai Jeremias» foi a inocente quadra “Lá vai Jeremias, Lá vai Jeremão / Lá vai senhor alferes / Melhor capitão”, o qual passaria a funcionar, em termos de concerto, como uma sentida e militante homenagem aos “Capitães de Abril”! Como consequência de uma constante urgência, o trabalho em estúdio era um pouco… caótico. Acontece que quando escrevo caótico estou pronto a aceitar que alguns lampejos de génio provavelmente só podem decorrer desse mesmo caos. Afinal, quem mais se lembraria de imitar o Eanes como prólogo ao «Homem da gaita»? E mais: se naquele momento ali tivesse aparecido a Isabel Marquez, era bem possível que «Os índios da Meia-Praia» hoje ostentassem um virtuoso solo de “cuatro” venezuelano!...«
José Luís Iglésias, in «Desta canção que apeteço»
Músico